Proliferar notícias falsas

 

Deve-se acabar com a ingenuidade de se acreditar que houve uma tentativa de criação de um espaço de comunicação alternativo que chancelaria, por uma espécie de sub-sistema baseado na oposição parlamentar bipartidário de tipo britânico, o própria “sistema liberal”, só que por meio da internet. E que hoje essa liberdade conquistada com as “redes sociais” estaria ameaça pelo uso abusivo das “fake news” por parte do oligopólios midiáticos. A atual “contra-ofensiva” do Facebook só pode ser compreendida como um passo a mais numa ofensiva generalizada, iniciada com a mineração massiva de dados (o caso Snowden) que ofereceu como contrapartida uma suposta livre-expressão nas redes. No momento, busca-se de vez capturar esse espaço com a confusão criada pelo cinismo neomacartista, cujo resultado é uma proliferação nunca antes vista de notícias falsas. Todo o esforço para desmascará-las tem como objetivo multiplicá-las.

Caro Felipe II (desculpe chamá-lo assim, mas você não tem Júnior no sobrenome e seu pai o foi primeiro de toda uma dinastia…), desculpe te contrariar, mas você tem que ver que a importância do acordo entre a Coreia e os EUA é que ele foi costurado junto com a Rússia e a China. Isso não foi um ato isolado das partes e é a primeira coisa a ser considerada. Os EUA não teriam poder de dissuasão sem o apoio do Putin e do Xi Jinping. Mas o mais importante é que essa atitude do Kim Jong-un veio logo após a Rússia ter anunciado sua nova classe de armamentos, o que colocou os EUA na defensiva, e de conversas entre a Coreia do Norte e os países asiáticos no ano passado, durante o Fórum Econômico realizado em Vladivostock. Dali passou a ser costurado o acordo.

Sua crítica ao discurso do Trump deve ser feita no sentido de que 90% do que ele fala é jogo de cena. Já foi esquecido que esse encontro foi adiado recentemente porque um dos membros de seu governo queria uma solução estilo Líbia para a Coreia. Isso pegou muito mal e se teve que adiar essa conversa. O que houve na verdade foi uma espécie de “Você congela que eu congelo”, ou seja, um movimento que mostra que a paz virá mais do diálogo do ocidente com o oriente, do desenvolvimento econômico conjunto, do que de medidas isoladas que, por mais que estejam escritas, juradas e sacramentadas, não garantem nada.

O importante desse encontro é a disposição do Trump para o diálogo. Isso pode parecer irrealista para você (e para tantos outros!), mas foi exatamente isso que o fez ganhar as eleições. Os democratas continuam com a defesa da política de “mudança de regime”, da criação de “zonas de exclusão aérea” (essa era a proposta da Hillary para a Síria, o que inevitavelmente levaria a um conflito com a Rússia, já que o apoio dos russos aos sírios se baseia na força aérea; e mais, a “zona de exclusão” serviria para abater qualquer aeronave que não pertencesse à OTAN, estando ou não em voo; dá para se imaginar daí as consequências), além da defesa do liberalismo econômico mais ortodoxo, tanto dentro quanto fora das fronteiras do país. Além do mais, já foi esquecido que o suposto “hackead” (não “leakead”, como deveria ser chamado, de acordo com o memorando dos VIPS -Veteran Intelligence Professionals for Sanity) dos arquivos de campanha de Hillary Clinton mostraram que ela usou de táticas espúrias para não perder as primárias para o Bernie Sanders. Só se fala da suposta interferência russa na campanha “democrática” americana e se esquece do que o vazamento ou o hackeamento disseram: a conduta de Hillary foi criminosa do início ao fim para com seu concorrente. Esse é um ponto que acredito que deva ser considerado.

