Meus hackers de estimação

Com a história do hacker, o meme vira realidade

Quem hackeou Moro foi Bolsonaro. O antigo senhor agora vira escravo, como de costume.

No mundo todo, há uma impossível escolha entre capitalismo e anarquia, entre antigos escravos e novos senhores. Essa é a situação atual.

O grupo de terroristas

Bolsonaro não cria nenhuma narrativa. Paulo Guedes, junto com a mídia e o mercado, criaram a do milagre econômico proporcionado pela extinção da Previdência. A outra narrativa do governo é a do anti-petismo, filho dileto da república de Curitiba. Enquanto este míngua a olhos nus, o outro não se “desidrata”, mas tende a se decompor em praça pública.

Deve ser este o destino da primeira narrativa original saída do governo federal, o do ataque hacker. Sabendo que narrativa é uma articulação discursiva minimamente coerente mesmo se falsa, essa é a primeira invenção da nova presidência.

Fato não notado mesmo diante do problema dos navios iranianos tornado cativos pelas autoridades brasileiras: nos últimos dias apareceu um hacker de 19 anos que vazou mensagens enviadas pelo embaixador britânico de seu escritório em Washington para o Foreign Office. Sir Kim Darroch, enquanto jantava e se promovia com associados de Trump, trabalhava numa campanha para desacreditá-lo ou remove-lo do cargo.

É um estratagema antigo dos britânicos, afundados até o pescoço no escândalo do Russiangate e nas provocações militares à Rússia, como no caso do envenenamento de Sergei Skripal. O Império Britânico, sediado na City de Londres, opera a mão militar estadunidense enquanto mantém o sistema econômico-financeiro em estado de iminente colapso. Como Lyndon LaRouche dizia, a tática se traduz em “British brain and American brawn“.

Nas mensagens reveladas, Darroch descreve Trump como incompetente e de uma radical insegurança e sua administração não estaria apta a se tornar menos disfuncional, inepta e imprevisível. Como péssimo escritor, Darroch pede calma: Trump poderia “emergir das chamas, machucado mas intacto, como Schwarzenegger na cena final do Exterminador do Futuro. Não se pode ignorá-lo”. Não se trata de uma precaução propriamente dita por parte do embaixador, mas da esperança de encontrar uma margem de manobra para a política britânica dentro dos EUA.

Trecho significativo do editorial da Executive Intelligence Review que sigo até aqui em meu relato, é esse parágrafo:

Essa estratégia está sendo utilizada para levar Trump a uma guerra contra o Irã, alvo favorito tanto de Bolton quanto dos britânicos. Depois que o presidente se recusou, minutos antes, a autotizar um ataque contra o Irã em 21 de junho, Darroch escreveu que a política de Trump para o Irã é “incoerente, caótica”. Trump, ele acredita, não estava “totalmente empenhado” num ataque ao Irã, provavelmente preocupado que tal ação violaria sua promessa de campanha de 2016 contra novas guerras. Contudo, escreve o embaixador britânico, felizmente Trump está agora “cercado por um grupo de assessores mais radicais. (…) Apenas mais algum ataque iraniano em algum lugar da região pode desencadear ainda outra reviravolta total em Trump, forçando-o a iniciar um ataque militar contra o Irã”.

Sir Kim Darroch, Christopher Steele (do dossiê do Russiangate), Sergio Moro, Bolsonaro: sabemos quem são os terroristas de verdade.

Como desacreditar as fontes

Steven Edginton, o adolescente que hackeou o embaixador, foi logo apresentado pela imprensa transatlântica como um extremista, um antigo apoiador do Brexit. Para quem quiser saber mais sobre essa “evidente” conexão, está tudo lá na página do The Guardian.

Existe um dado de fato muito evidente, a de que a União Europeia foi a criação de um mercado ótimo de circulação de mercadorias através de uma união monetária travestida de união política. Para se comparar, caso um projeto como esse fosse implantado na América do Sul, seríamos para a região uma espécie de Alemanha e a Argentina como a França para o resto do setor do euro. Ampliando um pouco mais a comparação, deve-se ter em conta que o projeto euro é similar à finada ALCA. A única diferença é que não exerceríamos o papel inglório de Alemanha das Américas…

Se as minhas comparações não são boas, num texto breve como esse, faço referência a um livro muito bem aceito pela comunidade acadêmica brasileira, A nova razão do mundo, de Pierre Dardot e Christian Laval‎, onde essa constatação é feita sem alarde e dentro de lógica rigorosa. Podem ler um texto denso e bem articulado, escrito por Helga Zepp-LaRouche, onde ela explica como o euro, tal como nas fantasias de Goya, criou um monstro [aqui].

Na mesma onda onde se procura “resistir” a uma tão onipotente quanto genérica “extrema-direita”, surgem agora as reivindicações ambientais. Nada mais evidente no contexto brasileiro atual, entretanto. Para nos limitarmos a esse caso e não beirarmos a nenhum extremismo como a figura de propaganda do imperialismo Greta Thunberg, o caso brasileiro, o da devastação da Amazônia, é um caso antes de soberania nacional, de depredação e entrega a grupos parasitários (sejam eles nacionais ou estrangeiros), das riquezas do país.

