O liberal-fascismo e os travestimentos da palavra democracia: o que é a legitimidade política atualmente



A luta pelo renascimento das “diretas já” mostra talvez menos a força do que a fragilidade social em que fomos jogados. Reconhecer o Congresso inteiro como corrupto não é legitimar, agora no chamado campo da esquerda, a deslegitimação da política que faz cotidianamente, por exemplo, lutadores de MMA se tornarem mais honrados do que qualquer político profissional?

Por que não se consegue debater, ainda agora, as vias normais de volta à normalidade, ou seja, a recondução da presidenta deposta ao cargo?

Por que sempre os gritos de guerra saindo de todos os lados?

Somos atacados pelo império com suas inúmeras artimanhas e focos de combate: guerras irregulares com uso ou não de armas, com manipulações políticas, jurídicas, mas cujo alvo sempre é a economia do país visado. Lava-Jato.

Liberal-fascismo: a palavra que deve dar nome a muitas coisas que hoje se chamam simplesmente de “democracia” ou aumento das liberdades individuais ao custo do bem-estar público. Esta a nossa conjuntura.

O que é a legitimidade política atualmente?

Bill Clinton, um presidente fraco, de vida pessoal questionável, sem o caráter necessário para reverter a campanha do “complexo industrial-militar” contra ele (um processo de impeachment por causa de um caso extraconjugal, uma aberração que nos faz ver que as tentativas de golpe estão dentro das relações de força, das guerras travadas dentro da sociedade, do que num campo supostamente jurídico), aboliu de uma vez com a lei Glass-Steagall, implantada por Roosevelt, responsável pela separação bancária: os bancos de investimentos eram proibidos de usarem da poupança ou mesmo das contas correntes das pessoas para fazerem suas apostas. Com o fim da lei, acabou se dando mais liquidez ao sistema de especulação e, rompida sua vitalidade, teve de ser socorrido com os Q.E. neokeynesianos da era Obama, criando uma transferência massiva de recursos da sociedade para o setor financeiro, para, num cinismo próprio aos tempos mais modernos, não se acabar nem com uma nem com o outro.
São as práticas oriundas das fórmulas matemágicas do liberal-fascismo que fazem multiplicar recursos de diversas fontes para manter o regime imperial, não globalizado propriamente nos dias atuais devido à resistência que representa o desenvolvimento econômico chinês e seu preparo para dar mais um salto com a política da Nova Rota da Seda, terrestre e marítima; resistência na zona de conflitos que se tornou o Oriente Médio com as guerras para mudança de regime, sejam ou não por procuração, como bem demonstrou Trump, ou seja, que pode querer não se delegar à terceiros o trabalho sujo a ser feito. Matemágicas que criaram a fórmula encantada das “pedaladas fiscais”, simples artifício para se esconjurar a presidenta eleita, e logo congelar os gastos primários, a rede de proteção aos trabalhadores, encolher os bancos públicos a começar pelo assalto de 100 bilhões ao BNDES (devemos lembrar da autorização do saque do FGTS para trabalhadores endividados, parte para capitalizar os bancos brasileiros, sem qualquer problema de solvência, e para deixar as sobras para injetar algum recurso na economia através do consumo popular; fora a recém liberada “divisão dos lucros” do Fundo, outra pá de cal na capacidade de poupança necessária à criação de crédito para investimentos públicos) com o fim da Previdência, com a medida populista do saque ao FGTS, como falamos, ou seja, o esvaziamento do tesouro público, da transferência de recursos que se encontravam com a Caixa Econômica migrados para os bancos privados através da renegociação de dívidas feita pelos cidadãos, etc. 
