O método do The Intercept segundo seu editor

Recuperar os princípios básicos do jornalismo

Em uma longa entrevista ao Estúdio Fluxo, Leandro Demori, editor-executivo do Intercept Brasil, conta muitos detalhes de como sua publicação fez para controlar e direcionar os jatos que, infelizmente, atingem a cara do sistema judiciário brasileiro (um salve à produtora Brasileirinhas que antecipou o fim que teria a Operação, renomeada como Leva-Jato). A entrevista de Demori é uma autêntica visão geral da suruba que agora está sendo escancarada pelo Glenn Greenwald mas, bem mais importante, nos ajuda a conhecer com mais detalhes como todo o processo editorial vem sendo montado.

Um dos primeiros exemplos que Leandro Damori dá é sobre um prática comum no jornalismo: eles nunca alegam um “suposto”, como fazem agora em relação aos “supostos hackers”. Não se trabalha, no The Intercept, com ilações. Pela própria orientação jurídica que recebem (“nossos advogados são diferentes”, diz) se pautam da seguinte maneira: ou fazem uma análise em cima dos fatos que lhes chegaram, os fatos apurados, ou não se perde tempo com ilações. O jornalista tem que fazer uma agenda de fontes e saber trabalhar com os dados fornecidos por elas. Se a informação é segura, ela é publicada, mas não como a Wikileaks, por exemplo, que solta um documento em estado bruto. A The Intercept preza pelo esmero na fabricação do texto jornalístico.

De um modo geral, a atividade jornalística é cara, ética e materialmente: viagens, apurações, salários, manter um equipe de confiança, etc. A Lava-Jato conseguiu refutar esses princípios básicos do jornalismo.

Durante toda o período mais ostensivo de atuação da Operação, o Jornal Nacional conseguiu furos explosivos, com recorde de audiência, completamente de graça. Vinha tudo da PGR, do MP, e pronto! O fato é que não é só receber de graça um farto material para a exploração da equipe editorial: o que fica cabalmente demonstrado com a revelação das mensagens é que o material todo já vinha editado para a grande mídia. O judiciário não se aliou à mídia, ele também tomou o lugar das redações.

Os concurseiros da justiça elaboravam o material ao gosto do freguês e cabia à mídia somente dar o tom: colocar na máquina de moer reputações, de modo popularesco no JN e de modo “soft” e não menos cínico, na Globo News. De maneira oposta, evidenciada agora pela maneira como tratam do vazamento sobre a Lava-Jato, a TIB gera as matérias e deixa para os especialistas, em todo e qualquer veículo de mídia, fazerem as análises.

Aliás, o site do TIB tem um dispositivo para qualquer um enviar documentos. Esse é um outro trabalho árduo, cotidiano, a ser feito, isto é, a verificação e análise de uma massa considerável de documentos que chegam através do portal.

Curioso (se não significativo) a esse respeito foi a entrevista dada por Glenn Greenwald na véspera de sua ida à Câmara dos Deputados ao um canal do youtube chamado MyNews. Em tempos de de “alt-right”, vemos que isso não significa em absoluto um movimento meramente ideológico de caráter violento e anti-intelectual. Conheci o que chamaria de “alt-GNews”.

O programa Segunda Chamada parece uma mesa redonda ao estilo Globo News, onde, nesse caso mencionado, se criou um Tribunal da Inquisição soft para o entrevistado. Uma espécie de pré-treino para o que foi a sessão do dia seguinte na Câmara. Todo o foco do programa era no “leak” ou no “hacker” e nas insidiosas perguntas sobre a misteriosa fonte…

Em tempos de capitalismo e anarquia, neoliberalismo e extrema-direita, assistir o programa do MyNews foi interessante para ver como se modula o neoliberalismo frente as suas alternativas à direita. Novas modalidades, soft, de “alt-right”?

Sobre a publicação de áudios

Uma das perguntas mais frequentes que Demori recebe é sobre a existência de áudios (mais até do que a de vídeos ou fotos). Na entrevista mencionada, o editor se posiciona da seguinte maneira: diz que um áudio numa matéria poderia invalidar a credibilidade de outra sem o áudio.

Explico: se sair áudio em uma denúncia, vamos supor, sobre relações da Força Tarefa com um ministro do STF, o público pode dizer que aquela matéria, por ter áudio, é legítima. As outras, sem áudio, continuam passíveis de contestação. No caso, a ilação sobre hackeamento seria invalidada, porém a de adulteração cairia por terra. Para ele, não se pode fiar a investigação jornalística exclusivamente no conteúdo áudio-visual.

Nesse sentido, defende a posição de que o que dá mais validação às matérias são as parcerias: não poderia ter um conluio de 60 repórteres, em diferentes meios, dizendo mentiras. Ora, mas para quem trata da Lava-Jato deve saber que, bem pouco tempo atrás, 600 repórteres em 79 meios de comunicação diferentes, quando no auge da operação, não cansaram de espalhar suas mentiras e falsas acusações…

Isso leva a um outro questionamento: por que a escolha conservadora, exclusiva, de divulgar através de mídias tão tracionais?

