Sobre o atual fenômeno “Greg News”

 

 

O Liberalismo foi bom no passado e nem tanto no presente; ainda é bom nos EUA, mas não no Brasil. A greve dos caminhoneiros é um “problema fiscal” e não de soberania nacional. Afinal, o plástico talvez devesse ser abolido como o próprio petróleo e a Petrobrás… 

Existiria uma antinomia entre os termos conservador e liberal, porém o Livres é moderno mas Flavio Rocha não. O ideário do Império Britânico é digno de elogio, enquanto os governos Lula e Dilma pecaram por fazer “coalizão”. Gregório não chega ao ponto de defender FHC para justificar Lula ou dizer (como um candidato carioca) que seu partido perde por culpa do PT. Mas é bem interessante ver esse fenômeno atual chamado Greg News e ver as curiosas limitações de uma chamada “esquerda moderna”, imaculada e ambientalmente responsável…

Não bastava fazer campanha para as massas verde e amarelas de uma marca famosa em plena campanha pelo “Não vai ter Copa” e pelo descredenciamento da principal candidata a presidência daquele ano. Fizeram um comercial “limpo”, com uma crítica bem-humorada às massas verde-amarelas, não as do restaurante patrocinador. Talvez valha, quem sabe… Mas se dermos um salto no tempo, fica mais fácil entender como que funciona essa crítica tão por dentro do sistema.

Gregório Duvivier estreou um show solo no pós-golpe. E faz a crítica da esquerda cheirosa, pseudo-intelectualizada e anti-popular. Um de seus últimos programas, sobre o liberalismo, pode servir de caso de estudo, ainda que seja necessário mencionar outras de suas aparições, sempre com seus traços de moralidade coxinha.

Segundo o que foi apresentado, o Liberalismo foi bom no passado, porque defendia a liberdade civil contra a opressão monárquica. O Liberalismo brasileiro é de segunda categoria por não ser amplo o suficiente como prega ideário vindo das metrópoles anglo-saxãs. A não ser que seja o Livres, sub-legenda “apartidária” do Instituto Millenium. Para o apresentador, nesse caso se trata de “um dos grupos políticos que tem tentado levar o liberalismo a sério no Brasil”.

Como ele diz: “Não dá para ser metade liberal e metade conservador”. Seria o caso do candidato Flávio Rocha (o cinismo de ter pego amplos financiamentos no BNDES e ser acusado de trabalho escravo, entre outros). Isso, no mínimo, mostra a insuficiência de pensar na raiz, da crítica dos valores. No caso, o que ele defende é a originalidade de um “liberalismo raiz”. Passa longe de se fazer uma crítica na raiz desse liberalismo, que teve como seus melhores momentos os incontáveis genocídios provocados pelo Império Britânico (clique aqui para uma breve amostragem dos Crimes Britânicos) e toda a rede de dependências criadas na América do Sul no mesmo século XIX, seja na fragmentação das antigas colônias espanholas ou na abertura dos portos, por Dom João VI.

Isso é só para mencionar fatos básicos. Para uma crítica mais extensa sobre a gênese desse liberalismo, reporto vocês a meu texto publicado na revista Voyager (clique aqui para ler).

Na verdade, ele tenta se apropriar da bandeira liberal para pousar de esquerdista que funciona no 110v e no 220v. Ele acha que isso não queima. Qual motivo de levantar a bandeira abaixo, por exemplo?

“Nós hoje combatemos o que os liberais antigos combatiam”, diz em certa altura do programa.

Isso quer dizer que combatiam a favor da fome na Índia, das Guerras do Ópio, pela moral vitoriana, pela legislação dos pobres de Locke, pelo Panóptico de Bentham? Ou será que isso que dizer somente dar a bunda, fumar maconha, virar Narcisa Tamborindeguy? Depois de tudo, como para que se justificar, Gregório mostra sua foto com um boneco do Lula. É o autêntico “Libera geral”, muito próximo da cultura dos anos 90.

Saudade de FHC? Esse tipo de esquerda a que pertence o apresentador é como a de Caetano Veloso. Esse, por exemplo, não chega ao ponto de elogiar FHC. É um risco muito grande para própria imagem. Mas gosta de elogiar o plano real, a suposta estabilização macroeconômica do governo dos tucanos e os “avanços democráticos” das era FHC e Lula. Isso é ser de esquerda – e limpo. Como diz a música que termina o programa: “libera o mercado para competir, mas libera beck para geral curtir”. FHC e George Soros, em suma. O que demonstra que não existe qualquer antinomia entre os termos liberal e conservador. Gregório Duvivier é um exemplo disso.

Para terminar, vou fazer um breve sumário de alguns de seus programas, de alguns temas abordados neles e que ainda ficaram na minha memória. Um caso: quando Duvivier vai elogiar para criticar a indústria do plástico. Muito bem! O plástico tem tantos malefícios que é difícil de calcular. Como defendê-lo? Ora, posso não ter de cabeça as fontes, mas faz muito tempo que a UFPE e ou a USP ou a Unicamp desenvolveram um plástico orgânico, que se desfazia com água fervente. É uma solução para muitos dos casos dos usos dos plásticos. Outras soluções devem existir. Qual o problema que o programa não aborda? Os monopólios transnacionais que insistem na fabricação do tipo de plástico mais tóxico que existe e inibe qualquer tentativa de se criar soluções mais viáveis ao problema. é dentro da ciência mesmo que se contorna os problemas criados pelo avanço científico.

Outro caso: no programa que falou sobre a greve dos caminhoneiros resumiu todo o problema, elencando uma série de variáveis, do que seria uma “crise fiscal”. A importância estratégica da Petrobras desaparece de seu discurso, como os tucanos também gostariam que desaparecesse esse maldito nome da boca de qualquer brasileiro. Acho que nesse caso não preciso nem falar mais nada…

Liberal e conservador e um bonequinho para demonstrar bons sentimentos… Uma esquerda “pink”.

Nesse quadro, dá para se ver que as críticas constantes de Gregório a um outro youtuber, Felipe Neto, parecem mais uma confusão especular, de uma pessoa que se vê num espelho inverso.