Putin Dá um Novo Choque ‘Sputnik’: “Eles agora terão de nos ouvir!”

Declaração Anual de Putin a Assembleia Federal, 01 de março de 2018 – Moscou (en.kremlin.ru)

A exclusão da Rússia dos tratados ABM (sobre a construção de mísseis anti-balísticos) em 2002, assim como a crescente presença da OTAN nas fronteiras russas (considerada uma “Crise dos mísseis” invertida”), principalmente depois do golpe de Estado na Ucrânia, fizeram com que a Rússia de Putin respondesse de maneira surpreendente às ameaças de guerra, fazendo lembrar os dias mais angustiosos da Guerra Fria.
 
Quando vemos em ação o chamado “perigo vermelho” por aqui, principalmente no campo da esquerda, que sofre seus ataques, vemos que participamos de um enredo muito mais amplo e complexo – e perigoso. Qualquer semelhança com a década de 1960 não é coincidência. 
 
Abaixo, o artigo traduzido por mim para a Executive Intelligence Review


Por Helga-Zepp-LaRouche, fundadora do Instituto Schiller Internacional

Para ler o artigo completo no formato pdf, em inglês, clique aqui.


Atualizado, com a revisão final do texto, em 9 de março de 2018.

Por Helga-Zepp-LaRouche, fundadora do Instituto Schiller Internacional

Numa atmosfera transatlântica de histeria contra a Rússia e a China que somente pode ser entendida como propaganda pré-guerra, o presidente russo, Vladimir Putin, soltou uma verdadeira bomba em seu discurso anual ao país em primeiro de março, que redefiniu a balança de poder global.

Ele anunciou que as forças russas adquiriram armas baseadas em novos princípios físicos, incluindo um novo míssil balístico intercontinental,  capaz de se mover 20 vezes mais rápido que a velocidade do som e com excelente capacidade de manobra. Assim, isso pode driblar todos os sistemas de defesa aérea e de defesa de mísseis, e torná-los obsoletos.

Esses novos sistemas, que incluem mísseis de cruzeiro com propulsão nuclear, rápidos drones submarinos e armas a laser, constituem a resposta da Rússia ao cancelamento unilateral do Tratado sobre Mísseis Antibalísticos (Tratado ABM) feito pelos EUA em 2002, e o lançamento do sistema global de defesa antimísseis por parte dos EUA. Desde então, em todas as negociações fizeram ouvidos moucos: “Eles não nos ouviram. Agora eles irão nos ouvir””, Putin enfatizou.

A resposta de estratos políticos e da mídia ocidental, foi desde tentativas de ridicularizar os novos arsenais de Putin como tecnologicamente impossíveis, um mero blefe pré-eleitoral, até preocupações a respeito de uma nova corrida armamentista; como se esta não estivesse já em progresso há muito tempo, graças à expansão oriental da OTAN.

Essas respostas refletem novamente o fato que os adeptos do dogma neoliberal só podem ver o mundo através de lentes côncavas, geopolíticas. Eles obviamente subestimam as capacidades da ciência militar russa, assim como subestimavam por anos a dinâmica da Nova Rota da Seda chinesa.

Ao contrário da opinião do jornal alemão Bild, que diz que Putin é um rato rangendo contra um leão, Putin parece mais um gato entre um ninho de ratos. Com a criação de novas variedades de armas baseadas em novos princípios físicos, fica estabelecido um nível muito diferente, por exemplo, dos cenários francamente lineares do recente relatório do think-tank estadunidense CSIS, segundo o qual a Rússia e a China supostamente estariam preparando ataques aos países bálticos ou no Mar da China Meridional. Em seus outros cenários, é debatido se a China irá atacar os EUA com mísseis de cruzeiro para forçar uma retirada por parte dos EUA do Pacífico ou aniquilar as lideranças americanas numa preparação para invasão de Taiwan.