Nesse balaio que inaugurou oficialmente a era do neomacartismo (já o vivíamos há muito), coloca-se o Trump como um “inimigo da democracia”, mas é desse tipo de democracia à ocidental. Na verdade, ele tem todas as características, se nos basearmos apenas nas manchetes da grande mídia, de um Putin americano. É pelo mesmo motivo que com tanta facilidade associam os dois com o Kin Jong-un, e com mais um pouco de esforço, ao Xi Jinping. É caricato. Não é por outro motivo que se alardeia agora sobre a prisão de crianças nas fronteiras do país, fato tão antigo na história daquele país e que, num passe de mágica, vira culpa do “autocrata”. É para desviar a atenção do significado histórico desse encontro entre EUA e Coreia do Norte. Mais do que um suposto acordo de paz, o fato é que o contínuo desmantelamento, nos EUA, do “Russiangate” (espécie de Lava-Jato à americana, ou seja, com objetivos de mudança de regime baseada num consórcio entre facções do setor judiciário, dos setores de inteligência e da mídia), permitiu agora ao Trump avançar mais em seu contato com os países asiáticos, inclusive ao colocar novamente na pauta um encontro com Putin, algo fundamental desde a última aventura na Síria, e condição sem a qual não podemos entrever o fim da expansão da OTAN no leste europeu, as ameaças no Oriente Médio, no Mar da China e na própria península coreana.

Felipe, eu sempre te falo, mas devo repetir: o que eu concluo das conversas com os amigos que tenho nos EUA é que com a Hillary não haveria solução de continuidade para uma política de détente entre americanos e russos. Estaríamos próximos ao precipício, como chegamos algumas vezes com o governo de Obama, tanto por sua promoção às revoluções coloridas, como pela pretensão de continuar o avanço da OTAN no leste europeu e a construção do escudo anti-mísseis (com potencial não só de defesa, mas de ataque nuclear) nas fronteiras com a Rússia. Esse é o lado sombrio. E tem toda a história a respeito da Nova Rota da Seda, que é um programa já em curso em inúmeros países asiáticos, em parte da África, comparado a um Plano Marshall pelo menos 100 vezes maior. A iniciativa de cooperação econômica encabeçada pela China é a única solução para superar os problemas do Oriente Médio, conectando a Europa a Ásia, como foi o objetivo de grandes lideranças no século XIX como Gabriel Hanotoux, na França, Sergei Witte, na Rússia, e Bismarck, na Alemanha.

Vou fazer por aqui apenas um breve parêntese para lembrar a gênese dessa história que somente mencionei. Quando Abraham Lincoln construiu a ferrovia transcontinental ou bi-oceânica, a importância não foi só a de fazer de seu país o primeiro a ir “de costa a costa”, do Pacífico ao Atlântico. Foi nas margens dessa ferrovia que se deu o maior caso até hoje registrado de assentamento de famílias (muitas delas imigrantes) em pequenas e médias propriedades, fundamental para o povoamento dos EUA, assim como na futura consolidação daquele país como um lugar com uma larga e bem sólida classe-média. Lincoln foi o primeiro a fazer uma reforma agrária no planeta. Quando Fernand Braudel escreveu seu livro sobre o Mediterrâneo, e mesmo depois no Civilização material, economia e capitalismo, ele não viu que foi a construção dessa ferrovia que fez pela primeira vez o ser humano deixar de depender das rotas marítimas como meio mais rápido de se locomover pelo planeta. Não foi só a primeira reforma agrária, mas a primeira interiorização do povoamento em larga escala. Por exemplo, na Europa, fora as cidades costeiras, o que ligava o continente anda era, em plena modernidade, o restante da rede de estradas do Império Romano. Hoje ainda, sem esse tipo de integração, preferencialmente com trens do tipo maglev, é quase impossível pensar na verdadeira integração econômica e social de inúmeras partes do planeta. E em seu ponto mais básico, é isso que propõe a iniciativa chinesa chamada de Nova Rota da Seda.

Meu amigo, você deve deixar de olhar para o Oriente como uma batalha perdida; como se Lepanto pudesse novamente ser reconquistada. Não há como, com os meios atuais, reconquistá-la à força. A não ser que você ache mesmo viável uma solução nuclear… Se no século XVII a Europa teve que se virar – e como melancolicamente o fez, como descrito – você sabe, pela pena de Fernand Braudel – para o Atlântico e esquecer completamente que não só seu domínio sobre o Mediterrâneo, mas das rotas que levavam ao Oriente. Nesse momento, o sistema transatlântico, gestado por essa agora melancólica Espanha junto a um falido Portugal, deve-se voltar ao Oriente, porém não mais com ares guerreiros, com espírito de Cruzada. Isso inviabilizará a existência da humanidade enquanto espécie. Caso você contribua para agravar sua própria melancolia, um longo caminho de destruição abre-se à nossa frente. Se não temos mais o ouro da América, esse mesmo continente, de sul a norte, deve voltar seus olhos para a Ásia, já que lá agora a dinâmica da economia mundial passou a reger a nossa, porém não mais com o olhar acrítico dos antigos cavalheiros medievais que viam naquele continente o objeto de sua cobiça e sede de sangue diante de uma Europa cruel e miserável. Com esses dois adjetivos, com certeza, estamos bem perto do que hoje é o Ocidente.

