Miséria e Curitiba

Esse design inteligente e ousado foi eu mesmo que fiz.

Os canalhas querem que agora nos justifiquemos com “argumentos jurídicos”. Supostamente, a farsa do TRF-4 sepultou-os. Para a esquerda, dizem eles. Na verdade, houve a implosão de qualquer ordenamento jurídico. Entramos na lógica, ou nos querem fazer entrar na lógica, que legitima o sorriso superior da “festa dos eleitos”. Esse show bizarro que Amaury Jr. caracteriza muito bem, vai bem longe da lógica mais elementar. Caso se fale de moralismo, algo tão em voga, podemos usar um versículo bíblico: “Quando deres um festim, não convides teus amigos, nem os teus irmãos, nem os teus vizinhos ricos, para que não suceda que também eles te tornem a convidar e te seja isso recompensado.” (Lucas, 14.12). Quando deres uma festa, chame aos pobres e estropiados: essa a cisão que devemos operar. Da festa dos ricos de janeiro de 2018, a festa dos pobres, dos estropiados, nas eleições que se avizinham. A luta por essa repartição das riquezas é o objetivo de toda a campanha a favor de Lula, para além de qualquer consenso “das esquerdas” ou interpartidário.

 Os supostos “fatores jurídicos”

Para se resumir bem toda retórica curitibana, toda retórica pró-impeachment (é bom não esquecer), não se pode ter um líder popular, tampouco um executivo forte. Esse é o desejo dos não-brasileiros, ou agentes dos interesses estrangeiros no país, que tem interesse em acabar com a ideia de Estado-nacional soberano e deixar sob sua tutela nossa população. É uma política de guerra deliberada para cindir o tecido social numa espécie de confronto no estilo “gangue contra gangue”, ou seja, de diminuir a própria imagem que o homem tem de si mesmo. Ao homiziar cada uma das partes, cria-se um estado de confusão necessário para que se proceda o assalto ao país. O analfabetismo na área econômica, mais do que na jurídica, permite isso. No mais, se é para defender a democracia e o bem-estar da nação, deve-se respeitar e procurar compreender o posicionamento político de cada um – algo que não ocorre desde junho de 2013. Até porque dia 24 de janeiro não se fez justiça (e deve-se lembrar que não há transito em julgado, ou seja, juridicamente a presunção de inocência ainda vale, ainda que se tenha jurisprudência muito recente, em fase de teste e que passará em breve por revisão, que permite a prisão antes do trânsito em julgado; na constituição – artigo quinto – existe presunção de inocência e não presunção de culpa), mas utilizaram-se da justiça como forma de exercer a vingança. Não é possível que a aliança indecente entre polícia, juízes e promotores com a mídia tradicional (historicamente criminosa, cotidianamente deletéria) me passe alguma imagem razoável de como se forma ou não a culpabilidade de um homem. É isso, em suma, que se trata da chamada “parte jurídica” exposta na infame quarta-feira. No mais, dentro dos padrões básicos de civilidade, não sou eu que vou linchar alguém em praça pública. Isso não é só primitivo, mas bárbaro. Tempos super-modernos.

A riqueza não vem do Sul Maravilha

Esse é um assunto que dá laudas e mais laudas. Mas parece que a gente está participando do show do Amaury Jr., do festim dos ricos e poderosos. Não há espaço para o contraditório. Depois de quarta, só os sorrisos da Casa Grande.

Se a gente lembrar, em 2014, pela primeira vez na história, saímos do mapa da fome da ONU. Em 2015, atingimos o pleno emprego (ainda que a maioria no setor de serviços,etc., ou seja, com seus prós e contras). A operação Lava-Jato desmontou todo o setor de construção civil do país e, com o caos político criado por ela, colocou alguém no governo que acabou de pagar 10 bilhões de reais para acionistas estrangeiros da Petrobras, com a alegação de temor dos prejuízos de um processo judicial. Deram graça, já que nem em cálculos dos mais generosos, o litigante numa ação judicial sonha em receber o mesmo ou até mais do que pede. Os 10 bilhões são prejuízos supostos dentro de uma avaliação de custos da nova diretoria e influencia pela propaganda curitibana-midiática. Não existe argumento razoável a seu favor. No mais, sem Petrobras e sem investimento em infraestrutura não se cria emprego nesse país. Se há crise econômica é devido ao caos instalado por essa caça às bruxas judicial. O Banco do Brasil é a Petrobras.