A reação do jornal pró-partido chinês, Global Times, num artigo intitulado “EUA apavorados com sua própria imagem no espelho”, deixou bem evidente que os EUA caíram no erro apontado por um especialista do Office of Net Assessment, do Pentágono. Andrew Marshall (que, contudo, também é responsável por uma doutrina utópica de guerra aérea) alertou que um Estado não deve projetar em outros Estados suas próprias intenções. Por décadas os EUA vem buscando uma doutrina militar de guerra preventiva, enquanto a doutrina militar da China visa responder a um ataque com um contra-ataque. Igualmente, é prática comum dos americanos eliminar governos através de mudanças de regime, enquanto o Partido Comunista Chinês rejeita a ideia de assassinato de lideranças hostis ao governo desde a década de 1920. E, terceiro, é da política americana focar no desenvolvimento de seu arsenal nuclear para responder a ameaças convencionais e ataques cibernéticos, enquanto os chineses consideram imprudente ter tantas armas nucleares, preferindo ao invés ter somente o necessário para a dissuasão. Tirar conclusões de tais imagens especulares não tem relação alguma com o mundo real, e se os militares americanos seguirem esse estudo, ficarão mortos de medo com suas próprias sombras e falharão nos preparativos para um perigo real.

Um bem-informado analista conhecido sob o pseudônimo “Publius Tacitus”, que escreve para o site Sic Temper Tyrannis, do famoso analista de segurança Pat Lang, faz alusão às armadilhas das imagens especulares do mesmo tipo. Ele diz que a interferência dos EUA na Ucrânia eclipsa, de longe, qualquer coisa que se possa acusar a Rússia. Documentos da CIA publicados recentemente mostraram a cooperação estreita dos serviços de inteligência americanos com o partido pro-nazi de Stephan Bandera, OUN, desde 1946. Eles mostram uma história de colaboração, desde o trabalho com o ex-presidente Viktor Yushchenko, cuja esposa ocupava um alto cargo no Departamento de Estado americano e declarou que Bandera foi um herói nacional ucraniano, até a cooperação direta com os neo-nazistas no “Maidan II” e o golpe contra o presidente Yanukovych em fevereiro de 2014. De fato, dificilmente pode-se encontrar uma distorção maior do que a “narrativa” relacionada aos eventos na Ucrânia, que forneceu boa parte dos pretextos para se demonizar Putin e a Rússia.

A mesma falta de habilidade para reconhecer o novo paradigma – a política interna e externa do presidente chinês Xi Jinping, com sua campanha anti-corrupção, seu enfoque absoluto na inovação científica e tecnológica, e na cooperação ganha-ganha entre as nações na Iniciativa da Nova Rota da Seda – encontra sua expressão no órgão doméstico do Império Britânico, a The Economist. Sob a manchete “Como o Ocidente errou quanto a China”, a decisão do Comitê Central de estender o mandato de Xi Jinping se tornou a razão para o lamento: “Eles esperavam que a integração econômica encorajaria a China a evoluir para uma política de mercado e que, ao tornar-se mais rica, sua população iria ansiar pelas liberdades democráticas, por direitos e pelo império da lei”. Agora, parece, o ocidente julgou a China de forma completamente errada. Agora a China é mais rica do que qualquer um possa imaginar, mas ao invés de ansiar por copiar o ocidente, a China está oferecendo “a sabedoria chinesa e a abordagem chinesa para resolver os problemas que a humanidade enfrenta!”. Caramba! Londres perdeu sua aposta!

E a China reconhece que o sistema uni-partidário funciona melhor do que os conflitos partidários do ocidente, e a política chinesa é profundamente influenciada pela cultura chinesa tradicional.

O ocidente não fez seu dever-de-casa sobre a história e a cultura chinesas, e deve por fim se livrar de seus esteriótipos sobre a segunda maior economia, reconciliando sua visão com a realidade da China. No futuro, a China certamente irá surpreender o ocidente e tornar ainda mais claro que Pequim não será um discípulo de Washington.

E isso é bom! O desejo de Xi Jinping, de estender seu mandato, reflete o reconhecimento por parte das lideranças chinesas de que os próximos anos serão anos de mudança de toda a humanidade duma enorme importância. O presidente Putin disse em seu discurso: “Isso é uma mudança de rumos para o mundo todo; e aqueles que querem e estão aptos para as mudanças, aqueles que agem e avançam, tomarão a liderança”.