A luta pelo renascimento das “diretas já” mostra a fragilidade social em que fomos jogados. Reconhecer o Congresso inteiro como corrupto não é legitimar, agora no chamado campo da esquerda, a deslegitimação da política que faz cotidianamente, por exemplo, lutadores de MMA se tornarem mais honrados do que qualquer político profissional? A necessidade de se voltar à normalidade democrática é uma frente aberta para se fazer retornar a esperança que um governo não elitista volte ao poder ou continue nele. É uma esperança, uma chamada à guerra, já que vemos os limites do que se chama democracia quando temos de nos submeter aos arbítrios de uma Suprema Corte como “último bastião” das aspirações populares – talvez seja essa a expressão, já que lá se diz que é a guarda da constituição, ou seja, da democracia e da sociedade (talvez falemos dessa instituição como se fosse uma Santa Sé, para sermos devidamente arcaicos, para pedidos últimos de clemência). Uma democracia que, ao chegar a seus limites, deve guardar alguma esperança num órgão extremamente elitizado, sem nenhum cheiro de povo, de democracia, deve ser aprofundada com um chamado à luta, à criação de um estado de exceção artificial – a demonização, via novas diretas, do político -; seria esse o caminho? Com certeza, pois um caminho deve haver, mas sem esquecer que o caminho legítimo é a recondução ao cargo da presidenta eleita através da devida submissão dos decanos aos ritos constitucionais que devem obedecer, ou seja, o julgamento da inépcia jurídica, da revanche política, que foi todo o processo que levou ao afastamento de Dilma. Este seria o caminho normal; o outro, o de exceção. Infelizmente, o que nos traz mais esperança e capacidade de mobilização é o segundo, até pela própria percepção política da sociedade que continua a ver em Dilma uma presidenta, talvez, inadequada… Ecos da grande histeria que nos joga no estado de conflagração social que vivemos. Aporia inevitável entre uso de toga e exercício do voto popular: como se a democracia fosse algo acabado, algo perfeito, a mais legítima conquista social diante dos atrasos de muitos séculos de tirania. Na verdade, instrumento do império com suas inúmeras artimanhas e focos de combate: guerras irregulares com uso ou não de armas, com manipulações políticas, jurídicas, mas cujo alvo sempre é a economia do país visado. Lava-Jato.
(escrevo agora revendo meu texto. as diretas já, campanha encampada também por dilma rousseff, é, como disse, a frente de luta capaz de arregimentar, de formar uma frente de batalha frente à situação atual. o que não desvia nossa tenção de que o caminho para a normalidade seria a recondução da presidenta ao cargo. os ataques continuariam com sua ferocidade, em suma. caso contrário, a frente das diretas não seria a bandeira para se “arregimentar” o que quer que seja. seria, no mais, o caminho da exceção, como o que pedia benjamin contra o estado totalitário? é esse exatamente nosso caminho? não acredito na duração da reexperiência nazista, como vivemos. o que não nos anula de alertar para sua intensidade, principalmente no contexto internacional)
[seguiremos como se nada houvesse acontecido. claro e sempre, esse é um texto com revisões]
Mauro Santayana, um primor de lucidez, melhor do que qualquer “jornalista ansioso”, qualquer um tão acostumado com audiências (nesses tempos de blog, quantos tipos de audiências? o “ansioso” é mais tradicional nesse quesito, o que de forma alguma lhe testemunha a favor), disse que as denúncias contra o MT são uma espécie de complô para tornar mais palatável a possível prisão de Lula. Nem uma coisa nem outra, é o que sugere algumas evidências. Mas o fundamental não são as evidências, no caso, mas o princípio, o que os lavajatenses jamais conhecerão. Luís Nassif tem uma tarefa, para mim enojante, de esmiuçar algumas facetas da convivência diária no meio judiciário. No caso, em especial, na Procuradoria Geral. Fez inúmeras publicações sobre Janot. Tornou-se quase um especialista nessa espécie de sombra de Moro – pelo menos é como se apresentou até então. E a sombra ou o Sombra engoliu seu pupilo. É isso que nos faz divergir em termos de