Teoria do domínio da mídia

A questão da “teoria do domínio da mídia” ressignifica boa parte do que foi criticado como a “teoria do domínio do fato”. Elas simplesmente pulverizam qualquer visão superior para dar conta dos inumeráveis fatos, em boa parte conflitantes, e nivelam por baixo o que poderia ser uma visão integradora, hegemônica, em favor do Brasil.

Nesse caso, a chamada “mídia progressista” abraça a velha mídia e cantam em conjunto.

Porque o xadrez não leva ao fim do mundo

Desde quando resolvi jogar xadrez com o Luís Nassif, não foi como alguém que jogasse frente a frente com a pessoa em questão, mas através de uma espécie de fabulação. Nassif aparecia para mim como o Turco movido secretamente pelo “anão corcunda”, como ilustrado nas Teses sobre o conceito de história, de Walter Benjamin. Com essa caracterização, não quero dizer que as boas análises do veterano jornalista sejam teleológicas, muito menos que dirija as peças de seus jogos para algum objetivo indefinido e perverso. Muito pelo contrário. Quero dizer que criei esse jogo e o encarei como se jogasse com um autômato, com alguém que move as peças por debaixo do tabuleiro, escondido, enquanto eu mirava apenas suas imagem, ou seja, o boneco chamado Turco: uma imagem de Nassif num jogo que não controlo. Miro o autômato, não sei em que medida em vão… Talvez não seja um diálogo real, mas uma encenação.

Dito isso, queria continuar essa fabulação de diálogo que, mesmo ficcionalizada, aponta para uma iniciativa importante: no GGN há um espaço relevante para a troca de ideias, seja entre o seu diretor (podemos dizer assim?) e as vozes menores que se erguem, ou mesmo entre os escritores que por um motivo ou outro utilizam aquele espaço. Aconteceu pela primeira vez após uma metódica exposição do caso que levou ao cenário de “fim de mundo” onde ele esquadrinha um de seus primeiros Xadrez. Nassif se pergunta em 01/03/2017:

“Temer não resistirá. O PSDB não resistirá. O PT está fora do jogo.

O que sobrará após as delações da Odebrecht? O que a Globo, o Supremo, o mercado, o PGR terão a oferecer para evitar o caos, como contrapartida à sua responsabilidade nesse desmanche do país?”

É compreensível a preocupação diante de um cenário de terra arrasada. Repliquei então que muitos movimentos ainda deveriam ser feitos e nada indicava que o projeto econômico de Temer, ou seja, de quem detém o poder atualmente no país, todos os economistas tucanos ou seus afiliados em cargos-chave do governo (os políticos do PMDB são somente o “Turco”, como na imagem apontada acima, porém para descrever um outro quadro – simulacros). Isso continua como uma verdade a ser considerada, tendo em vista a desidratação dos golpistas que não é visível apenas na comoção ao redor de Lula e o decrescente apoio a todos os golpistas, de Moro a FHC (uso estes dois também mais como um símbolo do que para se referir concretamente a essas pessoas; elas são Legião). Em pequenas, mas imensas em suas consequências, situações, podemos ver que o desmonte do Estado ainda é uma pretensão dos golpistas, do imperialismo. A resposta simples a Nassif na época, e ela continua válida ainda hoje, é que o jogo ainda está francamente em aberto, e levamos vantagens em inúmeras áreas. Otimismo não é imaginação propriamente, e sempre através da ação, é o que devemos reter. Essa pequena fala, acho que vale todo um mundo:

O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Wagner Santana, o Wagnão, e outros diretores da entidade participaram do evento que marcou o início da instalação da Saab Aeronáutica Montagens, em São Bernardo. “É uma vitória para os trabalhadores, um dia para ser comemorado e que vai entrar para a história dos Metalúrgicos do ABC. São novos empregos em um setor extremamente estratégico, com transferência de tecnologia muito avançada, que não existe no Brasil”, afirmou Wagnão.

O fim da lógica de Guera Fria que claramente não foi mitigada pelas falácias pós-1989 somente agora tem possibilidades reais de acontecer. Estamos no contra-fluxo de uma grande ação transnacional que nos levou ao arbítrio civil-militar, à Operação Condor, ao desmantelamento do movimento dos países não-alinhados representados pela liderança (assassinada) de Indira Gandhi, ao assassinato de JFK e todas as ações que, a partir da Crise dos Mísseis, foram utilizadas para reverter o desenvolvimento independente dos países que não pertencem à cabala financista que se reúne no sistema financeiro construído dos dois lados do norte do Atlântico. É momento de otimismo, apesar dos golpes covardes da facção atlantista nos últimos anos, desferidos, em específico, na América do Sul, na movimentação que começou com a eleição de Hugo Chávez, Lula e Néstor Kirchner, para logo se reunir ao redor de Correa, Lugo, Mojica e Morales. Essa movimentação mostra não um último suspiro por vida boa no continente, mas uma força retomada, agora em reunião com a Rússia e a China, principalmente, em direção a um mundo multipolar e sem o imperialismo que se restabeleceu após se desfazerem, em sua originalidade, todos os acordos do pós-guerra liderados por Franklin Roosevelt. A Iniciativa Um Cinturão, Uma Rota, chamado de um Plano Marshall de magnitude jamais vista é uma das fronteiras principais, em plena expansão, contra o atual sistema especulativo liderados pela City de Londres e Wall Street.

Se logo acima falamos de um “pequeno” acontecimento, vamos nos referir a um outro talvez maior, o recente encontro China/Celac, que traça importantes rotas para o tipo de “cooperação ganha-ganha” chinesa no Caribe e na América Latina, voltada para investimentos em infraestrutura, ciência e tecnologia, relatado em importante reportagem da Executive Inteligence Review (clique aqui para ler). Apesar das assustadoras ameaças de guerra que despontam aqui e ali, muitos sinais que, em breve, um novo sistema econômica internacional, bem mais justo, pode ser instituído, mesmo se for considerado que a atual economia de cassino somente piorou depois de 2008 e se aproxima de um colapso generalizado. O “fim do mundo” só existe para quem não consegue ter a percepção das profundas mudanças que, hoje, experimentamos no planeta.

Para ficar mais no chão e continuar a falar sobre boas expectativas, a recente greve dos caminhoneiros e dos petroleiros deve parar de ser vista com desconfiança. Há uma diferença gigantesca entre as reivindicações genéricas dos “20 centavos” de 2013 com as que aglomeraram trabalhadores e empresários nessa greve-locaute. O movimento parece mais com o de 2003 do que com 2013, quando boa parte da burguesia nacional, do pequeno-burguês ao grande proprietário, se não votou em Lula, pelo menos não se fez campanha contra, algo característico das classes-médias do pós-junho de 2013. Se fazendeiros ajudaram os caminhoneiros ou os patrões incentivaram a paralisação, isso é simplesmente o resultado de uma política que não é lucrativa para nenhum setor social do país. Quem ganha com a administração pós-golpe da Petrobrás, no grosso, são os especuladores, em sua maioria agentes estrangeiros. Nada mais legítimo do que as manifestações do povo de um modo geral, independente da faixa de renda. E o ponto luminoso foi a entrada na briga feita pelos petroleiros, que politizaram a greve e, irremediavelmente, levaram à queda Pedro Parente. O resto é “guerra de narrativas”.