O que tenho a te dizer, em suma, a respeito do bom destaque que você fez a respeito da fala de Donald Trump depois do acordo com a Coreia do Norte, cujo destaque esteve no artigo de Helga-Zepp LaRouche que traduzi: a fala do Trump aparece, para nós, descontextualizada. Mas como é um texto de um estrangeiro, de uma alemã falando da situação internacional e dos EUA em particular, não dá para se pedir tanto. E que se conheça o trabalho de quem escreveu para se poder criticar com mais propriedade sua fala. Busque sobre o Schiller Institute ou sobre o partido alemão Büso, assim como sobre a própria Executive Intelligence Review e o LPAC, e depois venha me falar a respeito. Por agora suas críticas ainda são muito imaturas e por demais alinhadas com as da grande mídia estrangeira.

Logo, o único motivo para se dar destaque a situação das crianças nas fronteiras dos EUA foi desviar o foco do bem-sucedido acordo de paz não só entre EUA e Coreia do Norte, mas entre os dois mais Rússia e China, como demonstrado de maneira pormenorizada no artigo de Tyler Durden no Zero Hedge, a capa do Times que ficou famosa foi uma montagem grosseira de uma foto que “viralizou” na internet, não sem propósito e sem qualquer fundamento. Posso me alongar sobre isso depois, já que isso foi só um componente de uma gigante cadeia de manipulações, de fake news…

Deixo em anexo algum material para você pesquisar caso queira se aprofundar mais nos temas que, num breve espaço de uma carta, não posso desenvolver como gostaria tema por tema. no mais, deixo a você somente uma recomendação: por favor, faça o possível para não ecoar uma linha sequer do editorial da mídia estrangeira, em especial a The Economist. Nenhuma vírgula dali deve ser vista sem a máxima postura crítica. Por favor, eles são libertários e liberais, por isso que tão palatáveis à esquerda hodierna, que acaba tendo com a infame revista uma ligação carnal nunca assumida. Pelo menos isso: não seja cínico.

Grande abraço

ANEXO 1 (sobre a The Economist)

Numa de sua últimas matérias, a The Economist ilustrou sua capa com a imagem que te mostrei, ou seja, a de uma possível explosão nuclear devido à união entre Coreia do Sul e EUA. Criticam veladamente Donald Trump, ou seja, com uma dose igual de cinismo quando comparam a economia norte-coreana com a estadunidense ao falarem que “os americanos gastam duas vezes o PIB norte-coreano com seus animais de estimação”. Eu já te falei outras vezes sobre as constantes ameaças de guerra que a revista faz, desavergonhadamente defendendo posições que levariam – como as “zonas de exclusão aérea” de Hillary Clinton – a um confronto termonuclear em escala global. Não é diferente na propaganda em torno das chamadas “fake news”.

Novamente, eles defendem algumas medidas que seriam “concretas” contra a ameaça nuclear coreana, o que daria a pauta para o que supostamente Trump não fez. Deve-se lembrar só – e novamente – que esse acordo só será válido, seja lá o que se bote no papel ou não, com a continuação do diálogo com a Rússia e a China. Se Trump não tem qualidades, antes de criticá-lo talvez a gente tenha que se lembrar dessa única, a opção pelo diálogo. Por mais surreal que isso pareça a você, instruído na The Economist e todos seus correlatos libertários e liberais.

Quais são as medidas expostas no artigo?

1) aumentar as sanções contra a Coreia do Norte e estendê-las às companhias chinesas que comercializam com o perigoso comunista.

2) Incrementar sua presença militar – e nuclear – na Coreia do Sul e no Japão, assim como intensificar a política de implantação do escudo anti-mísseis com capacidade não só de defender, mas atacar seus inimigos com ogivas nucleares. Todo o desenvolvimento que levou a Rússia a anunciar sua nova classe de mísseis, anti-balísticos e ultrassônicos se deu por causa da implantação desses “escudos”. Continuar nessa política é, no mínimo, aumentar ainda mais as tensões entre ocidente e oriente.