  1. Seria por proteção: se prenderia jornalistas do TIB ou de outros órgãos chamados alternativos, porém dificilmente o pessoal da Folha, Veja, Band, etc.
  2. Ao lado do argumento da proteção pessoal, não caberia perguntar se, ao invés de uma parceria exclusiva com os mainstream não caberia parcerias com órgãos independentes. O GGN e o DCM fizeram importantes reportagens sobre a indústria da delação premiada e tem o costume de fazer bom jornalismo investigativo. Fora os freelancers: Marcelo Áuler, Fernando Brito, Eduardo Guimarães… Não se poderia fazer uma parceria com um conjunto de meios da blogsfera para também fazer a mineração e editoração do conteúdo?
  3. Poderia ser alegado que tal medida seria abrir demais os arquivos enviados ao Intercept. Mas se a parceria é feita na confiança, por que não escolher pelo menos os jornalistas mais experientes da imprensa independente? Encarariam isso como um modo de deslegitimação pública de seu trabalho ou que poderia atrapalhar as negociações com os mainstream e assim, poderia boicotar a tática de proteção dos jornalistas do TIB e da busca por ampla divulgação do material? Essas questões não foram sequer levantadas…

O argumento técnico para a não publicação, ainda, de áudios é que deve existir uma equipe ampla para poder ouvir tudo. No caso, a indicação de uma fraude da Lava-Jato em um áudio, pode ser desmentida por outros áudios ou conversas num outro contexto. O trabalho com o áudio é bem mais exaustivo.

O The Intercept está organizando um sistema, uma espécie de Google interno, para poder verificar com mais agilidade as mensagens nos inúmeros grupos do Telegram. Se isso agiliza as buscas das mensagens escritas, não é válido para os áudios, que não podem ser indexados.

Com isso talvez se possa indicar uma resposta a outro questionamento da prática jornalística do The Intercept: a de que eles podem simplesmente guardar a maior parte do conteúdo e não divulgar. Teria sido o caso com o material do Snowden. Para quem tem a memória um pouquinho melhor, a gente lembra que uma parte considerável dos hackeamentos da NSA em posse de Snowden tinham conteúdos exclusivamente privados de inúmeras pessoas, a maioria delas anônima. Se falou na época que chegava a dar nojo, por exemplo, na análise dos hackeamentos em chats do Yahoo, a quantidade de pornografia encontrada.

Ao se seguir esse princípio, de fato a vida privada do pessoal do judiciário não interessa a ninguém. Vê-los marcando almoço ou em discussão sobre questões técnicas não tem nenhum interesse público. Pelo mero fato das mensagens vazadas serem de conteúdo privado, o grosso do material deve ser de conversas desse teor. Daí o trabalho algo “sujo” que todo o jornalismo investigativo, de um modo geral, tem sempre que fazer.

As especulações sobre a suspeições do Intercept fora do mainstream

Pepe Escobar é um dos que mais levantam suspeitas sobre as intenções de Glenn Greenwald, baseado no seguinte argumento: a compra dos arquivos do Snowden pelo dono do eBay, responsável com seu dinheiro pela montagem do The Intercept, resultou na censura dos materiais do Snowden. Por outro lado, dentro do que Escobar chama de “geopolítica” (termo retórico para fenômenos bem mais amplos e complexos), a queda de Moro interessaria a uma elite vinculada a Trump, diferentes dos neocons do aparato de Bolton e Hillary.

Existem muitas verdades parciais em todas essas especulações e elas acabam sendo uma maneira mais sofisticada do coro especulativo sobre as fontes do The Intercept. Sob nenhum ponto de vista se deve reinaugurar o Tribunal da Santa Inquisição, ainda mais numa sociedade que vem sendo devastada pelo Santo Ofício nos últimos cinco anos. Deve existir um distanciamento e um apego aos fatos.

O caso Snowden, apesar de qualquer minúcia que ainda queiram averiguar, também teve o mesmo poder de deixar o rei nu. Com Greenwald dando tantas entrevistas atualmente, por que não perguntar diretamente a ele sobre essa questão tão insistente?

O caso Intercept, de Snowden aos Drones Papers até a Leva-Jato devem ser colocadas num contexto sócio-histórico de maior amplitude. Um exemplo disso, para quem se interessa pelo tema, apresentei num artigo chamado Wikileaks, uma narrativa curta do 11/09. Nele, infelizmente tive que discordar da postura utópica de Escobar em relação ao Wikileaks…

Sobre sua colocação de que o Dossiê Intercept seria uma trama das elites para colocar os militares no poder, mais uma vez se reduz à questão de quem disponibilizou os arquivos. Sabendo suas origens, deveria se saber quais objetivos da publicação de material tão vasto. O dado concreto é que se quebrou mais uma perna do governo Bolsonaro. Militares saindo (a proeminência agora é a do caricato Heleno), Guedes encurralado e Moro morto, o golpe ficou nu, pornograficamente nu.

O que se pede é acompanhar a continuidade das matérias sobre o Leva-Jato, ver aí como se porta o Intercept frente à luta contra o golpe, e como isso influi diretamente sobre o governo. Com todo respeito, pessoalmente, dou todo crédito a esse enredo do tipo Brasileirinhas trazido à público, com coragem, por Glenn Greenwald. A verdade sobre a Lava-Jato já era há muito sabida (por muitos desde o início). A virtude das novas revelações é escancarar as relações promíscuas e popularizar o debate.

Alguns, muito entusiasmados no início, passaram a achar que o “dossiê gorou” porque “com Supremo, com tudo” ainda não soltaram o Lula. Isso seria uma espécie de distúrbio bipolar (antigamente se chamava de distúrbio maníaco-depressivo…)? Pelo contrário, sua mera revelação inesperada num domingo qualquer foi algo com força de mudança de paradigma da política atual. Não vai acabar por aí.

A Brasileirinhas antecipou. A única diferença é que são juízes e procuradores e não as atrizes que levam jato. O show tem que continuar.