O fim da onda da “direita lisérgica”?

A grande pergunta não é sobre a supostamente desaparecida “burguesia nacional” ou a ausência de “generais nacionalistas”. A pergunta versa sobre os motivos de o Golpe continuar ativo, apesar de todos os atos contraditórios dos golpistas. Quem ainda sustenta um governo insustentável? Como fazem isso? Qual o caminho para se reverter o mais rápido possível o atual estado de coisas? Como em 2002 na Venezuela, na América do Sul novamente a população rechaça o neoliberalismo e o arbítrio fardado. Terá chegado o fim da “direita lisérgica”?

Ácido na veia

Depois de Rodrigo Janot admitir que Dilma não era corrupta, entre os que deram o Golpe, somente Eduardo Cunha ainda não chamou o Golpe de Golpe. O caso particular de Janot ter sentido vontade de matar Gilmar Mendes, mostra com cores vivas o sentimento sofrido por inúmeras outras pessoas, se não desde a soltura de Daniel Dantas, com certeza desde que liberou Roger Abdelmassih. O sensacionalismo com que o ex-procurador se confessou foi uma forma de tentar, através de uma medida extrema, mostrar que, como os ventos, também “mudou de lado”.

Ouvi do ministro Eugênio Aragão, em entrevista recente, a expressão “direita lisérgica”, em alusão ao comportamento de seu antigo colega. Nesse cenário distópico, como tem-se mostrado particularmente evidente depois da batalha judicial para se entrevistar Lula, parece de não menos importância um movimento amplo para que Cunha finalmente fale. Será que, como tantos da esquerda e da direita que apoiaram a Lava-Jato, ele também irá querer “salvar sua biografia”?

Cunha provavelmente não terá dificuldades em dizer que o Golpe foi um Golpe, mas entrevistá-lo sucessivamente, como se tem feito com Lula, seria algo salutar para a democracia. Como comandante do Golpe, líder e exaltado como um Maquiavel moderno por todos os golpistas, protegido pela Lava-Jato até ser objeto de um sacrifício ritual de purificação, Cunha tem o poder, mesmo blindado por recomendações de advogados, de tornar mais ácido o cenário político, por si só extremamente corrosivo para todo e qualquer golpista desde que o estoque de munição deles se esgotou.

Posso estar propondo algo irreverente pelo próprio modo como coloco o problema, mas não digo mais do que o óbvio: a prisão de Eduardo Cunha, assim como a do doleiro Dario Messer após o escândalo de Itaipu e, agora, a de Marco Aurélio Canal, auditor da Receita que passava dados sigilosos para Dallagnol, serviram para um único fim, a queima de arquivo. Se na democracia existe o direito de entrevistar prisioneiros, o que proponho é o aprofundamento do uso dos instrumentos democráticos contra a arbitrariedade do atual estado de exceção.

Quem está dando muitas entrevistas atualmente ou se pronunciando publicamente de modo veemente é o ministro do Supremo, Gilmar Mendes. Nesse caso, não se trata de um discurso bloqueado via queima de arquivo e que se desejaria ter acesso. É uma etapa posterior, o de crítica ao conteúdo exposto.

No caso do ministro, vemos claramente críticas a Lava-Jato que obedecem a lógica que sempre guiou seus atos: interesses pessoais. A continuidade do poder da república agro-exportadora de Curitiba ameaça a sobrevivência de alguns ministros, assim como pode expor, talvez até como “dano colateral”, aliados dos ministros, como foi o caso de Jacob Barata, mas também a bomba em terra tucana que seria a continuidade do processo contra Paulo Preto. Uma eventual declaração do ministro a favor da liberação de Lula faz parte da veemência que, tal como Janot, procura imprimir em cada um de seus atos. Nenhum desses dois personagens surpreende. Aliás, por que não se entrevista também o Paulo Preto? O simples fato de poder trazer mais elementos de como está acontecendo seu processo e como ele se vê nessa situação, pode trazer elementos interessantes para investigações autônomas por parte dos jornalistas.

Entrevistar Lula e Preta Ferreira muitas vezes é posar com um ídolo ou para uma foto e não exatamente fazer jornalismo. As entrevistas, junto com as investigações jornalísticas, fora dos autos, são essenciais para se ver esse lado obscuro, muito pouco comentado, a dos prisioneiros políticos inimigos da esquerda: aqueles que foram presos para se protegerem e para proteger os seus mestres.

Lucy in the Sky with Diamonds

Fala-se muito da lenda dos “militares nacionalistas”… Onde eles estariam? Uma pergunta correlata e bastante difundida é “onde está a burguesia nacional”? Ambos sofrem do mesmo problema, a síndrome da classe-média, ou seja, recebem bem, estão relativamente satisfeitos com sua vida material e, particularmente aos militares, são “conservadores nos costumes e liberais na economia”, como se diz. Seu patriotismo é o do século XVI, exclusivamente territorial, e com um quê de fervor religioso.