 

O autômato aludido por Walter Benjamin em seu “Sobre o conceito da História”, chamado o Turco. Na portinhola à direita se escondia seu anão corcunda.

Sobre a “Frente das Esquerdas”: por que isso deveria implicar Ciro Gomes?

Num Xadrez intitulado Xadrez da era Lula e do pós-Lula, Luis Nassif faz uma análise um pouco “torta” (na verdade, ele tem sutilezas que o fazem um excelente analista, mas que se não esconde, deixa subentendido muitas coisas…). Nela, o curioso é que em um ponto uma suposta “aliança de centro-direita” se desfaz e no outro a “frente do golpe” se consolida: com a insistência na candidatura de Lula, a tendência é o golpe novamente ganhar; caso Ciro saia como fiador dessa “frente das esquerdas”, não temos mais uma “frente do golpe”, mas uma “aliança de centro-direita” que se desfaria. Como dar dois nomes a um mesmo fenômeno? A frente do golpe (a montagem do Estado de exceção) que pode radicalizar por causa da insistência com o Lula, ou pode ficar mais aliviada com um candidato que só existe como possibilidade na imaginação de alguns intelectuais, o Ciro com ou sem o Pato da FIESP. Fica muito claro o posicionamento de quem escreve, apesar das sutilezas na análise.

(para ter noção em todos os seus detalhes do descompasso apontado por mim, sugiro que se vá ao link do Xadrez acima mencionado)

E tem um elemento perverso nisso tudo. O grande nome, ou pelo menos a alternativa mais concreta para que tudo isso ocorra, depende de algo absolutamente variável – e subjetivo. Para falar de maneira franca, se tudo depender do “temperamento” do Ciro Gomes, ferrou. Na verdade, se coloca a confiança nessa “aliança das esquerdas” num candidato duvidoso (explicito os motivos mais abaixo) e que, por sua “graça natural”, pode colocar tudo a perder! Desculpe, mas é impressionante não só a escolha do candidato, mas como é feito o cálculo de suas possibilidades.

No mais, a liderança continua sendo o Lula, seja qual for o candidato mais forte da “esquerda”. E, como tal, essa liderança é quem vai decidir sobre seu possível substituto. Vamos ver se o projeto de longo prazo do Ciro, desde que “se afastou da política” em 2006, vai dar certo. Parece que teve uma breve volta como deputado, mas ele mesmo, em uma de suas últimas sabatinas, retira seu próprio crédito nessa atuação, alegando “fatores exógenos”, conjunturais.

É certo que Luis Nassif em seu Lula, Ciro e a Frente das Esquerdas, de 04/03/2017, não apoia com o devido entusiasmo Ciro Gomes. Na verdade, ainda estava em jogo um fator que colocava a situação dessa maneira: ou sai Lula ou sai Ciro como candidato. Nassif ainda defendia um Manifesto em prol da candidatura de Lula, meses antes dele ser efetivamente preso (continuam valendo novas assinaturas). Tudo munda quando Lula é encarcerado. A “unidade” passa a existir apenas com Ciro. Boulos, como Freixo e toda essa pequena-burguesia esquerdista, libertária para não se dizer liberal, não passam do Leblon.

A estratégia do Partido dos Trabalhadores não é somente por sobrevivência política. Disso podem falar muitos dos que estão no partido por este ter se tornado uma máquina eleitoral, e sobre o mesmo assunto fala melhor ainda o PC do B que segue os ventos da ocasião – hoje com uma candidata tampão. Pior talvez sejam as veleidades de autonomia do PSB. Depois de ter conseguido um ápice de crescimento eleitoral nas eleições municipais e 2012, descarrilou e age não de forma autônoma, mas como uma autômato. Poderia agora estar concorrendo à presidência com amplo apoio de Lula, mas a pressa os condenou a uma posição talvez menos ambígua do que suja, meramente interesseira.

Marcos Coimbra, na Carta Capital, consegue dizer o que é uma luta pela política ao invés de uma luta pela sobrevivência. Em A estratégia do PT, uma das consequências mais óbvias da continuidade do apoio ao líder preso:

Que pretextos inventarão para negar o registro da candidatura? Farão a mágica de recusar um requerimento antes que seja feito? Vão fabricar uma legislação específica para ele, negando-lhe direitos acessíveis a centenas de outros? Será Lula o primeiro candidato proibido de fazer campanha, depois de devidamente registrado e antes da decisão definitiva a respeito da postulação? E se acharem que não há alternativa, irão até o adiamento ou cancelamento da eleição? 

Só há uma maneira de descobrir quão longe na ilegalidade nossas elites se dispõem a avançar: obrigando-as a ir lá. Evitando que permaneçam em sua zona de conforto, brincando de boas meninas, respeitadoras das leis. Forçando-as a revelar-se naquilo que são e expondo-as perante a sociedade e a comunidade internacional.   

O que ele não diz e que é o principal, é que lutar por Lula é lutar contra o Golpe, se inserir na narrativa que o ataca frontalmente e não de maneira episódica. E isso tem uma história. Para começar do início, cito um trecho de um texto que escrevi  em 24/06/2017, ou seja, quase um ano atrás: “A luta pelo renascimento das “diretas já” mostra a fragilidade social em que fomos jogados. Reconhecer o Congresso inteiro como corrupto não é legitimar, agora no chamado campo da esquerda, a deslegitimação da política que faz cotidianamente, por exemplo, lutadores de MMA se tornarem mais honrados do que qualquer político profissional?”. Cada vez mais se mostrava ridícula essa bandeira, tendo em vista que se supostamente não haveria possibilidades reais da volta de Dilma, a única coisa que poderia unificar a esquerda – como se diz – era uma outra bandeira, a da volta da legalidade. Ao mostrar todo seu desprezo pela democracia, a chamada classe-média esquerdista, golpista, levantou uma palavra de ordem ainda mais utópica. Todos repetiam com Guilherme Boulos: “O governo da Dilma é indefensável”. Se defendê-la antes do Golpe não era bom por causa de sua “impopularidade”, por causa dos “ajustes fiscais” (um carinho ao lado das pautas bombas do Cunha e das pautas tucanas de Temer), quanto mais depois que se retirou a indesejada. Sim, também a “esquerda” gritou tchau querida!, se juntou ao “Não vai ter Copa” (Boulos idem), foi um dos atores principais do complô cuja face mais visível foi a de Eduardo Cunha, mas que contou com ampla participação social – muitos ainda ecoando as reivindicações genéricas e reacionárias de junho de 2013, seja com camisas da CBF ou emblemas do Che Guevara.