A imbecilidade ambulante

No julgamento, os desembargadores somente fizeram a defesa de sua corporação e passaram a mão na cabeça do Moro, inclusive dos grampos ilegais, seja na presidência da república ou os grampos no escritório dos advogados do Lula. Isso é muito básico. Só demonstra as regras básicas do estado democrático de direito que não são respeitadas. E os exemplos avultam, muito além desses dois.

A prisão em segunda instância é recente e em breve será julgada novamente. Não deu certo. E, na prática, o Supremo está concedendo inúmeros habeas corpus para soltar pessoas presas depois do julgamento em segunda instância. Isso é consequência da paranoia neomacartista atual. Não permanece.

Igualmente, achar que o festim dos ricos ou a festa do Amaury Jr. representa uma vitória perene só confirma a incapacidade de análise da situação real de nosso país. Os filhos teratológicos disso, entre tantos exemplos, pode ser a OAS figurando como laranja de si própria, como estabelecido pelo compadre do Moro, ou crime de lavagem de dinheiro sem dinheiro, como falou, literalmente, o presidente do tribunal. Isso é ridículo como qualquer “show das estrelas”.

Fora da bolha Curitiba-Globo, o que mais há, dentro e fora do país, são contestações ao processo como um todo, e à operação Lava-Jato também. Fora dessa bolha, há um mundo imenso que não usa o vocabulário da Guerra Fria, da época da ditadura militar, para poder desqualificar um inimigo político. “Lula comunista”, apelido quase educado dentre tantos que se dão ao ex-presidente, é algo tão falso quanto “ato de ofício indeterminado”. O resto é verborragia ou xingamentos, palavras mais ou menos cultas, de dentro e de fora de Curitiba. Balelas, mesmo com todo ódio e convicções.

A roda da fortuna

A única evidência de dinheiro com Lula são os 9 milhões apreendidos pelo Moro. Dinheiro de palestra, na maioria. Todas declaradas à Receita. Isso não é alvo de processo. E a maioria desse dinheiro estava aplicado em previdência privada para os filhos dele. O que é alvo de processo é o tal do triplex e as reformas do sítio. A guarda do acervo presidencial foi descartada. As denúncias contra o Lula estão baseadas naquela Power Point do Dellagnol, onde ele disse, para além de toda a bizarrice do modo como foi apresentada, que Lula chefiou o maior esquema de corrupção da história do país. E quanto ele ganhou com isso? Cerca de 3 milhões de reais, compreendidos como o triplex, a reforma do sítio de Atibaia e a guarda do acervo. Isso é ridículo, novamente. A justiça pelo menos tinha que explicar como alguém lidera o maior esquema de corrupção de todos os tempos para ganhar tão pouco. Ou seja, ainda está por se provar a riqueza de Lula, que é ínfima se comparada com os 53 milhões do ap. do Geddel e cabe em apenas seis malas do Rocha Loures.

Fora a Operação Zelotes, devidamente esvaziada, que em seu início detectou 59 bilhões de reais de sonegação num esquema asqueroso que envolvia inúmeros auditores da Receita Federal. Essa operação, por si, é exponencialmente maior que a Lava-Jato e poderia, com muito mais eficiência, “passar o Brasil a limpo”. Ia prender todo mundo que frequenta as festas do Amaury Jr. Contudo, essa operação foi esvaziada, e já teve dois juízes afastados. Por que?

Quem é rico e ladrão confesso – Youssef, Paulo Roberto Costa, Cervero, e tantos mais – estão todos nas suas mansões e, se já não 100% livres, em breve estarão. E com sua fortuna (para além de qualquer 9 milhões) devidamente intocadas. Isso é justiça?

E tem mais coisa. Mas tenho que abreviar.

