“Capitalismo inclusivo” e frenesi da nova esquerda

Com o fim da União Soviética, boa parte da humanidade que esperava a criação de um novo homem e de uma nova sociedade, viu seu horizonte de expectativas se reduzir a espaços cada vez mais fragmentados. A experiência em comum que servia de contraponto ao imperialismo tornou-se babélica ou, talvez, tribal.

Com as preocupações com o presente na ordem do dia, menos o final do sonho soviético do que o fim das utopias foi o resultado alcançado. A globalização e o ambientalismo se tornaram palavras de ordem do novo capitalismo, até um estranho momento quando se viu surgir diferentes governos de tendência nacionalista na América do Sul, e um outro fenômeno, que só depois se tornou mais evidente, o do protagonismo internacional da Rússia e da China.

Até o aparecimento do primeiro momento, que consagrou o termo “sul global” e a sigla BRICS, e até quando essa época durou, o ambientalismo, em especial, era visto com desconfiança nos países outrora chamados do Terceiro Mundo. A política anti-industrial não se coaduna com as necessidades de modernização e de inserção de amplas parcelas de suas populações no mercado de trabalho formal e bem pago.

Mas dificilmente pode ser visto como verdade tanto a atual efeméride de que o Consenso de Washington acabou com a eleição de Joe Biden, quanto que o antigo setor produtivo soviético, naquilo que ele mais se empenhou por décadas, não pode hoje virar o jogo das relações de força entre as potências mundiais. O anúncio da Federação Russa, em 2018, da construção de armas baseadas em novos princípios físicos, fez mudar a postura do Partido da Guerra e deslocou o eixo geopolítico para a Ásia.

A democracia jeffersoniana, que desde o século XIX se baseia no livre-mercado e escravidão, procura contornar as dificuldades estratégicas no campo militar ao se aliar ainda mais à necessidade, já implícita no “complexo industrial-militar”, de transferir recursos dos Estados nacionais para corporações multinacionais, agora sob o slogan do “capitalismo inclusivo” (stakeholder capitalism).

Com o dinheiro empossado nos bancos centrais, porque os países do Atlântico Norte não conseguem vender títulos públicos devido aos juros negativos, os Tesouros nacionais passaram a imprimir moeda para que fundos de investimentos adotem medidas keynesianas ou inflacionárias, como a “mudança de regime” proposta pela BlackRock no encontro dos bancos centrais dos países ditos desenvolvidos, no estado americano de Wyoming, em agosto de 2019. A partir dali a plataforma de governo do Partido Democrata encontrou seu meio de execução.

Como após a queda do muro de Berlim, ambientalismo e globalização se reencontram novamente, mas com uma força nunca antes vista, por não encontrarem, no Ocidente, oposição capaz de denunciar seus ardis. As forças produtivas do trabalho são colocadas em segundo plano em favor da criação de matrizes energéticas intermitentes, renda universal e crédito social.

Os trens de alta velocidade e os corredores de desenvolvimento da Nova Rota da Seda têm um problema muito sério: com a criação de novas cidades e a dinamização de economias estagnadas, podem criar um boom populacional, aliado a criação de novos empregos e o incremento da complexidade da divisão social do trabalho. Em um mundo para todos, somente o aumento da densidade de fluxo energético per capita e por km² pode forjar a nova utopia: habitar a Terra e, com as novas tecnologias, o espaço próximo.