Para fechar a série dos Xadrez aqui comentada, nada disso sequer foi considerado n’Os dilemas do PT, quase que um recuo, em segundos, do que foi dito anteriormente no tal do Xadrez da era Lula e do pós-Lula. No mais, somente a crença numa “era pós-Lula” já é algo lamentável. Como disse Fernando Brito, Ciro “não vencerá sem Lula e não governará sem o lulismo, seja o do afeto popular, seja aquele expresso no político-partidário”, o que é bem mais claro do que o Xadrez acima mencionado, de 2017, que dizia que o cenário que se configurava era ou Lula ou Ciro. Depois, ficou o cenário como Ciro e, talvez, quiçá, provavelmente e sabe-se lá sob quais condições, Lula. Deve-se ultrapassar o muro, não só o figurado (“ficar em cima do muro”), como os paradigmas do pós-1989. Não há outra solução contra a democracia de mercado que a partir daí se estabeleceu como o mais fervoroso dogma do que a radicalização para além de qualquer limite da democracia.

A história se repete como sátira

A todos os que querem agora formar uma “aliança de esquerda” (papo antigo, como esse artigo mostra), falta só criticar o próprio Lula. Criticar “o PT” ou sua “militância” é atacar pelos flancos, assim como não é lutar contra o Golpe apoiar Ciro, Manoela ou Boulos, ou defender as supostas “Diretas Já”. A posição do PT permanece como de apoio a Lula por causa da posição do próprio Lula. Quero ver atacar diretamente a “jararaca” que, por mais que não queiram, ainda está viva. Acho que tem um bom público de “classe-média” que não gostaria de um ataque frontal como esse. Desconstruir “o” cara, principalmente seu posicionamento atual, ninguém vai conseguir. Muito menos o Ciro, com ou sem o Pato amarelo.

Aí vem o blábláblá sobre o stalinismo do PT, dito por um Miguel “deixa o Lula lá lendo uns livros” do Rosário, algo bem próprio dessa nova esquerda (também muito velha), identitária e multicultural – libertária, que legitima culturalmente os argumentos econômicos da direita liberal. Mas como falar de “stalinismo” diante disso?

O pessoal vai ter de xingar também o Rui Costa, o Pimentel, o Flavio Dino, até não sobrar mais nenhum petista, socialista ou comunista em cargos do Executivo.

É importante entender que uma eleição presidencial depende vigorosamente do apoio dos governadores, por razões óbvias. São os governadores que tem acesso político a todas as microrregiões de seus estados. Suas campanhas estaduais serão atreladas à campanha para presidente.

É compreensível a posição de alguns governadores pensarem em sua sobrevivência eleitoral ao inclinarem seu apoio a uma candidatura pretensamente mais sólida. Flavio Dino se uniu ao PSDB para derrotar o PT e hoje está encurralado pela família Sarney; Pimentel não consegue por nada em votação há meses; o governador cearense, mesmo sendo do PT, lastreia seu poder nessa tradição do Ciro e seu irmão no estado, algo que é tão antigo quanto os padrinhos tucanos desses irmãos…

Quem é stalinista se estamos diante de alguém preso que grita por sua liberdade e, consequentemente, pela volta da normalidade democrática do país, e outros que se juntam a cidadãos que ocupam cargos do executivo e pretendem utilizar a máquina que dominam para apoiar um candidato que calculam ter mais chances? Todos esses argumentos pró-Ciro são muito facilmente desmontáveis, como o próprio candidato. Mais uma vez: quero ver atacarem o Lula diretamente, sem eufemismos e flanqueamentos. Dessa impossibilidade, e da facilidade com que o outro pode ser alvejado, você vê a distância que os separa, e o Brasil pequeno que pensam aqueles que querem apostar no “mais certo”.

E ai de mim endossar Merval Pereira (para se ver o nível da suposta “união das esquerdas”, sinônimo de Ciro Gomes): “Ciro Gomes seria a alternativa mais viável para a esquerda, mas Lula não quer que ele passe de um simples “quadro” partidário e se transforme em um líder”. Nesse artigo, Merval faz o papel de esquerdista honesto. É tão canhestra sua análise que não tem como outra solução além de ver Ciro Gomes como a “alternativa de esquerda”. Fora o Pato que assombra a suposta vice-presidência da unanimidade sem povo, deve-se lembrar que o candidato paulista-cearense tem uma tese singular para “atacar o sistema financeiro”. Para ele, os presidentes no Brasil – todos, veja bem – têm poderes imperiais nos primeiros seis meses de mandato. Nesse período diz ele pretender criar um grande diálogo nacional em prol de reformas. Não se sabe ao certo, entretanto, se seu ataque ao “financismo” continuará com o projeto privatização, talvez até a Casa da Moeda, como disse um dos líderes de sua campanha (não da Casa da Moeda em específico, mas nesse sentido de que tudo pode ser negociável). Ele fala muito de taxação, de juros, e que isso se resolveria nos tais dos seis meses. E depois?

Como mesmo um grande admirador de Ciro, Mino Carta, em editorial da Carta Capital, salientou, o mínimo de dignidade que se esperaria de Ciro é denunciar a tentativa de assassinar politicamente Lula. Tem ainda outras coisas que “seus botões” não digerem muito bem:

Nesta moldura cabem certas andanças do ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, disposto a se reunir com Ciro e Bresser-Pereira no escritório do professor Delfim Netto, para definir “um programa de centro-esquerda”. Trata-se de um interessante desafio à minha manquitolante imaginação. Mas, confesso, gostaria muito de saber o que o preso de Curitiba pensa disso tudo. Quanto ao amigo Ciro, em nada diminuiria sua candidatura denunciar o assassínio político de Lula, imolado no altar da casa-grande. Pelo contrário, a reforçaria na defesa do Estado Democrático de Direito, demolido pelo golpe de 2016.

Lutar com Lula é continuar a luta contra o Golpe, como o mesmo disse em carta recente:

Se eu aceitar a ideia de não ser candidato, estarei assumindo que cometi um crime. Não cometi nenhum crime.

Por isso sou candidato até que a verdade apareça e que a mídia, juízes e procuradores mostrem o crime que cometi ou parem de mentir.

O povo merece respeito. O povo tem que ter seus direitos e uma vida digna. Por isso queremos uma sociedade sem privilégios para ninguém, mas com direitos para todos.

Nesse mesmo sentido de análise da mídia que faço agora, achei curioso algumas inflexões no posicionamento de Fernando Brito. Acompanhando seu blog quase diariamente, nunca o vi, nem que seja de maneira ambígua, apoiar Ciro Gomes. Sintomática foi uma publicação sua chamada Um tempo de mediocridade, onde narra uma série de obviedades sobre o que está acontecendo nos últimos anos no país, porém cuja charge que ilustra o texto talvez diga mais do que qualquer palavra.

