Lula e não Sérgio, mas Aldo Moro

O cativeiro de Aldo Moro. Qualquer coincidência com a prisão política de Lula pode não ser mero acaso.

Olhar para a história italiana da década de 1970 é como olhar para a história atual do Brasil num espelho invertido. Lá, a derrota começa com o assassinato de seu maior líder político, Aldo Moro. A tentativa de assassinato político de Lula, que é vista no conjunto onde se vemos o processo de impeachment, a tentativa de fechar o Partido dos Trabalhadores, e a imposição impopular de medidas econômicas colonizadoras, parece que faz reverter o sentido da história. A facção ultraliberal se move aceleradamente para o suicídio. O problema é que, antes disso, querem levar a maior parte da população junto com eles.

Para quem acha que comprar Lula com Mandela ou Gandhi é extremamente vago ou só serve para colocar nosso maior líder político como morto, o caso de Aldo Moro mostra uma continuidade real com o caso Lula, ou seja, permite traçar uma continuidade histórica quase que concreta entre casos distintos, e que demonstra o similar desenvolvimento das mesmas forças políticas, tanto do lado retrógrado quanto de movimentos progressistas da humanidade.

(texto originalmente escrito para o Jornal GGN)

Numa discussão iniciada aqui no GGN com um vídeo postado de Diego Fusaro, depois com o diálogo aberto entre um texto meu e alguns outros de meu xará, Rogério Maestri, acabei por ter aumentado meu interesse pela história recente da Itália. Segue aqui uma contribuição a mais para esse debate. Coloco no final um vídeo do jornalista italiano Giovanni Farsanella, que pode ser visto em continuidade com as discussões colocadas pelo filósofo Diego Fusaro.A Itália conseguiu criar um sistema de bem-estar social, nacionalista, uma política externa “altiva e ativa” (como dizia Celso Amorim), com a exploração de petróleo no Mediterrâneo e a ajuda decisiva no processo de descolonização dos países africanos. Começam as influências dos britânicos, e em certa medida dos franceses, na desmontagem desse estado de soberania nacional, até chegar a imputação ambígua sobre as Brigadas Vermelhas no sequestro e assassinato de Aldo Moro. Igualmente, os EUA e a União Soviética não viam com bons olhos um Estado-nação agir de maneira independente, e soberanamente, ao ampliar sua zona de influência que poderia chegar rapidamente à área de imediato interesse nas duas potências do pós-guerra, ou seja, o Oriente Médio. De fato, a exploração do petróleo na região criaria a autonomia energética e econômica necessária para o auto-desenvolvimento do norte da África e de seu entorno, assim como seria um atentado contra os interesses monopolísticos da City de Londres e Wall Street no mercado dos então novos “petrodólares”.

A ideia dos assassinos de Aldo Moro é que seu desenho político, uma grande coalizão partidária em nome de seu país, faria saltar o sistema estabelecido na Itália no pós-guerra. Não era que ele daria poder ao Partido Comunista, fadado pelo Tratado de Paz de 1947-7 a manter o PC como oposição, e somente oposição. Aldo Moro era um conservador, um político de centro, mas cujas práticas soberanas faria saltar o quadro político italiano para um arranjo não imaginado para a paz pactuada três décadas antes. Nesse desenho político de Moro, as Brigadas Vermelhas, reféns de um sentido da história que lhe deixaram isoladas socialmente quando Mussolini foi derrotado, continuariam sem encontrar o seu lugar, ou seja, a via da radicalização. Com seu interlocutor comunista a partir de 68-9, Enrico Berlinguer, Moro pactuava não um revolvimento súbito de todo sistema político-social-econômico italiano, mas uma chegada gradual a uma democracia plenamente participativa, o que, supostamente, era o objetivo de todo e qualquer política ocidental.

As implicações desse novo modelo tornaram-se logo um problema internacional. O Partido Comunista se voltaria aos problemas específicos de seu país, sem alternar entre o pecado de cair nas tentações ocidentais, mas também no perigo constante da subordinação total aos soviéticos; a Democracia Cristã perderia seu viés anti-comunista, ou seja, o partido pró-ocidental, ao invés de ser o defensor de uma ideia geral de democracia (digo isso no sentido de que se alude a uma democracia de caráter liberal que, nominalmente, é o cúmulo dos avanços civilizacionais no ocidente, porém é uma reedição das práticas políticas das mais arcaicas oligarquias), abstrato portanto, se tornaria caudatário da democracia participativa ao abrir espaço aos comunistas e demais expressões políticas não alinhadas dentro da Itália (“não alinhada”, é bom lembrar, se refere ao movimento dos países que não se alinhavam à lógica da Guerra Fria, como a Índia de Indira Gandhi. Ela, tal como Moro, foi brutalmente assassinada). Esse o desenho de Aldo Moro, em participação com o comunista Enrico Berlinguer.