De fato, estamos experimentando atualmente uma mudança de era. O período de aproximadamente 600 anos desde a Renascença italiana e a emergência dos Estados-nação soberanos, nos quais as formas oligárquicas de governo e os governos comprometidos com o bem comum existiam lado a lado, está chegando ao fim. O novo paradigma, uma nova fase na evolução humana, já é visível. A mais estreita aproximação a isso é a visão de Xi Jinping de “uma comunidade de destino comum” – o conceito de que a ideia de “uma humanidade” está diante de todos as nações. O equivalente econômico dessa ideia é a Nova Rota da Seda, na qual todas as nações soberanas trabalham em conjunto baseadas na cooperação para o mútuo benefício.

O que estamos experimentando agora, com todas as acusações infundadas de “ataques de hackers russos” para “interferir nas eleições democráticas”, “hegemonia chinesa”, “ameaças ao sistema democrático ocidental e aos direitos humanos por sistemas autoritários”, etc., não é nada mais que o último suspiro de um decaído sistema oligárquico. O próximo colapso financeiro desse sistema – que aumentou a distância entre ricos e pobres, e cuja política de guerra perpétua nos trouxe tanto a crise de refugiados quanto uma epidemia de violência entre jovens e na chamada indústria do entretenimento – será pior do que a de 2008.

É tempo para as pessoas racionais refletirem. Devemos usar esse “choque Sputnik” e fazer o que Putin disse em seu discurso: “Vamos nos sentar numa mesa de negociação e trabalhar juntos para traçar um novo e relevante sistema de segurança internacional, e desenvolvimento sustentável para toda a civilização humana”.

A espécie humana é a única espécie criativa conhecida por nós. O que nos separa de todos os outros seres é a habilidade da mente humana de continuamente descobrir novos princípios qualitativos do universo físico e aplicá-los ao processo produtivo, para assim melhorar o sustento, a produtividade,  e a expectativa de vida da humanidade. Nós chegamos num ponto da história onde podemos e devemos confirmar nossa identidade como uma espécie planetária, que é capaz, coletivamente, de garantir sua sobrevivência no longo prazo.

Nota do tradutor
A exclusão da Rússia dos tratados ABM (sobre a construção de mísseis anti-balísticos) em 2002, assim como a crescente presença da OTAN nas fronteiras russas (considerada uma “Crise dos mísseis” invertida”), principalmente depois do golpe de Estado na Ucrânia, fizeram com que a Rússia de Putin respondesse de maneira surpreendente às ameaças de guerra, fazendo lembrar os dias mais angustiosos da Guerra Fria.
 
De fato, a balança de poder durante as últimas décadas da Guerra Fria se baseou na doutrina chamada MAD (Mutual Assurance Destruction – Destruição Mútua Assegurada), por meio da qual nenhuma das duas potências poderia superar a outra em termos de inovações na indústria bélica, na produção de arsenais nucleares mais poderosos. O que poderia ocorrer era um a destruição mútua, em paridade de armas. Essa foi uma lógica “louca” (“mad”), mas que permitiu a continuação do diálogo entre as duas potências nucleares mesmo nos dias mais agudos da Guerra Fria.
 
O Tratado de Mísseis Anti-Balísticos era, a princípio, um acordo conjunto entre EUA e Rússia para impossibilitar, seja partindo de qual nação for, um ataque nuclear. É um prolongamento da proposta de Lyndon LaRouche, o SDI (Strategic Defense Initiative – Iniciativa de Defesa Estratégica), chamado por muitos, em tom depreciativo, de programa Star Wars. Hoje a Rússia conseguiu chegar ao parâmetros tecnológicos previstos no SDI, contudo, sem a parceria prevista ainda durante o governo de Donal Reagan.
 
O que levou a isso foi o abandono dos EUA da promessa feita de construir em conjunto com os russos o ABM, assim como o aproveitamento por parte dos yankees do desmantelamento da economia soviética nos anos 1990, para se tornar a única potência com capacidade nuclear sem par no mundo. Foram inúmeras as tentativas do presidente Putin de manter os acordos originais, mas foram esforços em vão. Agora, a Rússia responde num tom ainda mais alto e desafiador.
 