Com relativa coerência, Fernando Brito diz que Ciro ainda não tem tamanho para acordo com Lula. Ainda? A única possibilidade de Ciro ter algum acordo com Lula é chegar ao segundo turno com um Alckmin ou Bolsonaro. Nessas análises todas super-inteligentes não se calcula o quanto de votos Lula pode transmitir caso de fato o Golpe crie não só para o Brasil, mas para si próprio, mais uma situação vexaminosa, e retire sua candidatura. Mesmo com Lula fora, com a situação que será criada para retirá-lo, o Golpe perde. E isso é tão simples de entender que ninguém entende. Do jeito como andam as coisas, pode até ser provável uma campanha em segundo turno de Ciro e o candidato do PT, porque se o Lula sair candidato Ciro continuará catando migalhas. E ainda tem o fato de Lula poder chegar, sub judice, por causa de recursos e não por causa da benevolência de algum magistrado (imagina a vergonha de se atropelarem mais uma vez todos os prazos para não se chegar a outubro com o nome de Lula na lista de candidatos e com a chance real de ganhar em primeiro turno; talvez sequer não se imagine o inusitado que será Lula fazendo campanha mesmo preso; só isso é uma desmoralização total não de Lula, mas de seus algozes). Essa é a luta contra o golpe, essa é a luta pela democracia.

E aí vem um blogueiro muito influente e diz que “eleitor não tem cabresto” e que o PT vai correr atrás do Ciro. Por isso que a história da “união das esquerdas” que já apontava para Ciro Gomes no ano passado, quanto mais forte ela fica, também fica mais engraçada. A história aqui não se repete como farsa (até porque o movimento anterior e o atual são ambos uma farsa), mas como sátira. Não tem como não rir (grifos meus):

É possível que Ciro se fortaleça sem o PT e com o PSB socialista. [pausa para mais uma gargalhada]

E, aí, o PT seria obrigado a correr atrás do Ciro. [rir de novo]

Porque não adianta o PT ficar preso na cela de Curitiba. [e?…]

Porque, como se sabe, há muito tempo o eleitor não tem cabresto. [rir muito!]

E na hora de votar ele pode se perguntar: quem tem mais chance de garantir o meu emprego? Quem tem mais chance de garantir faculdade para os meus filhos: quem está preso ou quem está solto? [como se quem está preso não pudesse ser solto ou eleger um candidato não impedido; qualquer conclusão como essa exclui o PT da campanha eleitoral e, por isso mesmo, é ridícula, pior que uma farsa]

Nem o próprio PHA aguenta a bizarrice que ele mesmo se meteu, que terminou às gargalhadas a entrevista que fez com o “futuro ministro da Educação”. Não dá para se levar a sério esses movimentos forçados, que querem impor uma “liderança iluminada” para além de qualquer vontade popular e que foge à luta, que foge de constranger, de emparedar, de ir até o fim no único caminho que aponta para uma vitória das forças populares, com Lula ou sem Lula, mas com o PT. Ainda. Mas com udenismo temos o esvaziamento da política e toda essa ópera bufa ao redor do candidato de Merval Pereira e da FIESP, Ciro Gomes, aquele que não deve ser levado à sério de forma alguma, muito menos por seu “currículo”, que é mais uma história que só pode ser compreendida como piada.

 

E ainda tem uma outra peça mais recente que eu sugeriria a ser lida como uma piada. É propagandeada na plataforma do cidadão que mudou o “Lula Livre” ou o antigo “Lula lá” pelo “Deixa Lula lá lendo uns livros”, e tem relação direta com os interesses imediatos que levam toda essa parte da mídia “alternativa” a apoiar o vento, ou seja, a utopia cirista. Não tem como não gargalhar, mesmo que o articulista não tenha a cara e a retórica mais do que excêntrica do Mangabeira acima entrevistado. A peça se chama O espantalho de Steinbruch (link incorporado para quem quiser ler – e rir).

Uma militância sem povo

O curioso é como o udenismo é característica desses movimentos utópicos. Não se pode criticar Ciro Gomes. Isso causa rebuliço. Parte-se de um princípio onde o candidato tem uma excelente história política, um currículo invejável e que propõe fórmulas de excelência para contornar o difícil quadro sócio-econômico instaurado desde que se deu a dobradinha “vinte centavos” com a Lava-Jato. Em termos de currículo, por exemplo, o argumento de Ciro Gomes é no mínimo genérico. Roberto Requião (a quem não tenho nenhum apreço em particular) talvez tenha um currículo melhor. Aldo Rebelo igualmente. Nisso Ciro já está nivelado. E se for considerado que ele foi um dos defensores e realizadores do projeto de dolarização da moeda chamado de Real, que é a base do dogma do tripé macroeconômico, dá para se compreender os motivos pelos quais o candidato tão preparado transita com facilidade entre o tucanato e setores esquerdistas. É aquela velha história de que o FHC contribuiu com um tanto para a nossa democracia e o PT continuou a mesma história. Ciro, pertencendo de maneira camaleônica a ambos os movimentos, quer que se saia de uma suposta “dualidade” PT x PSDB. Assim, saímos da disputa partidária e programática, do entreguismo contra a defesa da soberania nacional, para dar lugar a uma personalidade “carismática” que iria arbitrar os conflitos e colocar o país para frente. Nesse posicionamento, Ciro difere muito pouco, em sua conduta, do que milita diariamente alguém como Luís Barroso.

Como se vê, esse puritanismo reúne todo um setor extremamente reacionário do quadro político nacional, que não é chamado pelo termo pejorativo de “populista” por mera conveniência, mas que é claramente personalista. Ciro é uma espécie de “self-made man”, bem ao estilo da lógica neoliberal – e isso se depreende de seus próprios discursos -, e que, na política porém se colocando numa instância suprapartidária, como num judiciário que deu certo, que resolveu fazer política (o que não tem coragem, ao contrário do que ocorreu na Itália da Mani Pulite), e que assim, desse ponto completamente impoluto, poderá arbitrar as diferentes disputas das reivindicações nacionais. Não é por outro motivo que sua base política de fato são os endinheirados Jereissati e mais algumas figuras, como o Pato pretendente a vice, que se agregaram à “carreira” brilhante de Ciro Gomes.

(sobre esse assunto, só para finalizá-lo e terminar também o início da análise que fiz do posicionamento de Fernando Brito a respeito dessa questão de Ciro Gomes, o blogueiro é alguém que respeita muito a movimentação popular e que por isso não se faz de fácil propagandista da solução cirista. A única crítica que poderia fazer é que ainda considera o tal do “currículo” do Ciro, algo que deve ser refutado, porque isso significa apenas o velho caudilhismo. No mais, Brito procura não atacar pessoas, seu blog é um dos lugares onde se encontra mais paz e adequação da estratégia política aos assuntos do momento. Aproveito isso para dizer que, se como cidadão critico – e não me faço de rogado de ser duro quando acho que tenho de ser, até porque às vezes a mera exposição de alguns fatos óbvios é considerado como um ato de violência, pessoalmente não acredito em qualquer má intenção de Ciro Gomes a respeito de Lula, por exemplo. Apesar de não fazer sua defesa – e não faz essa defesa por querer mais espaço para si – penso que não é daqueles que comemoraram com champanhe a prisão do ex-presidente. É um momento de luto e ele lidou com isso da maneira que ele achou melhor, ou seja, se lançando como “a” alternativa. No mais, é somente lamentável que ainda a gente tenha que lidar com lideranças desse porte, ainda mais com alguma consciência social e o mínimo letramento para ser um bom quadro político. Dividindo com Fernando Brito o mesmo impulso pela paz, que por si só, num universo de escândalos, pode provocar a contenda, como se todo o processo para se chegar ao bem estar social tivesse de algum modo de ter um caráter trágico, fiz a defesa não de Ciro – que já tem muitos para lhe louvar – mas de Aldo Rebelo. Não como candidato propriamente, mas como um interlocutor capacitado para discutir os temas mais importantes para o desenvolvimento do Brasil. Quem quiser ler, que leia o ensaio clicando aqui)