Segundo Giovanni Farsanella, em 1974, ou seja, durante o governo Nixon (não por acaso o governo que desvincula o dólar de um sistema de trocas fixas internacionais, o primeiro atentado contra o acordo original de Bretton Woods, e onde também se inicia a “crise de desintegração econômica controlada” conhecida como crise do petróleo, que traria, junto à ruína do acordo costurado no pós-guerra por Nixon, à supremacia não só dos petrodólares, mas do Grupo Inter-Alpha e de todo sistema de cassino especulativo que refundou a Grã-Bretanha como uma nova espécie de império, não mais baseado em suas conquistas territoriais; Wall Street adere à metrópole. De fato, como sempre alertou Lyndon LaRouche, na segunda metade do século XX os EUA são recolonizados por um Império Britânico remodelado), acontece as tratativas entre os EUA, França, Inglaterra, Alemanha ocidental e a comunista, onde se falava publicamente sobre a intervenção na Itália através operações encobertas dos serviços secretos.

Mas isso não era um problema exclusivo das potências ocidentais. A partir de 68/69 havia o desejo da União Soviética de consolidar o regime no leste europeu, atravessado por uma onda reformista e liberal, como são exemplos a Primavera de Praga e as repressões violentas em agosto de 1968, na Tchecoslováquia, com os tanques do Pacto de Varsóvia. Breznev não podia permitir que um partido comunista chegasse ao poder através de eleições livres. De outro lado, o PCI de Enrico Berlinguer era um estuário de estabilidade frente às instabilidades do leste. Por que em Roma um partido de inspiração comunista poderia ser um resguardo à liberdade, e não em Praga, Budapeste ou Moscou? Segundo documentos agora revelados, igualmente a União Soviética infiltrou agentes nas Brigadas Vermelhas e em movimentos de extrema-direita, fascistas, na Itália, com o objetivo de desestabilizar a aliança entre Aldo Moro, social-cristão, com o comunista Enrico Berlinguer.

O período dessa grande coalizão política foi chamado de período da “solidariedade nacional”. Assim, foi um terror “vermelho” que assassinou Moro dentro dos quadros da lógica da Guerra Fria, com agentes estrangeiros tanto do lado comunista quanto dos alinhados aos EUA atuando nas Brigadas Vermelhas, cujos objetivos eram o descredenciamento do PCI e credenciamento, de ponta-cabeça, das “liberdades ocidentais”. A via Caetani, no  Palácio Caetane, lugar de sequestro de Aldo Moro, era um lugar onde se encontravam agentes secretos de todos os serviços de inteligência do mundo, em especial dos agentes ingleses. Comunistas e capitalistas trabalharam juntos não pela vitória das chamadas “liberdades ocidentais”, que Moro, mais do que ninguém, encarnava, mas da economia de mercado e no esvaziamento da soberania política italiana, em especial a sua influência nos países em sua imediata vizinhança geográfica e um pouco mais além, como demonstra o antigo projeto da empresa Bonifica, o projeto Transaqua, também dos anos 1970, para a reutilização plena do lado Chade, no centro da África, projeto hoje encampado pela China dentro de sua iniciativa Um Cinturão, Uma Rota.

Isso é muito sugestivo historicamente se fizermos a transposição das décadas e dos países. Num momento, a época da “crise do petróleo”, que encerra o primeiro ciclo de crescimento dos países do Atlântico Norte no período do pós-guerra. Sabe-se o que ocorreu na Itália nos 10-15 que seguiram ao “caso Moro” até a finalização da operação Mãos Limpas. No Brasil, um outro projeto, oriundo de um pacto social feito em torno da constituinte em 1988, mas que atravessa o período da queda do muro de Berlim e que se consolida bem no início da virada do século (acompanhado e até precedido pelos países vizinhos, com destaque para Hugo Chávez e Néstor Kirchner). Com a prisão de Lula, tenta-se fechar um outro “caso Moro”, com sinal invertido, numa quadra histórica que deve ser analisada com seus próprios pressupostos. Estabelecido alguns fatos, com a abordagem estabelecida, não fica difícil de “ligar os pontos”, principalmente se falarmos de um “grande acordo nacional”: um, o defendido por Aldo Moro e o defendido por Lula e seu governo de coalizão, tão criticado mesmo por quem lhe é próximo ou admirador. O resultado de ambos foi de grande “solidariedade nacional” e crescimento interno. O outro pacto, podemos ver na confluência de interesses comunistas e capitalísticos o redor das Brigadas Vermelhas, algo não menos terrorista do que o pacto reverberado por Romero Jucá, “com Supremo, com tudo”.

Porém, vivemos em uma outra situação internacional, sem bipartição ideológica, mas com forte polarização ocidente-oriente em todos os campos políticos, econômicos e nos paradigmas culturais. Sabemos como se vive numa situação muito similar, e ao mesmo tempo muito diferente, do tempo de Guerra Fria. Ao contrário daquela época, há um claro jogo em aberto; tão aberto que pode levar a um holocausto nuclear ou a uma vitória em tempo relativamente rápido das boas práticas econômicas ocidentais, mas com tempero chinês, anteparo russo, e com ampla acolhida em todas as regiões mais pobres do planeta, como a África, a América do Sul e o Oriente Médio.

