Porque escolher Amorim seria uma opção “cirista” do PT

Foto: Ricardo Stuckert

Nada contra o ex-Ministro. Muito honrado, de conduta ilibada, trabalho reconhecido internacionalmente, um quadro dos mais qualificados tecnicamente do Partido dos Trabalhadores e do Brasil, e a quem, pessoalmente, devoto a mais legítima admiração. O problema de um possível escolha de Celso Amorim para vir como vice de Lula e, caso o Estado de exceção prevaleça, ter o Chanceler como candidato a presidente, é o problema moral que essa escolha pressupõe.

Fala-se nos bastidores que Celso Amorim teria saído da disputa para o governo do estado do Rio de Janeiro por causa dessa possibilidade, de ser o que entenderiam como “um trunfo na manga” caso Lula seja boicotado. Essa é uma escolha moral e não política, ou seja, pretende confortar o ego das classes-médias fascistas, dos paneleiros, com um argumento assim: “não será aquele pobre, nordestino e condenado que será o candidato, mas o Chanceler, o grande ministro, um homem culto e educado, sem compromisso com a politicagem e que preza pelo desenvolvimento do país”.

O argumento moral não se sustenta por ser imoral querer trazer para o centro político uma “figura de consenso”. Isso não tem absolutamente nada a ver com a escolha de Dilma Rousseff para suceder Lula. Dilma chegou ao primeiro governo do PT por seu bom trabalho na Secretaria de Minas e Energia do Rio Grande do Sul. Único estado do país que não sofreu do apagão, ela foi a responsável por ter administrado suficientemente bem sua pasta e ter evitado em seu estado a tragédia do racionamento de energia elétrica que es espalhou pelo país. Haveria uma indicação de um nome fisiológico qualquer (pelo que lembro, um nome do PMDB indicado por José Dirceu) para o Ministério das Minas e Energia. Foi uma escolha pessoal de Lula colocar Dilma na pasta. Quando saiu Dirceu da Casa Civil, foi a Dilma para seu lugar. Sabia administrar muito bem os assuntos internos do governo (foi chamada de “mãe do PAC” e quem viu suas entrevistas da época que ainda nem candidata era sabe como ela teve que mobilizar inúmeros recursos para poder viabilizar os projetos mais ambiciosos do governo), além de ser uma militante política com um histórico honroso, porém sem a experiência na vida pública tradicional, ou seja, na caça de votos e na construção de alianças não propriamente “programáticas”, mas eventuais.

Uma ótima operadora da máquina do executivo, em suma. E com charme? Sim, charme de ser uma ex-guerrilheira, brizolista, e muito bem preparada tecnicamente. O que foi de ocasião? O “mensalão” não chegaria nem próximo dela. Assim fala-se também de uma questão moral, mas a escolha de Dilma assombrou os cálculos de qualquer petista ou mesmo de antagonistas. Foi uma escolha intempestiva, como que números favoráveis num jogo de dados. A sorte respondeu aos apelos do “baixo ventre”, moralistas, porém os ultrapassou em muito. Consternados à esquerda e à direita, a tática foi desqualificar a presidenta. E isso até o final de seu mandato, abortado! E continua, se deixarem…

Ainda se irá conseguir fazer uma análise não dos “bastidores do governo” ou de suas relações interinstitucionais apenas, mas dos desafios de se destravar a máquina burocrática num país que havia décadas não fazia uma grande obra de infraestrutura, onde os municípios não tinham sequer projetos (nem rascunhos de projetos) e muito menos engenheiros e técnicos, devido as décadas de negligência do governo federal. Do sistema energético integrado ao início da construção dos grandes e também dos minúsculos, os mais locais, projetos de infraestrutura albergados no PAC, até todo o projeto de direcionamento de crescimento da Petrobrás em prol do desenvolvimento nacional, da saúde e da educação. São muitos os aspectos das virtudes da presidenta deposta que precisam ser estudados, mas que a gritaria nas esquerdas e nas direitas, ou melhor, nas esquinas mais infames do país, não deixam ainda que sejam devidamente expostas no que houve de desafiador em cada batalha e do orgulho de ter saído vencedora em inúmeras delas – desde 2003.

A possível escolha de Celso atende aos apelos morais, ou seja, ao fascismo. É um trabalhador qualificado tecnicamente, mas de uma área que não tem nada a ver com a do executivo federal em suas minúsculas batalhas diárias, seja na elaboração e projetos ou na construção de alianças. Não duvido, com isso, que Celso Amorim possa se sair muito bem. Daria meu voto a ele com orgulho. O problema político é escolher uma suposta “figura de consenso”, uma figura que não tem relação com o movimento real do programa do partido. O Partido dos Trabalhadores privilegiou o nordeste como região geográfica, os mais pobres como questão social (a “questão social”, por exemplo, de FHC, acabar com a inflação, além de ter sido pago um preço muito com a dolarização da economia, não diminuiu em nada a carestia),e a integração nacional e inter-regional através da construção de uma classe-média ampla, do fortalecimento dos pequenos e médios municípios, das obras de integração metropolitanas e interestaduais, da exploração da riqueza do petróleo em conjunto com o desenvolvimento das forças armadas, e no amparo aos desvalidos em todos os cantos do país.