De um lado alguém comprometido com a maior ortodoxia financeira que já se viu na história de nosso país, a implantação do Plano Real, um verdadeiro populismo econômico que levou duas vezes FHC à presidência e o país três vezes à bancarrota. Um político também que votou a favor do parlamentarismo, e que ainda se orgulha disso, o que demonstra que por convicção é mais liberal do que qualquer outra coisa. Seu plano de governar em seis meses é uma piada. Seus interlocutores dizem besteiras a torto e a direito sem enfrentar maior espírito crítico. contrapõe-se Ciro a Lula, mas não se critica Ciro da maneira mais ampla. Não é só o suposto futuro ministro da Fazenda que diz sobre a abertura Temerosa às privatizações; seu irmão consegue chegar ao absurdo de dizer que Entre Cid e o achacador Eduardo Cunha, Dilma preferiu o achacador, como manchetou Paulo Henrique Amorim em uma de suas entrevistas com o efêmero ministro da Educação de Dilma Rousseff. Ora, toda o lenga-lenga é para dizer que Dilma, além de ser totalmente inepta para levar a cabo um bom programa de governo, cedeu às chantagens de Cunha. Isso é mentira do início ao fim, já que todo o duelo foi entre ela, Temer e Cunha. culpa-se a presidenta de ter-se isolado e que por isso perdeu o cabo de guerra. Bate-se na Geni! Mas frente a todo o udenismo da chamada esquerda, o que se vê agora é um movimento de todo parecido, de isolar as lideranças do PT, seja porque elas em determinado momento sofreram ataques acintosos, seja porque aparece agora alguém que pode, numa puro cálculo político ufanista, reverter o quadro difícil criado com a prisão de Lula. Dilma se tornou uma presidenta isolada, como hoje querem isolar Lula, não importa os bons motivos que aleguem. Quem irá pular o muro? Essa era a pergunta em 2015-16. Poucos foram capazes de tanto, como muito poucos de defender quando foi mais do que preciso, José Dirceu. Isolamento de uma ala quase majoritária dentro do Partido dos Trabalhadores e de maneira bem ampla na chamada esquerda. Não é por outro motivo que Guilherme Boulos, ecoando Luciano Huck e o camarote do Itaú, foi um dos meninos do “Não vai ter Copa”. Lava-se as mãos e, caso se vença ou se perca, depois repartimos os espólios.

Todo o resto é grana, é motivo para ocupar espaços que supostamente o PT estaria perdendo. Só faltou combinar com o povo. Eu só repito: desafio esses que apoiam o Ciro, criticando o PT e a militância, a criticar o próprio Lula, já que a posição da militância e do partido é a posição dele. Assim como de milhões de brasileiros.

Nunca existiram fatos, mas interpretações

Em um aforismo que provocou inúmeras discussões, o 374 da Gaia Ciência, Nietzsche se expressou assim:

Nosso novo “infinito” – Até onde vai o caráter perspectivístico da existência, ou será que possui outro caráter, se uma existência sem explicação, sem “razão” não se torna “desrazão”, se por outro lado, toda existência não é essencialmente explicativa eis o que, com justeza, não se pode ser decidido por análises e exames do intelecto por mais assíduos e mais minuciosamente científicos que sejam: o espírito humano, durante esta análise apenas se poderia ver por suas formas perspectivísticas e tão-somente assim. É-nos impossível mudar o ângulo de nossa observação: curiosidade sem esperança de êxito aquela de procurar saber que outras espécies de intelectos e perspectivas podem existir, por exemplo, se existem seres que podem conceber o tempo reverso, ou alternado: para o futuro e para o passado (razão para se obter uma outra dimensão vital e outra concepção de causa e efeito). Espero entretanto que atualmente estejamos pelo menos suficientemente afastados dessa ridícula falta de modéstia de querer do nosso ângulo que apenas dele se pode ter o direito de ter perspectivas. O mundo, ao contrário, tornou-se para nós um infinito pela segunda vez; enquanto não pudermos refutar a possibilidade que contém de infinitas interpretações. Ainda uma vez somos tomados por um surdo confranger – mas quem teria vontade de divinizar novamente, de imediato, à antiga, esse monstro de mundo desconhecido? Adorara talvez desde então este desconhecido objetivo, como um desconhecido subjetivo. Existem, infelizmente, muitas possibilidades de interpretação não divinas que fazem parte deste desconhecido, diabruras, estupidez, loucuras interpretativas, sem contar a nossa interpretação humana, demasiado humana que conhecemos…

Nietzsche aponta para um modelo que se estabeleceu com a Revolução Francesa, quando “o texto desapareceu sob a interpretação” (Além do bem e do mal, #38) e passou à posteridade um relato falso do que, entretanto, acabara de ocorrer. Quando Nietzsche relata que na modernidade surge uma nova perspectiva chamada perspectivismo. Não existe mais o texto, não existe mais uma existência que pode se dar a ver através da explicação. O ponto de vista do perspectivismo, nosso novo infinito, é apenas mais um ponto de vista, mas cuja tirania baseada na infinidade de interpretações, não podemos escapar. Por isso que a Revolução Francesa foi interpretada ou compreendida “por baixo”, a partir “dessa ridícula falta de modéstia de querer do nosso ângulo que apenas dele se pode ter o direito de ter perspectivas”. Direito essencialmente pequeno-burguês: “foi a Revolução Francesa que colocou definitivamente o cetro na mão do ‘homem bom’ (do carneiro, do asno, do ganso, de tudo que é incuravelmente superficial e barulhento, maduro para o asilo de loucos das ‘ideias modernas’)” (Gaia Ciência, # 350). O cetro a que alude Nietzsche é o que honra os homens religiosos desde a Igreja Romana e que teve no protestantismo a capacidade de sacralizar a revolta das pessoas “íntegras, cândidas e superficiais”. Com a Revolução Francesa, passam a existir seres que concebem o tempo de modo reverso ou alternado, na projeção do futuro ou na reinterpretação do passado. É um novo infinito, um novo modo divino de enxergar o mundo, a substituir a infinitude da existência como vista através das lentes de uma sociedade eminentemente religiosa. O “novo infinito” é igualmente uma prisão, a jaula do perspectivismo. Só que tudo isso não é um problema de quantidade, um problema decorrente da explosão de diferentes visões de mundo, algo sintomático, sem dúvida, a partir da Reforma. O homem moderno passa a se interessar por tudo, geralmente ao que é bárbaro e semi-bárbaro, mesmo quando tudo isso é considerado como espírito… Todas as miudezas são dignas de sua “nobre” curiosidade. Tem-se, portanto, um nivelamento por baixo.