Já se esqueceu que poucos anos atrás o ambientalismo era atacado não por causa de uma ofensiva de direita, mas porque seus argumentos eram associados a seu conteúdo político e não propriamente científico: a aposta de numa política ambiental planetária então era vista como um ataque às necessidades de desenvolvimento industrial dos países que não compunham o chamado “setor avançado”.

Uma anedota para estimular a memória: Eduardo Giannettti, então conhecido como “economista da Marina”, se lançava numa cruzada contra o consumo de carne no Brasil. Com a melhoria exponencial da alimentação da população, o tal do “pobre comendo carne”, Giannetti ficava preocupadíssimo com as emissões de CO2 que isso provocava (leia-se: o peido dos bois). Não era, no caso, um representante da “extrema-direita obscurantista”, mas um ultraliberal a toda prova. E como se diferença houvesse entre um e outro…

Novamente, Capitalismo e Anarquia

Voltando a Trump para tentar esclarecer um pouco melhor essa confusão de que o mundo está tomado por ditadores sanguinários, do tosco Bolsonaro, passando por Trump, Salvini, Xi Jinping e Putin (sim, eles são vistos em conjunto na imprensa “livre” do Atlântico norte). Ao contrário do presidente ilegítimo (não era só o Temer que foi ilegítimo e que ocupou a presidência através de uma fraude), Trump mostra o mínimo de racionalidade. Em primeiro lugar, refez as pontes de contato com os russos, completamente desfeitas (não “rotas”, mas desfeitas) por Obama e a escalada insana da OTAN nas fronteiras da Rússia (o que Stephen Cohen chamou de “Crise dos Mísseis invertida”). Grita muito, mas entabula diálogos bilaterais importantes, com resultados econômicos tímidos e resultados geopolíticos, pelo menos até agora, importantes.

Por outro lado, anuncia agora um acordo bipartidário nos EUA para aumentar o teto de gastos do país e poder, supostamente, reverter ou minorar a próxima crise econômica. Trata-se de mais uma rodada – da grande – de flexibilização quantitativa. O sistema financeiro ficou totalmente viciado em dinheiro grátis (quem não ficaria?) e caso não receba mais essa benesse, morre. Contudo, se ele não morre o impasse econômico se perpetua e a crise se agrava. Não há solução: ou uma guerra para realocar recursos, como feito com o 11/09, ou uma nova ordem econômica mundial.

Resumindo: Trump consegue fazer acordos de relativa importância (na maior parte no face a face) e mantém a falida política econômica de Obama com algumas mudanças marginais. Consegue manter essa política através de um acordo bipartidário, amplo [aqui]. Pois bem, Bolsonaro está a léguas de fazer ou sequer propor qualquer acordo político, a não ser no caso da extinção da Previdência onde se apoiou na vaidade de Rodrigo Maia e no massivo apelo da mídia. Bilaterais só ser for com o Macri… Com Trump ele não se porta entre iguais, mas simplesmente sai logo abaixando as calças. Até no Chile, com um presidente amigável, sai do país sob fortes críticas, inclusive vindas do executivo chileno, ao fazer seus normais elogios a ditaduras.

Trump talvez esteja mais próximo de Ciro Gomes do que de Jair Bolsonaro. Mostra um mínimo de racionalidade, não tem histórico nenhum de envolvimento com as lutas populares, de personalismo exacerbado e dado a arroubos aparentemente injustificáveis. Os arroubos de Bolsonaro, pelo contrário, seguem uma lógica implacável, muito característica de seu ser Bozo.

Não é que existe no mundo uma ameaça da extrema-direita, surgida nos últimos anos como oposição à falência do sistema neoliberal. A extrema-direita é o “brawn” enquanto os neoliberais são o “brain” do negócio todo. O consenso pós-1989 ruiu e é normal que não se tenha definições políticas mais claras no momento. O caso da Itália é clássico a respeito. O consenso formado após a queda do muro de Berlim faliu nos lugares onde conseguiu se manter por mais tempo, o chamado “setor avançado”, e se desmoralizou totalmente com a emergência da América Latina, da China e Rússia como atores globais.

Como mostra a situação dúbia da Itália, entre a parceria com a China e o populismo/liberalismo barato com Berlusconi/Mario Draghi [escrevi sobre aqui e aqui] e as ambiguidades do governo dos EUA, não há uma opção entre “civilização e barbárie”, porque muito do que se chama de “civilização” nada mais é do que a porcaria neoliberal reciclada. No ocidente como um todo, como mostram as situações de EUA e Itália, há uma impossível escolha entre capitalismo e anarquia. Essa é a situação atual.

Venho escrevendo essa série chamada Capitalismo e anarquia. Quem quiser ver seus episódios, clique aqui.