Nesse sentido, referem ser parceiros menores dos EUA e de Israel na “proteção do território” (imaginário, porque a integração e fortalecimento da economia são fundamentais para se manter a integração territorial) do que desenvolver seus caças Grippen, os submarinos nucleares, Angra 3 e proteger toda a Amazônia Azul e o pré-sal (territórios e instrumentos que não constam em seu “imaginário”).

Sobre a “burguesia nacional”, o que se deve ter em conta não são os “grandes empresários, banqueiros, etc.”, mas que o enfraquecimento do processo de constituição de uma ampla classe-média (tentativa frustrada com o golpe de 64 e temporariamente revertida com o de 2016) é o que faz o Brasil repetir o mesmo erro. A classe-média como classe burguesa, com todas as suas diferenças entre si, é o primeiro setor a recuar e abrir as portas para o golpe: seja não chamando o golpe de golpe, apoiando a Lava-Jato ou sendo, sem pudor, bolsonarista. Somente com um amplo processo de industrialização, o que antes do golpe de 64 se chamava de “revolução brasileira”, podemos ficar imunes a mais uma quartelada.

Ora, a “burguesia nacional” era exatamente a que se formava ao redor das empresas de engenharia e da grande criadora de empregos, ciência e tecnologia no Brasil, a Petrobrás. Assim, a burguesia que deu o Golpe que remonta, talvez, ao período da República Velha, sempre obstando de maneiras diversas não particularmente a “distribuição de renda”, mas a multiplicação de riquezas para todo e qualquer cidadão. Lamentar que não há uma “burguesia nacional” como a do passado, como a do pré-64, é cair na melancolia, ou seja, se entreter com fantasmas. Existe capacidade produtiva pronta para ser colocada em uso e a burguesia preparada durante os governos do PT ainda pode reaparecer. Enquanto isso, o velho da Havan toma o lugar do “maldito” Eike Batista…

Por outro lado, a democratização do ensino prometia toda uma nova leva de funcionários públicos, de novos professores universitários, juízes, auditores da Receita, provenientes das mais diferentes classes sociais, mas com marcado acento de classe. O pavor do “pobre no aeroporto”, dods “rolezinhos nos shoppings”, provocou o panico burgues entrevisto numa situação em que o pobre vestiria beca e assumiria postos de comando ocupados por essa “nobreza” da República Velha até os dias de hoje. Essa é a outra burguesia, também ainda não de todo debelada, porém a mais frágil – talvez – e que, com a continuidade do Golpe, pode desaparecer.

Ficou famosa há muito tempo atrás uma declaração do general Villas Bôas de que o erro que levou à ditadura foi que os militares teriam deixado passar a “linha de fratura” da Guerra Fria para dentro do país. Numa Nova Guerra Fria, num cenário acelerado de neomacartismo mundo afora, ou seja, num mundo novamente de ponta-cabeça, dá para se compreender o amplo uso de ácido lisérgico feito antigamente: era só uma maneira de, através de uma medida extrema, tentar recolocar a imagem das coisas em seu devido lugar. Atitude bastante conservadora, nesse caso, ainda mais se comparada a dos que combatiam os “subversivos”. Como se sabe, boa parte da rebelião juvenil de décadas atrás contra os militares foi uma luta intraburguesa, só superada com o aparecimento das greves metalúrgicas no ABC paulista…

Distopia? Chávez e o mito fundador da democracia sul-americana

Nessa conjuntura, deve ser lembrado que as amplas mobilizações populares que levaram ao poder os governos progressistas na América do Sul na primeira década desse século tem como marco a intensa movimentação em Caracas para evitar o golpe dado contra Hugo Chávez. De maneira algo difusa, o mesmo cenário está se repetindo, em especial no Equador.

Enquanto tais movimentos não se repetem de maneira mais sistemática nessa parte da América, a burguesia se digladia em torno de Ciro Gomes, no escândalo diário chamado Jair Bolsonaro, numa série de considerações a respeito da “pauta de costumes”, etc. Nesse bolo, inclui-se a rede Globo, novamente a fiel defensora do estado de exceção no Brasil.

Quando se iniciou a Vaza-Jato, ficou claro o descontentamento dentro da emissora, depositária de um tipo de liberalismo mais “educado”, com os escândalos expostos pelo Intercept, pela revelação das tenebrosas ligações do Palácio do Planalto com as milícias rurais e urbanas, além da “pauta de costume”, sem a qual a Globo não pode esconder seu profundo reacionarismo.

