Se fecham as cidades é porque esqueceram o SUS

Época em que o Brasil exportava conhecimento médico e incentivava a cooperação entre nações. Inauguração de uma fábrica de retrovirais em Moçambique, 2010.

“Fecham as cidades” – é um eufemismo. Trabalhadores de todas as espécies continuam em seus afazeres diários (Correios, mercados, farmácias, comércio, etc.). O “home-office” e o isolamento serve para quantos por cento da população brasileira? Talvez para muitos dos que estão batendo panelas e com o mesmo dilema do editorial do Estadão: “Bolsonaro ou Haddad, uma escolha difícil”.

São elementos da classe-média, os mesmo que continuam odiando o PT, acreditando no pecado da carne – a corrupção – e no dogma da dívida infinita, i. e., a necessidade do equilíbrio fiscal. São piedosos como o Vaticano: sempre abençoaram coisas demais. “Todos unidos contra o coronavírus”: todos unidos, quem?

Em 2009, quando apareceu a chamada gripe suína, a atuação do governo foi a criação de barreiras sanitárias em aeroportos e em locais de grande aglomeração de pessoas, como shoppings e festas populares [aqui]. Se existisse o mínimo de preocupação dos executivos municipais, estaduais e federal, essa seria a medida primeira, antes do fechamento de vias, escolas e a proibição de reunião de pessoas.

Em 2009, no primeiro mês de pandemia, se contaram 627 casos no Brasil. Não foi por acaso que o Estado resolveu de maneira adequada o problema na ocasião.

O problema hoje, em primeiro plano, está na contratação de testes para o novo coronavírus. Testes rápidos, de menor precisão, foram autorizados pela Anvisa [aqui]. Existe uma estimativa do quanto será investido para a contratação desse recurso [aqui], fundamental para uma primeira triagem, em especial em portos, aeroportos, rodoviárias e fronteiras, além de ser fundamental encontrá-los em UPAs e postos de saúde. Contudo, não se disse ainda como se pretende utilizá-los.

O ministério da Saúde estima em 10 milhões desses testes rápidos, mas eles estão longe de ser o indicativo correto para a solução do problema [aqui]. O teste padrão, o PCR, vem sendo produzido pela Fiocruz e tem uma estimativa de chegar a 1 milhão de kits distribuídos aos estados [aqui].

Aqui, existe um problema entre o público e o privado, mas talvez isso indique apenas uma pequena parte da equação. Contratar dez vezes mais testes rápidos e colocar no montante mais de uma dezena de milhões de testes contratados é uma boa jogada de marketing do governo. Num primeiro momento, o ideal seria capacitar os laboratórios e priorizar o PCR em larga escala (o teste padrão produzido pela Friocruz) e utilizar os testes rápidos como medidas de prevenção.

Fora a desmobilização nas fronteiras, portos e aeroportos, existe o problema dos respiradores, o que levou a Coppe a uma luta ingrata pela melhoria dos aparelhos existentes e a contratação de mais unidade desse produto [aqui]. Não se fala na criação de leitos hospitalares para o atendimento aos doentes…

Uma quantidade imensa de recursos, 10 bilhões de reais, será injetado no setor médico privado, para a ampliação de suas capacidades. Isso é quase o que foi perdido pela saúde ano passado em com o “teto dos gastos”! Ou seja, os 9 bilhões que o SUS tanto precisaria foi entregue de bandeja para os planos privados.

Se os cerca de 22 milhões perdidos pelo SUS desde que a PEC da Morte foi aprovada chegassem ao sistema público (ou pelo menos metade disso, os 10 bi acima mencionados), daria para capacitar os hospitais com novos leitos e respiradores, além dos laboratórios responsáveis pelo PCR.

Até agora, contudo, estamos falando do presente e relacionando aos problemas do passado. Caso o futuro fosse pensado em termos médicos, científicos e tecnológicos, deve-se atentar que o PCR não é um teste final. Não é o “padrão ouro”, como dizem os especialistas.

Para se confirmar os testes de PCR, costuma-se utilizar a eletro-microscopia. São microscópios comuns, dos tipos usados em laboratórios escolares, porém com uma capacidade infinitamente superior de visualização de partículas minúsculas. É através das fotografias retiradas da eletro-microscopia que se confirma a existência de vírus no organismo e sua proliferação.

Acaba-se ou se diminui ao mínimo o ritmo de falsos positivos ou falsos negativos. Ainda mais: poderia-se juntar um contingente grande de pessoas infectadas (ou supostamente infectadas) e fazer um teste em escala para ver, de fato, quanto dos positivos no PCR saem como positivos na eletro-microscopia. Somente assim se pode fazer com precisão a verdadeira taxa de contaminação do vírus e saber, desse contingente de doentes, quais estão sendo afetados por ele ou por outra doença qualquer.

Todos os testes, baseados fundamentalmente no PCR, e agora nos testes rápidos são imprecisos. Para se resolver um problema de saúde, os investimentos massivos tem que ser na própria saúde. Posso estar falando algo óbvio, mas quando se vê um governador como o do Rio tentando paralisar a cidade, quanto de dinheiro se perde em medidas muitas vezes tomadas no calor do momento, sem reflexão (e sempre continuando a expor trabalhadores que seriam “heróis” na visão idílica dessa casta piedosa)?

Não é só o setor de serviços e os trabalhadores informais que perderão com a continuação da quarentena de classe-média. Estados e municípios deixarão de arrecadar e o funcionalismo, ativos e inativos, correm sérios riscos nos próximos meses. Fora a quantidade absurda de moradores de rua, de desvalidos de toda a espécie, que ninguém sabe como poderá sobreviver num estado de sítio prolongado.

Fechar as vias e comércio é muito fácil, assim como multiplicar a fábrica de testes. Muito mais dinheiro tem que ser investido no Sistema Único de Saúde como um todo, nos órgãos de pesquisa, e uma ampla rede de proteção social tem que desde já ser ativada, não importando se a quarentena durará 15, 40 ou mais dias. Tudo o que se fizer fora desse enquadramento é desperdício de recursos e saque à nação em favor de piratas nacionais ou estrangeiros.

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