Por uma nova proposta (as falsificações da história 3)

Em 2013 Putin alertava, em meio às “primaveras” que se espalharam pelo planeta, e que levaram à difícil situação de seu país com a Ucrânia, “nós podemos ver na TV como esses ‘bandos de militantes’ bem treinados estão funcionando”. Hoje se vê no Brasil como “funcionam” esses bandos de militantes bem treinados, elogiados enquanto “movimentos espontâneos”, ao mesmo tempo em que são jogados ao esquecimento tudo o que vem dos movimentos organizados, da “esquerda petralha”, ou seja, dos movimentos sociais organizados como a CUT, a FUP ou o MST. Daí se vê o fascismo de um frente à consciência política de outros. Apesar de tudo, o que diferencia um movimento do outro é menos a falta de propostas (como se atribuiu aos protestantes de junho de 2013) do que o tipo de propostas que encabeçam. Contudo, a maré da negação política tem o lema do niilismo. Moralistas criticam da esquerda à direita da maneira mais acrítica possível e são incapazes de, fora de medidas genéricas, apontar uma única saída política para o Brasil. Seguindo os rastros de uma “micropolítica”, organizamos aqui de maneira bem breve uma proposta para mudança de paradigma em nossa política. De tão concreta, beira à irreverência, sem a qual, contudo, não se faz política. Nas últimas duas publicações de nossa série, criticamos até o cansaço uma série de bizarrices, começadas em junho de 2013, que nomeamos As falsificações na história. Segue a contraprova de tudo que tenho dito, “para não dizer que não falei das flores”.

Disponível em PDF na Academia.edu

Por uma nova proposta (as falsificações da história 3)