Em relação à divisa “não há fatos, mas interpretações”, modo mais geral de resumir o “perspectivismo nietzschiano”, acredito que deva haver um ponto comum para interpretar o suposto desaparecimento do fato, daquele dado concreto que nenhum ser humano, sem ser acusado de louco, pode negar. Um exemplo atual são alguns debates sobre a escravidão, a história da África e do negro no Brasil. A interpretação liberal é a que afirma, sem constrangimento, que só houve escravidão nas Américas porque os escravos estavam disponíveis na África, comercializados pelos próprios africanos. Esquece-se a escala que adquiriu o tráfico de seres humanos, como também as condições de vida do escravo na modernidade, incomparavelmente inferiores caso se considere a vida de um escravo na Antiguidade, no medievo ou mesmo do escravo que permanecia na África. Passa-se ao largo que a escravidão africana nas Américas foi a primeira escravidão racial da história. Para a interpretação liberal, tudo não passou de um comércio legítimo, já que era de costume a comercialização, o trato dos viventes. Contudo, não se deveria negar que a escravidão no Brasil foi brutal; que o Rio de Janeiro se transformou no maior porto escravocrata de toda a história, maior inclusive que a Roma antiga; que as Companhias de Comércio, como as primeiras multinacionais que foram, negociaram a vida humana e organizaram as formas de organização do trabalho nas Américas, de uma maneira não muito diferente, pelo menos em seus objetivos, da forma como hoje mesmo essas grandes corporações internacionais querem organizar o trabalho mundo afora, degradá-lo, algo que faz as reivindicações liberais a respeito dos trabalhadores não se assemelhar somente ao trabalho escravo, mas a organização dos trabalhadores nas empresas que passam a viver ali com o mínimo para manter suas vidas, difere pouco da brutalidade da condição operária no século XIX europeu, algo que não está tão distante de como foi montado o aparato de trabalhadores durante o regime nazista. Os judeus e as demais “vidas indignas de serem vividas” não eram nada mais do que trabalhadores que foram recrutados pelas empresas que financiaram Hitler, e que em determinado momento eram levados à morte para que novos corpos, ainda sadios, pudessem ocupar as fileiras de produção das indústrias e fazendas.

Tudo, portanto, não passou de “mero comércio” e se alguns dizem que a escravidão no Brasil foi algo brutal, outros vão dizer que nem tanto, que através dela se formou uma espécie de “brasilidade”, e que o elemento europeu, africano e indígena se deram relativamente muito bem em nossa terra. Ora, substitui-se assim a instituição escravidão por um mero idílio, por maldades que podem ser perdoadas pelo que “trouxe de bom”. Substitui-se o tráfico negreiro (estimado atualmente em 350 mil almas no tráfico dentro da África e em mais de 11 milhões no tráfico para as Américas, números que não param de subir) ao mero comércio e se trata a escravidão com eufemismos. O que se faz, então? Nega-se a escravidão, o tráfico de escravos, todo o complexo de comércio dos viventes. Afirma-se em aparência a realidade da escravidão, porém, “de fato”, ela não existiu. O que isso tem a ver com toda a arenga nietzschiana que agora levantamos? Primeiro: se suaviza as marcas indeléveis da escravidão na história de nosso país, que é um dos motivos pelos quais ainda hoje não conseguimos formar uma classe-média grande, com uma complexa divisão social do trabalho e, consequentemente, um estado de bem estar material minimamente digno para toda a sociedade. Essa estranha ambiguidade, inclusive, é o que permite a pessoas como Míriam Leitão defenderem Joaquim Nabuco, se preocuparem pelo menos aparentemente, ou seja, de modo geral, genérico, com o problema social brasileiro, mesmo fato que faz a classe-média sempre se portar de maneira “murística” (ficar em cima do muro) quando confrontada com as questões de longo curso que afetam nossa sociedade. Podem bater panela, mas, como “homens bons”, fazem inúmeras concessões a determinadas realidades nefastas que somente num grau superior de cinismo se poderia afirmar como desenvolvimentos normais, compreensível, quiçá bons, de nossa sociedade. Esse o dilema do homem médio. Segundo: o que está em jogo nesse exemplo que dei é que, a depender da interpretação, os fatos se tornam menos que “líquidos”, evanescentes. Se tudo se baseou em mera liberdade de comércio (a desculpa das Companhias de Comércio), é um acinte, dirão alguns, ainda que isto seja um fato inegável. O problema é a escala de valores. Como se resumir? A liberdade de comércio, via Companhias de Comércio, é o que fez a escravidão adquirir uma feição ao estilo “campos de concentração” nazistas, logo, a escravidão existiu nas Américas e em sua face mais nefasta em toda a história da humanidade. O problema não são os fatos, mas a escala de valores. O sintoma da modernidade é perder-se em meio aos valores conflitantes. Como negar que houve escravidão na África e que os cativos eram vendidos aos europeus num livre jogo comercial? É uma quantidade de pontos de vista tão diversos que o “homem  bom”, o homem médio, sucumbe ao mau gosto ao fazer inúmeras concessões tanto aos que enxergam de uma maneira mais ampla o problema relatado quanto aos que enxergam de maneira restrita (o mero liberalismo). Por isso, “hoje o gosto e a virtude do tempo enfraquecem e diluem a vontade, nada é tão atual como a fraqueza da vontade” (Além do bem e do mal, # 212). É o que faz Nietzsche se perguntar: é possível hoje a grandeza frente a essa multidão de escravizados (os “homens bons”), atados eternamente a esse novo infinito, o perspectivismo?

Por um novo infinito

Para se escapar da “prisão do perspectivismo” deve-se ter uma visão de longo alcance e que considere a segurança da humanidade, depois que, com o alto grau de desenvolvimento científico e tecnológico alcançado na virada dos séculos XIX e XX, o ser humano se tornou uma força geológica, capaz de superar em décadas desafios que anteriormente poderiam durar milênios para serem solucionados; força, contudo, que igualmente pode fazer regredir a humanidade aos seus estágios mais rudimentares de desenvolvimento, se a vida na Terra ainda for possível. Um exemplo relevante da fuga dessa nova prisão apontada por Nietzsche é o posicionamento do general Douglas MacArthur quando, em 2 de setembro de 1945, assinou o tratado de paz com o Japão, até sua destituição, por Truman, do comando das tropas americanas na Guerra da Coreia. Ainda no Japão, em momentos decisivos, MacArthur deu uma coletiva de imprensa em Manila no dia do ataque atômico ao Japão, antes das notícias chegarem a ele, relatando que os japoneses não teriam mais condições de continuar a guerra, por estarem com sua produção de armas comprometida, a comunicação entre as tropas desfeitas e a marinha destruída. Seus chefes militares esperavam somente que alguma pausa pudesse salvá-los. Soube da Declaração de Potsdam (que relatava a rendição japonesa) apenas pelo rádio. Era inútil. Por sua iniciativa não haveria qualquer motivo para lançar um ataque – ainda mais atômico – sobre um país vencido.  Em 1951, ele se expressou assim perante o Congresso, após voltar da infame guerra coreana:

Alianças militares, balanças de poder, ligas das nações: tudo isso falhou, deixando como única opção a dura provação da guerra. A destruição absoluta pela guerra agora surge como alternativa. Nós tivemos nossa última chance. Se não alcançarmos agora um sistema melhor e mais equilibrado, o Armagedom estará à nossa porta. O problema é basicamente teológico e envolve um recrudescimento da espiritualidade e a melhoria do caráter humano que irá se sincronizar com os nossos quase incomparáveis avanços nas ciências, artes, e todo desenvolvimento material e cultural dos últimos dois mil anos. Deverá ser do espírito que sairá a salvação da carne.