3) Garantir aos sul-coreanos que só irá agir depois de consultá-los e ao mesmo tempo convencer a China que, no longo prazo, uma Coreia unifica à ocidental será melhor para seus interesses. Voê acena com a cruz e entre com a espada. Quer mais?

O problema é o que se considera hoje as “liberdades democráticas”, liberdades que só são entendidas dentro de um contexto de ultraliberalismo. Uma coisa é criar zonas de desenvolvimento econômico em conjunto, como o eixo Paris-Berlim-Viena proposto por Lyndon LaRouche pouco antes de cair o Muro de Berlim, no momento mesmo em que ninguém imaginava que isso iria ocorrer devido à exacerbação dos conflitos entre as duas potências. Isso é o correlato no século XX do que foram as políticas defendidas por Hanotaux, Witte e Bismarck, como mencionei, e a Nova Rota da Seda é isso, porém ampliado. Para o século XXI inteiro. Outra coisa bem diferente é se criar uma união política via união monetária, o caso do sistema-euro, um caso clássico e supostamente bem-sucedido de livre-mercadismo intenso. É por esse motivo que pintam o Brexit, o movimento correlato ocorrido na Itália, assim como a eleição de Trump, como movimentos populistas. Esse triste adjetivo, hoje, não é mais exclusividade dos latino-americanos, e novamente é aplicado de maneira errada. Se há populismo, o euro é um exemplo. No Brasil, o caso de estudo é o Plano Real, que acabou com a inflação mas não diminuiu a carestia. Pelo contrário, a ampliou com o aprofundamento da recessão econômica e o desrespeito à Constituição com a entrega de nossas riquezas do subsolo. Só há populismo caso se compreenda a propaganda que subjaz nas medidas econômicas supostamente milagrosas que vêm dos liberais.

Deixo abaixo o link para dois vídeos ilustrativos dessa visão ultraliberal, ambos recentes e da The Economist.

video 1: https://www.youtube.com/watch?v=lEWICxscGls

video 2: https://www.youtube.com/watch?v=ekc5EAPPPgk

ANEXO 2 (sobre o Xadrez das Fakenews)

Isso eu não te falei, mas vi com surpresa um dos últimos Xadrez do Luís Nassif, que resolveu seguir os conselhos de Maurice Blanchot e considerar não o “estar aberto” a algo, mas a força do “de fora” (dehors). Faz conexões importantes sobre o consórcio criado pela Lava-Jato, o DOJ americano, e a campanha publicitária das “anti-fake news”. Os movimento de Daniel Fried, como levantado em artigo posterior por Patricia Faermann, só podem ser compreendidos nessa quadra de neomacartismo e nova guerra fria que vivemos. Seu histórico de carreira é mais do que sintomático a respeito do assunto. Mas não é só.

Edward Snowden deixou muito evidente, porém não chega a ser surpresa para quem acompanhou o caso de Danny Casolaro no chamado Inslaw Affair (sobre esse caso também chamado de Conspiração Octopus, clique aqui para ler mais a respeito) -, o imenso sistema de mineração de dados que foi construído primeiramente com a solução “genial” da criação do Google (genial entre aspas e perverso sem aspas, como o caso de Bill Gates e a Microsoft; o caso Gates e o caso Google têm características muito similares no sentido de se roubar inovações e se criar um monopólio de mercado). Isso somente se ampliou com a criação das “redes sociais”. Fazem parte de algo mais amplo, da construção de sistemas de engenharia social iniciado no pós-guerra no Instituto Tavistock (nesse link pude falar bem mais a respeito).

Deve-se acabar com a ingenuidade de se acreditar que houve uma tentativa de criação de um espaço de comunicação alternativo que chancelaria, por uma espécie de sub-sistema baseado na oposição parlamentar bipartidário de tipo britânico, o própria “sistema liberal”, agora por meio da internet. E que hoje essa liberdade conquistada com as “redes sociais” estaria ameaça pelo uso abusivo das “fake news” por parte do oligopólios midiáticos. A atual “contra-ofensiva” do Facebook só pode ser compreendida como um passo a mais numa ofensiva generalizada, iniciada com a mineração massiva de dados que ofereceu como contrapartida uma suposta livre-expressão nas redes. No momento, busca-se de vez capturar esse espaço com a confusão criada pelo cinismo neomacartista, cujo resultado é uma proliferação nunca antes vista de notícias falsas. Todo o esforço para desmascará-las tem como objetivo multiplicá-las.