Por que os eleitores brasileiros escolheram o “mensalão”?

Por que os eleitores brasileiros, ao optarem pelo “novo”, colocaram o baixo clero, o “centrão”, no poder e assim elegeram os temas mais rejeitados como a mesada a políticos ou a formação de quadrilhas parlamentares?

Enquanto isso o alto clero continua com suas roubalheiras, com o Supremo, as Forças Armadas, com tudo…

“Quem deve enfrentar monstros deve permanecer atento para não se tornar também um monstro. Se olhares demasiado tempo dentro de um abismo, o abismo acabará por olhar dentro de ti.”

Friedrich Nietzsche, Genealogia da moral, § 146

O tema que relaciona as jornadas de junho de 2013 com as eleições de 2018 é a busca pelo novo. Mas, pelos motivos mais banais, de forma alguma se pode falar de “novo” com a eleição de Jair Bolsonaro: o de ser parlamentar por três décadas e por pertencer ao “centrão” ou ao baixo clero da Câmara como tantos outros personagens – a depender – apagados ou exóticos

O que as denúncias mais recentes contra a família do futuro presidente revelam é o modo de vida desse extrato de políticos profissionais. Desde a assessora vendedora de açaí, a doação da JBS, passando pelo motorista que anda no banco de carona até o fato de Bolsonaro figurar na lista de Furnas.

O episódio da Lista de Furnas circula há bastante tempo e, caso fosse investigado, seria um caso didático a respeito do funcionamento habitual do Congresso brasileiro. É fácil lembrar que nas barganhas para se votar a favor do impeachment de Dilma, Romário pediu e conseguiu uma diretoria em Furnas. A Lista de Furnas é uma espécie de corrente que liga o alto ao baixo clero. Silêncio na sala.

O problema do baixo clero é que ele é isso mesmo: inferior. As grandes jogadas, os acertos com o capital financeiro internacional, as contas CC5, a dilapidação do patrimônio público, o cúmulo de riqueza que pode ser entrevisto no caso, por exemplo, de José Serra, ou o misterioso apartamento tucano, uma casa de câmbio que trocava moedas estrangeiras em dinheiro vivo – nada disso “vem ao caso”. O que importa é o novo.

O fato de mais de uma centena de delatores estarem soltos enquanto Lula e Vaccari estarem presos não apavora ninguém. Muito menos estar intacta a fortuna dos beneméritos criminosos confessos. De outro lado, Geddel e Cunha estão presos: políticos a varejo do baixo clero para servir de exemplo da eficiência da justiça brasileira. Temer deve estar tremendo nas bases com a terceira denúncia que recebeu da PGR. Como mais um membro do “centrão”, sua prisão também servirá para amaciar a moralidade pública.

Aí você vê como ele foi burro achando que sua união com Cunha e o golpe contra Dilma iria lhe trazer as graças dos donos do poder. 

No mais, o PP, partido de Bolsonaro até ele criar o “novo”, gordo e esquisito PSL, é o partido que tem mais políticos investigados. Sua convivência nesse meio, além dos 100 mil reais confessadamente recebidos da JBS, não interessa à mesma moralidade pública. Onix Lorenzoni e seu divino perdão explicam em parte como são obtidas essas concessões feitas pela “sociedade” (high society).

No meio popular propriamente dito, acredito que vale o que disse em outra publicação: O descompasso entre economia e realidade no Brasil, acaba por produzir o efeito de não se vincular um significado político a uma realidade social (não seria um empenho doutrinador do PT que resolveria esse descompasso histórico na percepção do brasileiro). Como resultado, para a população de um modo geral, pouco importa a eleição entre um ou outro candidato. Passa a impressão de que tudo o que é imaginado acaba por apontar sempre para a mesma realidade. Supostamente vestir farda (porque nem isso o capitão talvez jamais foi visto) e dizer, como o pessoal de junho de 2013, que é “contra tudo o que está aí” já serve.

O dado concreto é que Roberto Jefferson não é exatamente um ficcionista: pressionado pela CPI dos Correios, levantou uma palavra de ordem, “mensalão”, mas atribuiu a políticos errados. O que se mostrou extremamente útil. Deu o nome popular para algo muito antigo e que Temer continuou a fazer à luz do dia soltando recursos para emendas parlamentares para sua base aliada.

A parte ficcional coube a justiça e a mídia inventarem, sacudindo as bandeiras do neomacartismo e colocando o PT como uma quadrilha ao estilo Al Capone. O desejo difuso pelo “novo” como expresso por parte da classe-média e das classes populares (por sua vez, impedidas de exercerem seu direito pleno de voto tanto pela tramoia da biometria, pela prisão do Lula, pela correria do TSE em apressar a escolha das chapas e no seu objetivo de criar uma eleição asséptica, sem bandeiras, panfletagens e que tais – muito parecido nesse caso com junho de 2013) acabou se materializando.

A política do baixo clero, do chamado “mensalão”, acabou por prevalecer e o alto clero continua roubando como nunca. Por exemplo, a isenção de impostos de Temer a petroleiras estrangeiras que retirarão mais de 1 trilhão de reais em arrecadação nos próximos anos é uma jogada de bispos e não de padres. Se foi um cônego ou padreco qualquer que assinou a medida foi obedecendo ordens superiores. E o governo Bolsonaro já arranja, também à luz do dia, roubalheiras cada vez mais hollywoodianas.

E isso não tem nada a ver com o “mensalão”, que continuará firme e forte depois que o povo “escolheu” essa opção, claramente limitado por toda sorte de manobras que fizeram dessa última eleição a mais artificial de toda a história, talvez até se comparada com as que ocorriam durante o Império. Algo a ser pesquisado.

A busca pelo “novo” ou até a busca por Ciro Gomes, por exemplo, mostra que a inovação não nasce a golpes de força ou na opção por supostos “carismas” (o Bozo também entra nessa história; parafraseando Jucá: com Ciro, com Barbosa, com tudo). O fim do governo Bolsonaro (daqui a um mês ou daqui a oito anos – tudo é possível atualmente) talvez seja o momento onde se revele não exatamente a novidade, mas o que de maduro, se tornará inovador. E Lula e o PT continuarão a não ser coisa do passado.

Já que iniciei falando do óbvio, terminarei do mesmo jeito: todos os que se apresentam ou optam pelo “novo” tem alguma da história brasileira. É bom lembrar o caso de durante o processo de impeachment quando pediram “diretas já” no meio da luta pela manutenção da legalidade. É uma contradição em termos e mostra a idiotice generalizada. Isso para ficar com o suposto setor mais esclarecido, a chamada “esquerda”.

Lula Livre! Fora Bolsonaro! Abaixo o STF e as Forças Armadas!