Dificilmente, contudo, se pode dizer que uma nova corrida armamentista virá. O Ocidente, por décadas preocupado com o desenvolvimento de uma economia altamente dependente do mercado financeiro, do setor terciário, e na dilapidação de suas estruturas industriais (um dos exemplos é o abandono desde a década de 1970 dos investimentos em energia de fusão), com pouquíssimos investimentos na área de alta tecnologia e assolado por uma crise financeira sem precedentes, talvez não tenha capacidade de entrar numa nova “arms race”. A ver.
 
Derivada do antigo MAD, , a Doutrina Utópica da Otan, segundo a qual poderia-se aniquilar o inimigo em poucos minutos, sem deixá-lo com capacidade de reagir – principal meio utilizado pelo “partido da guerra” ocidental contra o oriente para continuar com as ameaças de guerra – depois das declarações de Putin, praticamente caíram por terra. A expansão econômica da China com sua iniciativa Um Cinturão, Uma Rota (da qual faz parte a Rússia e fazia os BRICS antes da série de golpes de Estado que esses países e seus aliaos sofreram) teve um desenvolvimento similar, na área militar, com o anúncio de primeiro de março de 2018. Num contexto de neomacartismo nunca antes visto, onde o próprio presidente americano é acusado de ser um agente russo na Casa Branca (o chamado “Russiangate”), a Rússia toma para si o protagonismo da história em conjunto com a China.
 

Quando vemos em ação o chamado “perigo vermelho” também por aqui, principalmente no campo da esquerda, que sofre seus ataques, vemos que participamos de um enredo muito mais amplo e complexo – e perigoso. Qualquer semelhança com a década de 1960 não é coincidência. Ainda que não possamos mais cantar com Jim Morrison, ironicamente, “The West Is The Best”. Caso uma guerra de fato não ocorra, podemos contar com a vitória do multilateralismo chinês, com as propostas dos BRICS, com altos investimentos em ciência, tecnologia e infraestrutura nos próximos anos, através da parceria ganha-ganha, como exemplificado na Nova Rota da Seda, na liderança inconteste de Xi Jinping. De fato, vivemos uma “mududança de era”, como bem enfatizou Helga Zepp-LaRouche, e existe uma forte tendência para que não vivamos mais par a par com governos oligárquicos como ocorre desde a Renascença (algo que, contudo, com o estabelecimento dos Estados nacionais soberanos e das repúblicas italianas, foi uma evolução em comparação com os séculos anteriores, inclusive em comparação com a Antiguidade, cujas formas mais desenvolvidas de organização política conviviam com a escravidão (democracia grega) ou com o expansionismo militar (império romano).

Uma última nota: a resolução da Coreia do Norte de dialogar com os EUA de maneira franca é resultado imediato dos anúncios de Vladimir Putin. Precisamos saber, principalmente nesse ocidente tão desinformado, quem são atualmente os agentes da guerra, seja militar ou econômica (via austericídio econômico em toda zona transatlântica), ou por meio das políticas de “mudança de regime”, ocorridas via braço armado (Líbia e as tentavias na Síria) ou por “revoluções coloridas”, como na Ucrânia ou no Brasil a partir de junho 2013. Sem essas “jornadas”, dificilmente amadurecia a necessária histeria coletiva capaz de fazer notória uma operação espúria como a Java-Jato.

Os perigos de 1960 ainda não estão mitigados, e talvez a situação de hoje seja mais perigosa do que a anterior. Vivemos em pleno neomacartismo mundo afora. Porém, claras alternativas nos são oferecidas para ultrapssar essa situação. Ultrapassado esses transes mais profundos, as próximas décadas podem ser da vitória das forças políticas não-alinhadas com o ocidente, dos BRICS, da Unasul, e um novo salto histórico, como a Renascença, pode ocorrer. Que este drama que vivemos no Brasil e em praticamente todo Cone Sul, com o ataque dos bárbaros à civilização que se formava aqui desde as eleições de Chávez, Lula e Néstor Kirscher, passe logo. Os próximos anos, se não meses, serão decisivos.