Santayana. Nassif foi certeiro sobre as disputas internas que levaram Janot a de algum modo aceitar os acordos dos plausíveis donos da Friboi (porque até que se prove o contrário a empresa é propriedade do Lulinha) ao mostrar simplesmente que, ao não conseguir apoio para sua segunda reeleição, Janot chutou o balde (existe também a questão da união de Janot com a Globo, no sentido de fortalecer o MPF, colocar um nome de confiança deles, para morrerem por aqui as investigações estrangeiras sobre as atividades criminosas do consórcio Globo-CBF). Fernando Brito foi ainda mais arguto: Sérgio Machado foi quem divulgou o “essa porra”, o “acordo com o Supremo, com tudo”. já cordado com Marcelo Miller, hoje definitivamente convertido à iniciativa privada. Com Miller, torna-se mais clara a questão que colocamos em maio do ano passado:
Agora, contudo, ainda fica uma questão. As gravações feitas por Sérgio Machado foram publicadas no fim do mês de maio, sendo que foram feitas em março – dizem. Se o processo de impeachment só foi votado no senado já quase chegando no meio do mês, por que as gravações só foram divulgadas talvez mais de dois meses depois de terem sido feitas? Dá para se argumentar que as gravações foram feitas como uma espécie de auto-proteção de Sérgio Machado. Tipo “se der merda” tenho isso aqui. Mas por que que não “deu merda” antes, mas só depois de 15 dias de governo interino? As gravações, inclusive por envolverem o presidente do senado, poderiam ter simplesmente bloqueado a votação da admissibilidade do impeachment. Mas a Folha de São Paulo resolveu que só daria merda no fim do mês, e soltou as gravações que supostamente colocariam o jornal novamente no “campo progressista”, pura estratégia de marketing como vários analistas já viram, triste reedição do “progressismo” do jornal durante o inevitável, as Diretas Já.
(…)
Logo, frente ao óbvio dessas gravações, é o que o Abertinho pergunta, clama, esbraveja: Por que não foram divulgadas antes? Imagina essas gravações com a tentativa de Waldir Maranhão… Não dá para se especular muito agora. Somente dá para concluir que é muito conveniente tudo isso vir só agora. Se viesse depois, já que a fonte é uma pessoa que teve a vida devassada pela PF em dezembro, traria ainda mais incredibilidade para o PIG, e poderia atear fogo no país caso fosse divulgada uma conversa de março depois de julgado o mérito do impeachment. Seria grotesco também porque deveriam paralisar a caça a Machado, e a Mani Lipute não para nunca. Mais uma de suas entranhas seria desvelada. A Torre de Londres caso fique um dia ou mesmo algumas horas inativa poderia ruir. Sei que Sérgio Machado poderia ter calado Renan na hora certa, e todo o PIG e os admiradores de J. Barbosa junto.
Miller, ao tempo ainda no setor público, sem o cargo tão bem remunerado que o fez pedir demissão de um dos empregos mais rentáveis do país, saberia da gravação. Depois da delação da empresa supostamente subordinada à figura intangível a que se chamou Lulinha – um fantasma criado -, Miller fará no campo do livre-mercado judiciário seus transcurso com a PGR. Que belo final! E ainda podendo servir nos escritórios de advocacia americanos que foi contratado, como advogado dos irmãos Batista. A relações entre desejos pessoais e o ato de guerra contra o presidente ilegítimo é tão flagrante que a delação é de 6 de maio e seu pedido de demissão de Miller ocorreu ocorreu no dia seguinte. É um direito inalienável, segundo os liberais. Sem apelo algum ao linchamento, eis um movimento interessante até demais para não ser investigado por nossos doutores tão ocupados de encher a boca para cuspir o Anão – “fora Temer” e respeito à Lava-Jato, ainda que seus movimentos contradigam qualquer imparcialidade. Liberal-fascismo: a palavra que deve dar nome a muitas coisas que hoje se chamam simplesmente de “democracia” ou aumento das liberdades individuais ao custo do bem-estar público. Esta a nossa conjuntura.