Nesse biombo, junto a fala empolada de economistas compromissados com a produção de vidas precárias e mortes em todos os níveis, a Globo posa como qualquer neoliberal. Por fora da mera retórica do setor avançado do ultraliberalismo, são como Bolsonaro e sua trupe. São como Bush Jr. e seu senhor da guerra, Dick Cheney. São como Obama e Hillary: todos criminosos de guerra, responsáveis pela morte de milhões de pessoas e pelo gasto de trilhões para realizar o “gasto improdutivo” gerado pelas amplas concessões aos capital financeiro nas últimas décadas.

A união apoiada pelos atuais “democratas” nos EUA.

Trump, nesse caso, surge como um contraponto, vindo de um setor minoritário dessa elite americana. Com o atual processo de impeachment, correu para refazer o acordo comercial com a China e voltou a sua retórica de campanha contra as guerras americanas no estrangeiro. Na conjuntura conturbada da política americana talvez tenha sido a escolha pelo menos pior. Não se candidatou a senhor das guerras, a genocida internacional ao estilo de Hitler, Stálin, Truman, Bush pai e filho, e Obama. Atacado pelos órgãos de inteligencia, falta uma política econômica menos ajustada com a do segundo mandato de Obama, caracterizada por um recuo em relação ao Q.E., mas sem a mudança de paradigma, ou seja, o fim dos instrumentos que mantém artificialmente o sistema financeiro especulativo vivo por aparelhos e, por outro lado, um projeto sólido de reconstrução econômica. Talvez ele tenha esboçado isso no atual lançamento do Projeto Ártemis.

O segundo grande acordo dos golpistas ocorreu logo após a imensa manifestação juvenil em maio. O Supremo e o Congresso correram para viabilizar o governo, como Toffoli assumiu recentemente. O que se assiste agora é um discurso normalizador do governo Bolsonaro, apesar deste insistir em não normalizar nada. Acalmam-se os ânimos das redações globais…

A grande pergunta não é sobre a supostamente desaparecida “burguesia nacional” ou a ausência de “generais nacionalistas”. A pergunta versa sobre os motivos de o Golpe continuar ativo, apesar de todos os atos contraditórios dos golpistas. A Globo o sustenta, o presidente do Itau: menos de 1% da população brasileira, em sintonia com os loucos, de 5 a 15% do eleitorado ativo que apoia o Capetão. Por quanto tempo esse arranjo mal feito ainda irá perdurar?

Chávez, como o mito da “revolução que [nunca] será televisionada”, move-se no crescente descontentamento popular, nas cenas violentas que vemos se multiplicar dia a dia. Sem essa intervenção intempestiva, como outrora no Brasil fizeram os metalúrgicos paulistas, não há só um novo “acordo de classes”: o que haverá é o realinhamento da alta burguesia, na defensiva. Chávez como sinônimo de mobilização popular permanente contra os golpistas para solapar todos os escrúpulos dos setores médios; Chávez de novo para restaurar a democracia em toda essa imensa pátria, de Bolívar, José Bonifácio, Frei Caneca, Jorge Eliécer Gaitán e Luis Inácio Lula da Silva.

Se o Bogotazo marcou o aprofundamento do estado de exceção em nosso continente décadas atrás, o Caracazo foi o prenúncio de um novo modelo democrático. Sem radicalidade não haverá mudança política. E as forças da negatividade, com sua repressão policial e seus pacotes econômicos assassinos, empurram a população para uma situação de guerra civil. O capitalismo, o neoliberalismo tradicional, sempre em conjunção com a anarquia provocada pelos setores de extrema-direita, arma novamente o cova onde será enterrada.

Chávez renasce e aqui no Brasil não irá se esperar até 2022, com a normalização do estado de exceção pelo acordo Globo-Bolsonaro, para que as mudanças se intensifiquem. Mais três anos não sabermos qual país herdaremos, muito menos se o herdeiro será um neopopulista como Luciano Huck ou o filho do Santo, Bolsodoria. Nesse momento, Chávez, mais do que Lula, simboliza o que deve ser a luta contra o atual estado de exceção. E ele renasce a cada dia, como vemos nas intensas movimentações ocorridas no países vizinhos ao nosso, em especial.

O componente lisérgico de toda e qualquer direita é que nunca televisionará, nunca reconhecerá, nenhum movimento de base popular, seja o mais pacífico comandado por Lula, seja o de Hugo Chávez.

Não existe “direita lisérgica”, porque toda a política dos ultras, dos atlanticistas é altamente distópica, alucinógena. É sempre Capitalismo e Anarquia [clique aqui para ver os outros episódios de nossa série sob esse título]