Cinco meses antes da assinatura do tratado de paz, Franklin Roosevelt morreu. Harry Truman assumiu seu lugar e imediatamente lançou os ataques atômicos no Japão, um país que já se rendera, mas que teve de ser aniquilado antes de receber a chance de assinar um acordo de paz. Cinco meses após a assinatura do tratado por MacArthur, Truman e Churchill apareceram na cidade de Fulton, no Missouri, onde o último fez seu famoso discurso da Cortina de Ferro. Disse então que uma cortina de ferro desceu sobre o mundo, dividindo a humanidade e que “deveria ser estabelecida uma relação especial entre o Império Britânico e seu Commonwealth e os EUA”. Isso acabou por ser o que dominou a ordem mundial do pós-guerra, que consistiria numa relação militar de total reciprocidade entre britânicos e norte-americanos, e ainda se propôs a criação de uma cidadania em comum entre esses povos. Em outras palavras: Churchill propõe a reanexação dos EUA ao Império Britânico, o que nulificou a Declaração de Independência dos Estados Unidos a partir de então. Ao invés de seguir a visão de Roosevelt, de continuar a aliança entre os Aliados junto com a URSS e a China para trazer desenvolvimento econômico para todas as nações do planeta (os acordos originais de Bretton Woods), além de livrar do colonialismo todos os povos que por séculos viveram sob esse jugo. Churchill não traiu essa visão de Roosevelt; ele foi sempre seu opositor, e levou o mundo ao que ficou conhecido como Guerra Fria, inaugurada oficialmente em 1950 com a Guerra da Coreia, junto com as falácias das “guerras limitadas” dos EUA, cuja falência no Vietnam, ao invés de frear a sandice, parece que aguçou mais a tática de bombardeamentos maciços em períodos relativamente curtos, como, bem depois, ocorreu na chamada operação Tempestade no Deserto. Essa tática, extremamente desacreditada durante a Guerra Fria, é retomada por Bush pai e tornada em desculpa para a ocupação permanente a partir das guerras promovidas por seu filho no Oriente Médio.

Douglas MacArthur e a assinatura do tratado de paz com o Japão.

(sugiro o LaRouchePAC Monday Update, de 30 de abril de 2018, como uma apresentação em alto nível desse processo de recolonização do mundo por parte do Império Britânico depois da Segunda Guerra, assim como as perspectivas de paz que se anunciam com a recente aproximação das Coreias. Se ali é o marco para o início da Guerra Fria, a resolução desses conflitos que se iniciaram num período onde atualmente só 7% da humanidade continua viva, é uma das balizas mais importantes para afastar de nossa porta a sombra do Armagedom. Clique aqui para ver o vídeo mencionado, em inglês)

Nessa época, ocorreu um duplo movimento colonialista: o Império Britânico, sentado na mesa de negociações com os EUA e a URSS – Roosevelt, Churchill e Stalin – abriu mão de suas possessões ultramarinas e se inicia logo após, o processo de descolonização da África. A partir do discurso da Cortina de Ferro, dentro do território americano, inicia-se o processo de recolonização do EUA pela coroa britânica ou o consórcio anglo-americano que irá dominar a política até os dias atuais, cujo ápice foi a grande falácia da vitória da democracia depois da queda do muro de Berlim. Monta-se o Estado de Israel, menos por sentimento de piedade do que por cálculo geopolítico, e o norte da África, com os países mais avançados da região, mais ricos em petróleo, passam a viver com o “espinho na carne”, na expressão de Saulo de Tarso. O sintoma não aparece com a guerra de Yom Kippur. Foi negado pelos EUA ao Egito ajuda militar para fortalecer o regime de Nasser, que enfrentava turbulência de setores pró-ocidentais em interdependência com a Irmandade Muçulmana, que foram importantes num primeiro momento – a união das forças armadas – para a derrubada da monarquia associada ao Império Britânico, mas que depois propuseram uma abertura democrática com recrudescimento das regras religiosas, algo não tão inusual caso se compare a eventos mais recentes, ou seja, movimentos religiosos ortodoxos promovendo a ocidentalização dos países do Oriente Médio, onde a fachada democrática serve para não se instaurar nenhuma democracia, mas para, como se diz, “americanizar” países de população muito pobre e com recursos naturais riquíssimos. Esse é o paradigma que move as tropas da OTAN no pós-11/09, uma democracia com canhões, coisa dispensável depois da Crise do Petróleo – que se seguiu à guerra de Yom Kippur -, e que “modernizou” os países do Golfo Pérsico que formam, junto a Israel, o enclave atlantista no Oriente Médio.

Em paralelo a todo esse processo de retrocesso, um lado luminoso do planeta pela primeira vez se mostrava à humanidade. Revolução Cubana, o governo nacionalista de Nasse, no Egito, a gargalhada de Giap frente aos questionamentos da imprensa ocidental… De fato, em setembro de 1961, em Belgrado, Iugoslávia, é fundado o Movimento dos Não-Alinhados, países que não se identificavam com o bloco soviético e tampouco como avanço do liberalismo ao modo do século XX, chamado genericamente de “capitalismo”. Dentre os critérios para a aceitação de novos membros estavam o apoio a independência nacional a as guerras de libertação no mundo colonial, a coexistência pacífica entre os Estados nacionais soberanos e a não participação em alianças militares multilaterais, seja a OTAN, o Pacto de Varsóvia ou SEATO. Seus organizadores foram Nehru, da Índia, Nasser, o presidente Tito, da Iugoslávia, Kwame Nkrumah, de Gana e Sukarno. Cuba foi o único país americano a participar do movimento…

(sobre a formação desse bloco anti-hegemônico e suas posteriores relações com as – talvez – daus mais importantes figuras internacionais do momento, John Kennedy e Charles de Gaulle, indico o artigo de Michael O. Billington, especialista em asuntos asiáticos da Executive Intelligence Review, chamado Britain’s Cold War against FDR’s Grand Design: the East Asian theater, 1943-63clique no título para acessar o texto).