Durante os anos da Guerra Fria tudo parecia se mover de modo mais lento, a não ser nos acelerados movimentos que levaram à Crise dos Mísseis. Sem a liderança de Kennedy talvez não restasse esperanças para a humanidade então. Foi ele também que fez valer a vontade de lançar o homem no espaço, o Projeto Apollo, concluído seis anos após seu assassinato. Kennedy não só reverteu as políticas dos irmãos Dulles que levaram à Crise dos Mísseis, como a desastrosa invasão da Baía dos Porcos, como era de sua intenção colaborar no programa espacial junto a União Soviética.

Um parêntese: para quem leu o livro sobre Cuba (“De Martí a Fidel”) do recentemente falecido historiador brasileiro Moniz Bandeira, Che Guevara, quando ainda permanecia nos altos cargos no governo revolucionário cubano, queria negociações com os EUA. Kennedy acenou afirmativamente, mas teve o caminho obstaculizado para seu encontro com os cubanos em inúmeras circunstâncias. No mais, rapidamente foi morto e seus projetos ficaram em aberto. O ideal de Che, como diz Moniz Bandeira, não era sair do jugo de um imperialismo para cair em outro (no caso, do jugo americano para o soviético). Ele queria industrializar Cuba e para isso propôs as conversações com os americanos e soviéticos. Frustrados seus projetos, voltou a luta armada, onde achava mais digno de se viver do que nas intensas negociações e reviravoltas da vida política oficial.

Se o caso de Aldo Moro demonstra o recrudescimento da Guerra Fria, a consolidação de um modelo econômico pós-Bretton Woods, com a proeminência da City de Londres e Wall Street e os petrodólares (início também, pelos mesmos motivos, da grande empresa transnacional Narcóticos S.A.), que aparentemente teve seu ponto de apogeu em 1989 com a queda do Muro de Berlim e a fragmentação e invasão dos cartéis internacionais no antigo território soviético, hoje a facção ultraliberal sufoca o governo de Donald Trump numa escalada para a guerra, tendo em vista que sua solução com Hillary Clinton (do partido pró-guerra, extraoficial, já que não pertence nem ao partido democrata nem ao republicano) não foi aceita nas urnas. O desespero em torno de uma “solução final” se dá porque o suposto consenso pós-democrático (na verdade, uma imposição) depois de 1989 cada vez vale menos num mundo que procura se afirmar como multipolar, com liderança chinesa, ao redor dos BRICS, movimento este que fere de morte o tipo de capitalismo ultraconsolidado durante o período da Guerra Fria. Deve-se identificar o partido pró-guerra, denunciá-lo, e alertar que suas ramificações vão além de um suposto “complexo industrial-militar”. Não é por outro motivo que a mesma turma do DOJ que trabalha pelo impeachment de Donald Trump age em parceria com a Lava-Jato (como também confirmaram, em um dos recursos ao TRF-4, os advogados de Lula, baseados na mesma matéria da Executive Intelligence Review, que viralizou na internet numa tradução do Clarín chileno com o título modificado). Ao contrário dos que acham que o ultraliberalismo venceu em 1989 e hoje continuará a vencer apesar de tudo, o jogo está em aberto, para muito além dos que acreditam que Lula afrouxou ao se entregar ou dos que acham que uma solução “iluminista”, com Fernando Haddad ou Ciro Gomes (o “êxtase” de alguns seriam os dois juntos, a solução utópica), resolveria um suposto “dilema das esquerdas” imposto com a prisão de Lula.

Muitos dos que compreendem utopicamente as soluções futuras, como os que julgam as soluções atuais sob o prisma do anacronismo histórico (Lula em armas como Brizola…), são os mesmos que não conseguem sequer entrever a dramaticidade do momento político internacional. O fato de não se importarem com o risco de uma guerra de grandes proporções é diretamente proporcional à incapacidade de enxergar num conjunto mais amplo os movimentos políticos atuais em nosso país. Sem compreender o processo político internacional como um todo, não conseguem ser portadores da grande alegria, do movimento de risco que precede a conclusão de um esforço numa plena gargalhada.

A maturidade dos povos é algo ainda mais difícil de narrar do que pensam os partidos que pedem uma solução via radicalização ou através de uma utopia “bem esclarecida”. Como disse Friedrich Schiller quando da Revolução Francesa, “um grande momento da história encontrou um povo pequeno”. Isso se repetiu na Guerra Fria, quando se encontrou dois povos muito pequenos. Hoje o sinal aponta em outra direção, de Hugo Chávez à Xi Jinping, mais da metade do mundo procura um novo paradigma para a humanidade. A facção ultraliberal se move aceleradamente para o suicídio. O problema é que, antes disso, querem levar a maior parte da população junto com eles.

PS: Foi uma entrevista de Giovanni Farsanella que me sugeriu muitas reflexões, assim como a de um jovem filósofo italiano, Diego Fusaro, este citado acima. Deixo os links para as duas entrevistas (ambas em italiano) para quem tenha tempo, interesse e ânimo para encarar.

https://www.youtube.com/watch?v=6F-Npp5jgSE

https://www.youtube.com/watch?v=WdnSMgm_RAE