Para quem acha que estar informado é seguir a pauta do Jornal Nacional e do sub-jornalismo que lhe é periférico; para quem acha que catástrofes provocadas ou não por humanos, um mundo repleto de supostos ladrões enquanto o deus mercado regurgita suas exigências e explora sua diária tarefa de genocídio e destruição; para quem, através de um suposta indignação, pelo simples fato de se vestir de luto e auto-proclamar-se o que quer que seja, ou para quem se indigna pelo simples fato de não ser possível não se indignar com tanta roubalheira – por que não uma nova proposta? Não falo de coisas bizarras como o Instituto Global-Judicial Innovare ou da bizarrice de acreditar que nada dá certo no país, mas que a justiça (ou os justiceiros?) estão fazendo sua parte. Nem que a ocidental e progressista Coréia do Sul possa usar hábitos menos comunistas do que a manipulação em massa através da nova prostituta no altar, as redes sociais[1] – ou, o que é pior, acreditar que é progressista por se rebelar em massa, em rebanho, no sacrifício de sangue exigido pela deusa pagã.  Quem sabe achar que a Rússia ainda é a velha terra do famoso “despotismo asiático”, decantado e distorcido por progressistas como Karl Marx (aquele que escreveu o panegírico ao lorde inglês Palmerston, o que controlava o zoológico europeu das revoluções oitocentistas), e sequer pode tentar ouvir Vladimir Putin, o Autocrata:
The events in Ukraine remind me less of a revolution, than of pogroms. And, strange as this may seem, they have little to do with Ukraine’s relations with the European Union. Note that nobody bothers to actually delve into those draft agreements, nobody sees anything and nobody hears anything. They say that the Ukrainian people are being deprived of their dream, but if you look at the content of those agreements, then [it’s clear that] many people would simply not live to see their dream — and dreams, in principle, are good; but they wouldn’t make it, because the conditionalities are very tough.
 As I said, I don’t think what is happening is directly connected with EU-Ukraine relations. This is a domestic political process, an attempt by the opposition to destabilize the current, and, I stress, legitimate, government of the country. Everything now happening indicates that this is no revolution, but a carefully prepared action. I don’t believe they were being prepared for now, but for the 2015 Presidential election campaign. … We can see on TV how these well-trained ‘bands of militants’ are functioning. The opposition either doesn’t have control over what’s going on, or they are just a political screen for extremist acts[2].
“Nós podemos ver na TV como esses ‘bandos de militantes’ bem treinados estão funcionando”. Eles estão se preparando para as eleições de 2015 e, para aproveitar o embalo, seguindo as manifestações de militantes bem treinados que acontecem mundo afora. E a Ucrânia não pode de forma alguma fugir da Troika, e todos esses tipos de rebeldes confirmam-se assim como verdes – marinistas? A Ucrânia não pode se juntar numa aliança euro-asiática. De forma alguma. Pois aí ela poderá desenvolver ainda mais seu programa espacial, ter energia nuclear e participar de amplos projetos de infra-estrutura (como a que refaz a antiga Rota da Seda com trens de alta velocidade, capitaneado pela China) que estão ocorrendo nesse eixo, por fora da caduca Europa que temos um contato mais direto, a que beira o Atlântico norte.
Então está combinado: vamos esperar para fazer a revolução. Ok? Esperar até a Copa (mas já passou…), esperar ao lado da Marina (sempre!), do Sardenberg, Elio Gaspari e da Miriam Leitão. Como vai ser agradável esperar! Que companhia!!! Ai, ai… Acho que assim falaria igual ao pastor Jacob, de Camões: mais esperaria “se não fora, para tão longo amor, tão curta vida”. Pode parecer que estou puxando nomes ao léu, mas eles dizem esperar, Gaspari (que mente ilustrada!…), Sardenberg (“olha como cresceu!” Calma, ele falava do Tio Sam, quero dizer, de sua economia – seu apelido é “termômetro de Viagra”) e tantos outros. Que lindo jardim! Que tal chamarmos Palmerston, o lorde loucado por Marx, para cuidar do jardim zoológico onde estaria a reunião feita por ele das sub-espécies humanas? Ao lado de companhias tão ilustres acho que vai se sentir em casa. Portanto, chamemo-lo. Vamos ser tão bons cavalheiros quanto todos esses cidadãos são. Queria até chamar outros seres bastante encantadores que vivem no jardim… Imagina dormir ouvindo falar Olavo de Carvalho! Nossa, perco até o sono de tanta vontade. Vamos chamar então o Instituto Mises para fazer uma administração imparcial de nosso zoológico, com a meritocracia sempre em primeiro plano. Imagina só como vão se tornar ainda mais imparciais todos esses habitantes do lindo reino… Ah! Só de pensar… Um zoológico de animais domésticos. Já pensou? De animais domesticados pelo Império. Britannia, cuide de seus filhos. Amém.
Não há jaulas, só alegria. Afinal, vamos chamar também o Google e o Facebook para a parte tecnológica de nosso parque gnosiológico. Os visitantes vão entrar sem precisar passar por catracas, como utopiza o pessoal de 20 centavos. Já pensou? Mas qual mágica, qual tecnológica é essa? Não é mágica, amor, é internet. O gigante não acordou, você não sabe? É a realidade virtual, só isso. Por isso que os visitantes entram sem catracas. Mas sem catracas mesmo, sem virtualidade. Empresas que trabalham para o Facebook desenvolvem um projeto a partir do qual seus usuários terão as fotos reconhecidas mesmo sem serem marcados. É um sistema algo complexo que envolve a sobreposição de camadas das fotos, num sistema de leitura que procura imitar a capacidade do cérebro no reconhecimento de fisionomias. O Olho Que Tudo Vê somente se aprimora: “O sonho da AI é a construção de conhecimento do mundo e saber tudo o que está acontecendo[3]”.   Vigilância massiva e mineração de dados, esse o paradigma. Curtiu? Associado às câmeras que se espalham pelo mundo afora, o Google Earth, e demais sistemas, imagina que tipo de “revolução” isso poderá criar. E todos achando que é algo espontâneo, inclusive a perseguição maciça a todo e qualquer cidadão. Finalmente, seremos habitantes do mais aprazível jardim zoológico.