Nesse conjunto, o destaque é o nordeste, que teve taxas de crescimento “chinês” durante alguns anos, e foi de longe o lugar onde as transformações sociais foram mais sentidas. Quantas eleições Lula e Dilma, o Partido dos Trabalhadores, devem ao nordeste? Esse movimento para as áreas menos favorecidas do país, para o norte e nem tanto para o sul, é o que faz atiçar a chama do fascismo nas grandes metrópoles. Não é por outro motivo que o tribunal de exceção que julga Lula está no Rio Grande do Sul, com sua sucursal de Curitiba, lugar geográfico diametralmente oposto para onde, por livre-escolha, se moveu os governos do PT.

Não acredito em candidatos de consenso, tampouco acho que a solução deva sair do eixo Rio-São Paulo. A efeméride em torno de Haddad foi só isso, um entusiasmo passageiro. Agora procuram outro candidato do Sul Maravilha, porém mais velho, mais estudado e com um histórico político consolidado, desde o Ministério das Relações Exteriores até o Ministério da Defesa. Só que Lula não leva o país ao consenso. Ele o polariza. Aliás, a “polarização” política criada com as eleições sucessivas dos candidatos do PT é algo criticado desde muito tempo por Ciro Gomes, aquele que tem ojeriza ao PMDB e ainda assim quer se apresentar como um conciliador, com DEM, com a ala tucana do PSB, com Supremo, com tudo.

Que a escolha de um vice, já que ela deverá ser feita, respeite esse movimento natural do PT, rumo ao norte, aos mais pobres e a boa prática de governar. O Partido dos Trabalhadores criou no cenário nacional a chamada política de consenso, porém isso é um meio de governar e não de amansar o furor assassino daqueles que, proximamente, o mesmo destino dos porcos endemoninhados do evangelho. Se Lula foi impedido, não podemos vir sem candidato. Será deplorável uma disputa nacional entre Ciro e Doria. Um show de pirotecnia. Sendo assim, que não se escolha candidatos de consenso, seja quais qualidades ele tiver. Dilma não foi uma candidata de consenso e ganhou duas vezes e fez um bom governo por essa mesma razão. Ela sabia para onde se movia o curso da história, de onde vinha o apelo dos desvalidos. Que se respeite o imenso norte de nosso país e não se faça um candidato saído de um conchavo. Não precisamos de um nome para agradar a todos, muito menos esquerdistas ou partidários. Se o PT conseguiu tanto por tanto tempo não foi exclusividade das qualidades de sua liderança maior, mas por ter inúmeros quadros dos mais capacitados. Que a escolha seja pela boa política, ou seja, para o combate, e não para calar a histeria e o fascismo, de esquerda e de direita.

A união das esquerdas é o bom combate, é trazer a espada e não a paz. Somente na luta haverá união. Caso contrário, a falsa paz, a falsa união, trará a dispersão, uma sensação de conforto que jamais deve existir. Por isso Lula é candidato até o fim e por isso saberá escolher quem será seu vice (talvez nunca antes na história desse país foi tão difícil escolher um vice…), para além de qualquer papo de bastidor. Os próximos 90-100 dias serão os mais dramáticos de nossa história.

Parece que o que se chamada de esquerda procura um príncipe para ocupar o cargo máximo do executivo federal. Isso é um movimento correlato à crise de todos os movimentos reacionários, golpistas, que simplesmente ficaram órfãos depois que morreu o Príncipe da Sorbonne frente à hecatombe social e econômica promovida pelo Plano Real. Não se deve esquecer que para a “estabilização de preços” somente uma política recessiva de largo alcance pôde bloquear qualquer tentativa de desenvolvimento nacional soberano que, por sua vez, implica amplos investimentos, aumento salarial, capacitação técnica e educacional. Numa linguagem de mercado, isso cria a “inflação de demanda”, impensável nas planilhas dos Chicago Boys que dominaram nossa política econômica do Plano Cruzado ao Real. Uma hecatombe social foram o que criaram de ponta a ponta, de Sarney a FHC.

Eles buscam por esse príncipe com essa ideia mirabolante, uma prestidigitação capaz de criar um pacto social, no caso, a luta contra a inflação. Enquanto se lutava contra isso, todo o setor produtivo foi colocado de lado, os setores mais pobres da sociedade relegados ao esquecimento, e nos tornamos numa colônia de uma maneira praticamente similar ao que acontece agora, já que tudo o que Temer consegue aprovar não é nada mais do que a versão 2.0 dos governos tucanos. Não por outro motivo ele está rodeado de tucanos por todos os lados. Convenientemente, se destaca suas companhias do PMDB, como o Quadrilha, o Jucá, o Angorá, etc. O que há de mais nefasto nesse governo são os Chicago Boys que ocupam postos-chave. O problema então dessa direita é ter uma face bonita, ilustrada, iluminista, para legitimar o genocídio.

Não acredito que a busca por um nome bonito, uma figura “de respeito” ou mesmo alguém do eixo Rio-São Paulo seja a solução. Não precisamos de “boas figuras”, mas da boa arte de governar, essa mesma que fez o Brasil voltar a crescer depois de décadas de estagnação, com ou sem inflação. Ciro, Amorim, Haddad, são miragens intelectuais. Se fosse para chegar a tanto, muito mais realista (ainda que não seja factível por questões legais) seria uma nova candidatura de Dilma Rousseff. A solução é ir à raiz. Não deve-se achar meios termos.