Só para não tirar o foco do que falei primeiro: a perseguição a uma pessoa, judicial, midiática ou o que seja, não se justifica sob nenhuma forma. A justiça tem que ser discreta até o fim. Até porque, caso condenado e a pessoa cumpra a devida pena, tem que ter o mínimo de dignidade para depois se reintegrar à sociedade, já que não deverá mais nada. Uma justiça consorciada com a mídia vai contra todos as regras básicas do convívio em um estado não autoritário.

O Russiangate e o sorriso banguela da democracia

Nos EUA, existe atualmente o fenômeno macabro do Russiangate. Não importa se gostam ou não de Trump; se ele é de esquerda ou de direita; racista ou não; reacionário ou não. Não importa o que se acha sobre uma pessoa, mas ela não tem que ser perseguida por qual motivo for. Deixo o link para um artigo do professor Stephen Cohen sobre os desdobramentos atuais da histeria neomacartista que acontece por lá, da luta contra o “perigo vermelho”, que é a mesma coisa, com variantes regionais, do que ocorre aqui. https://www.thenation.com/…/democrats-are-repudiating…/

Agora se pedem “argumentos jurídicos”. Depois que os superiores de Curitiba legitimaram a farsa, a retórica deles passou a servir como prova!

Me utilizei até aqui de alguns argumentos jurídicos, mas gosto de colocar num contexto mais geral antes de analisar cada caso. Para mim, essa é a conduta correta. Então, segue o artigo do veterano jornalista Mauro Santayana que, além do contexto geral, tem inúmeros relatos de juristas sobre o caso Lula. Esse caso está muito longe de ser consenso. E a unanimidade burra criada no TRF4 só faz confirmar como toda a operação é questionada em todos os cantos do país, por pessoas das mais diferentes e dos mais variados gostos políticos. Fora da bolha Globo-Curitiba, existe um mundo. http://www.maurosantayana.com/…/de-pretores-e-de…

De um modo geral, é isso. O que está difícil de aprender nesses tempos é que não se pode julgar as pessoas por seu modo de entender e fazer a política. E é isso que o Lula está sendo julgado, pelo seu modo de entender e fazer política.

Com o caos criado através dessa histeria coletiva, o país só afunda. Isso pelo menos desde 2014 com o início da Lava-Jato. Mas talvez ainda mais, desde 2013 com os nacionalistas de camisa da CBF, tão inteligentes como os salvadores da pátria curitibanos:

O desembargador Vitor Laus, filho de preso político, foi o autor da acusação mais circular do julgamento: “Quem responde por crime tem que ter participado dele. E, para ter participado dele, alguma coisa errada ele fez”.

Lógica jurídica chamada por Luís Nassif de “risonha e franca“, como a democracia das festas de Amaury Jr., que só existe devido à multidão de banguelas, de pessoas com fome que vivem ao seu redor.

A jararaca tem mais do que sete vidas

O povo não escuta mais a voz da Pobreza. Inúmeros elementos o comprovam. O fracasso do governo Temer, de suas reformas, é só mais um capítulo. A aglomeração de forças ao redor do direito de Lula ser candidato é outro capítulo. Mas o importante, estando Lula ou não habilitado, tendo sido preso ou não, é que ele se tornou um símbolo. Mesmo morto, se fosse o caso, seria capaz de eleger seu sucessor. A voz da pobreza não tem mais vez entre o povo. Lula é o símbolo dessa reversão. Seu partido, sempre dinamitado por todos os lados, inclusive através de uma falsa dualidade (uspiana) entre “lulismo” e “petismo”, é o catalizador de votos, principalmente nas zonas mais pobres do país, algo que nenhum candidato do chamado campo da esquerda possui.

Um campo de vitórias parece se abrir. Na verdade, a batalha novamente foi possibilitada. Erguem-se as fileiras contra o arbítrio. 24 de janeiro de 2018 é o sintoma da falência do modelo jurídico, institucional, que permitiu todas as espécies de abusos até aqui, quando o ordenamento jurídico utilizou de suas ferramentas para impor uma nova ordem econômica. Ambas as ordens foram desacreditadas assim que se jogou mais luz sobre elas. Não por outro motivo, Doria, Bolsonaro, Huck, Alckmin ao aparecerem à luz do dia, desmoronam. O caminho da luta está novamente posto. Sente-se mais do que nunca o cheiro da vitória, da paz que não temos desde junho de 2013.