Para respirar ares mais puros, fugir um pouco do cheiro dos mamíferos que dizem ter ultrapassado seu estágio na linhagem dos primatas, dou como mote algumas palavras do sempre esclarecido professor Wanderley Guilherme dos Santos. Temos que propor algo, temos que ter consciência das forças históricas que movem nosso país – esse o lema de todo o nosso texto até aqui. Como contribuição singela, faço aqui uma proposta concreta que pode ser uma alternativa viável para o país economizar bilhões ao ano e fugir de vez de qualquer “medo inflacionário”, na verdade um pesadelo que quer plantar a mídia na cabeça de cada brasileiro. Vamos ao mote:
Cada área econômica, cada segmento social, cada relação com o exterior, guarda surpresas para Executivos de boa fé. Por isso, trombetas jornalísticas à conta de insuficiências governamentais indicam incapacidade de descobrir, sob o óbvio do cotidiano, as razões dos problemas. Toda crítica desacompanhada de alternativas aceitáveis de ação, com efeitos relativamente previsíveis, em custos e benefícios, não passa de pedantismo intelectual. No momento, é evidente que as propostas bem articuladas da inteligentziada oposição evitam apresentar a conta dos custos dos benefícios que teoricamente as medidas trariam. Mas a advertência cabe também à esquerda caolha, que faz muxoxo porque a revolução não está sendo feita. Parecem russos que ainda não foram avisados: não há nenhuma revolução à vista, nem em métodos, nem em objetivos aceitáveis. Esse papo não pertence à democracia[4]
Tocamos, portanto, em tema sensível. O Google bolchevique, nascido nas entranhas da ditadura, o sistema Globo de comunicação, faz alarde em editorial a partir de uma suposta análise realizada pela probíssima agência Mood’s[5]. É o velho blá blá blá sobre gastos excessivos com todos os componentes de perversidade a ele correlacionado. A joia da coroa é a crítica ao aumento automático do salário mínimo, uma fonte inesgotável de “gastos”. Sabemos que essa medida arejou as negociações habituais entre empresas, trabalhadores e o governo, pois a discussão em torno ao salário mínimo cedeu lugar para outras propostas, aprofundando o debate entre os setores da sociedade. Vamos com outro incansável lutador contra as forças do regresso. Mas faço somente um contraponto ao lema do brizolista Fernando Brito. Ele está corretíssimo quando destaca que “a política, sem polêmica, é a arma das elites”. A política também sem irreverência é sempre aquela do discurso dos “entendidos”. A polêmica sempre é algo irreverente, até porque os adversários são figuras tão despreparadas, tão “primitivas”, por assim dizer, que só troçando de pessoas que se acreditam tão iluminadas a gente pode colocar as coisas nos seus devidos lugares. Assim Fernando Brito responde à Moody’s:
O canalha que emprestou sua mão para escrever o editorial de O Globo, capaz de dizer que um real de aumento do salário gera R$ 340 milhões por ano de despesa, no meu tempo merecia ser puxado pela orelha até uma mãe pobre, com suas crianças no modesto barraco, e ser mandado dizer isso a ela.
Esta mesma pena de aluguel não diz que, para os juros pagos à turma da grana alta, para os quais sempre defendem a indexação para cima, um mísero ponto percentual a mais custa 80 ou 90 vezes mais que aquele R$1 no salário[6].
A conquista representada pela indexação do aumento do salário mínio ao crescimento do PIB mais inflação não pode ser a frente única no combate ao capital rentista. As obras do PAC, a Petrobrás, e muitas outras ações do governo que teve que recomeçar a história dos grandes projetos nacionais, realizados com grande maestria por JK, além das contribuições importantíssimas de Getúlio, provocaram toda uma reviravolta no modo de se fazer política no país, do chamado pacto federativo até as legislações que permitem os projetos nacionais de infra-estrutura. A indexação do salário mínimo pode ser completada com outro tipo de indexação, mais aperfeiçoada: ao invés da “inflação + PIB” podemos propor “PIB + juros”. Caso os juros estejam menores do que a inflação, voltamos ao antigo sistema, mantendo dessa maneira o crescimento real do salário mínimo. É esse tipo de irreverência que deve pertencer à política. É uma proposta real e muito mais eficaz do que o sistema que faz o governo ficar sempre de olho no fantasma inflacionário. Na verdade, esse fantasma se dissipa nas trevas em que tem sua origem. Quanto mais investimento no trabalhador, menor a inflação. Até chegarmos ao ponto em que irão se confundir na irrisão tanto os juros quanto a inflação, momento este em que devermos pensar em outras formas ainda mais aperfeiçoadas de se pagar os trabalhadores. No mais, essa é a medida mais justa, já que é impossível se pensar em sistemas tresloucados, esquizofrênicos, como o que assalaria rentistas internacionais bem mais do que dá poder de compra ao povo. Como qualquer pessoa que compreende minimante o que representa a dignidade humana, é o capital especulativo estrangeiro que arrebenta com a economia dos países, em surtos ora de inflação zero, ora de hiper-inflação – nos dois sistemas e na transição de um para outro, a submissão completa da pátria aos insalubres ventos internacionais –, e não o aumento do poder de compra da classe trabalhadora, indutora da produção industrial, promotora das mais naturais barreiras comerciais, e geradora do bem estar geral.
Contribuímos assim, sem a melancolia dos homens de luto, dos black-blocks e similares, para um debate progressista tem em vista o futuro da sociedade. E que a polêmica se faça sempre que necessário, que a luta aconteça, a luta de Heitor e não de Aquiles, a luta justa em defesa da pátria e não a raiva incontida, lutuosa, biliosa, daquele que se sentiu ofendido por causa de algum ferimento causado em seu amor-próprio.


[1]Gugelmin, Felipe. Inteligência da Coréia do Sul usou o Twitter para manipular eleição. Publicado em 29 de novembro de 2013 em http://www.tecmundo.com.br/.
[2]Pronunciamento extraído de: http://larouchepac.com/node/29075
[3]Jornal GGN. Facebook vai aprender tudo sobre você a partir de suas fotos. Publicado em 23/12/2013 no portal http://jornalggn.com.br/
[4]Santos, Wanderley Guilherme. Observações críticas sobre o muxoxo da crítica. Publicado no portal Carta Maior em 10 de janeiro de 2014. Disponível em: http://wwww.cartamaior.com.br
[5]Jornal O Globo. Os malefícios da indexação do salário mínimo. Editorial publicado em 12 de janeiro de 2014.
[6]Brito, Fernando. Os feitores do salário mínimo. Publicado em http://tijolaco.com.br, em 12 de janeiro de 2014.