A referência a Douglas MacArthur se refere aos seguintes fatores: 1) ser um antigo aliado de FDR e defender, como ele, o fim da política de guerras promovidas pelo Ocidente na Ásia; 2) Ter sido a liderança militar responsável pela derrota do Japão aliado ao Eixo, ainda que, por acontecimentos que ultrapassaram completamente sua capacidade enquanto general, o americanos terminaram a Segundo Guerra Mundial com um massacre tão terrível quanto qualquer atrocidade cometida pelo regime hitlerista; 3) Enquanto na Coreia, MacArthur comandou o ataque surpresa conhecido como “Inchon Landing“, a invasão da cidade ultra-fortificada de Inchon, na Coreia do Norte, porém muito próxima a capital coreana, Seul, cujo acesso era dado por seus próprios generais como impossível. O país era uma ocupação japonesa. Depois da derrota na guerra, o território passou a ser disputado pelos americanos e soviéticos. Depois da inesperada vitória de MacArthur em Inchon, que permitiu que os americanos dominassem toda a Coreia do Norte, a China entrou na guerra para fortalecer os comunistas. Foi quando MacArthur começou a recuar. Ele se recusou a retaliar os chineses, ou seja, a invadir a China. Seu plano era de terminar a guerra por ali e repetir o gesto de Roosevelt, ou seja, sentar na mesa de conversações com Stalin, chamar as Nações Unidas, e entrar num acordo sobre o futuro do antigo território japonês. Truman bloqueou seus avanços para vencer definitivamente a guerra na Coreia, e planejava um ataque à China. Seu plano do general era, através da negociação, unificar a Coreia e evitar que a guerra se estendesse, como ocorreu com a contínua retaliação aos chineses por parte dos americanos. 4) Depois de afastado do teatro de guerra asiático, mesmo depois das vitórias no Japão e Coreia, MacArthur se uniu ao novo presidente, Eisenhower, que iniciou as conversas com Stalin, interrompidas por causa da morte do líder soviético em 1953.

Um desenho para a paz: Churchill, Roosevelt e Stalin em Ialta, 1945.

Nesse período, ele se expressou dessa maneira sobre a correlação de forças que acontecia por causa das disputas no “teatro de guerra asiático”, que acabaram se tornando o modo de ser daquele período, de toda a Guerra Fria, quando vence o paradigma da Cortina de Ferro, de Churchill, e morrem as duas maiores lideranças internacionais, Stalin e Roosevelt.

Creio que o povo soviético seja tão sedento de paz quanto nosso povo. Acredito que eles sofram a desilusão de que existem intenções agressivas contra eles da parte do mundo capitalista, e que eles iriam receber com alegria um enfoque criativo que pudesse desfazer essa falsa impressão. A União Soviética não é cega aos perigos que realmente confrontam na atual situação, e a Guerra da Coreia pode ser resolvida de forma equilibrada, como já relatei, e assim que isso for alcançado nós temos os meios e a vontade de trazer as questões atuais para uma resolução imediata e solucionada definitivamente.

 

(…)

Atualmente, e em nossa terra, o que representa essa visão de conjunto para a humanidade, a solução pacífica, é a candidatura do ex-presidente Lula. Como ele se expressou em seu recente Manifesto:

Tive muitas candidaturas em minha trajetória, mas esta é diferente: é o compromisso da minha vida. Quem teve o privilégio de ver o Brasil avançar em benefício dos mais pobres, depois de séculos de exclusão e abandono, não pode se omitir na hora mais difícil para a nossa gente.

Sei que minha candidatura representa a esperança, e vamos levá-la até as últimas consequências, porque temos ao nosso lado a força do povo.

Temos o direito de sonhar novamente, depois do pesadelo que nos foi imposto pelo golpe de 2016.

 

Uma conclusão provisória

Contra a fuga do perspectivismo, dos inumeráveis cálculos eleitorais, em sua maioria interesseiros, devemos apostar novamente no sonho, um novo infinito, mas sem as interpretações humanas, demasiado humanas, como apontadas pelo texto de Nietzsche: “Existem, infelizmente, muitas possibilidades de interpretação não divinas que fazem parte deste desconhecido, diabruras, estupidez, loucuras interpretativas, sem contar a nossa interpretação humana, demasiado humana que conhecemos…”. Coloquei a questão da teoria do domínio da mídia para ressignificar o que boa parte dessa mídia muito criticou, quando usado, da teoria do domínio do fato. O que elas tem em comum? Elas simplesmente pulverizam qualquer visão superior para dar conta dos inumeráveis fatos, em boa parte conflitantes, que fazem parte mesmo do éthos de nossa modernidade, fogem de narrativas que podem apontar para a solução dos conflitos mais emergenciais de nossa sociedade, a favor de abstrações que só podem ser construídas através de uma guerra semiótica sem quartéis, e assim nivelam por baixo o que poderia ser uma visão integradora, porém não unânime, em favor do Brasil.

Não é por outro motivo que Merval Pereira ecoa Luís Nassif, PHA, Miguel “deixa o Lula lá lendo uns livros” do Rosário, e tantos outros. É o mesmo udenismo que fez a “esquerda limpa” apoiar o “Não vai ter Copa”, a dizer que a Dilma era indefensável, que a partir de sabe-se lá qual pureza doutrinária pediu ao invés do Volta Dilma as Diretas Já, e que faz Ciro Gomes aglomerar apoio de partidos e políticos unicamente preocupados com a manutenção de seus cargos ou com ganhar supostos espólios do PT, misturando nisso o Pato da FIESP com a recusa da luta pela revogação da PEC da Morte, da Reforma Trabalhista, da entrega do pré-sal, em favor de um suposto grande debate nacional que irá acontecer no exíguo tempos dos primeiros seis meses do que ele acredita que pode ser o seu mandato. Interpretações humanas, demasiado humanas, ao lado de diabruras, estupidez e loucuras interpretativas. Eles tem não o domínio sobre os fatos, que sempre os ultrapassam, mas sobre a interpretação desses mesmos fatos. Foi esse o caso do Mensalão, que levou o delírio interpretativo para o centro do debate político; esse é o caso da nova mídia, em determinados pontos alinhada com a velha mídia, em esquecer completamente a história mais recente do Brasil e encontrar uma solução ex nihilo para problemas muito mais complexos. Criam expressões jocosas e não politizadas como “eleitor não tem cabresto”, dizem que o PT irá se render a Ciro (que é quase como dizer que o Himalaia irá se curvar a um monge bem intencionado, tamanha a desproporção de forças que aí se estabelece), ou se rendem a confabulações fantasiosas como “é Lula ou Ciro”, para abrir espaço para este último (lembre-se, ainda em 2017) e depois dizer “é Ciro e talvez Lula”, e logo agora, que Ciro se juntará a Lula ou vice-versa (como se Ciro pudesse servir de fiador a Lula, e vice-versa…). Ficar em cima do muro, tudo tão demasiado humano… No fundo, tudo para fugir da luta mais aguerrida, a única que pode nos tirar desse estado de indefinição, de esvaziamento do político, de desrespeito ao social e de descalabro econômico.

O esvaziamento da política: assim se unem as duas teorias, a de cunho jurídico e a midiática. De um lado, se perseguem o inimigo político; de outro, abandona-se o aliado de longa data às feras. Qual a diferença? Talvez exitam somente graus de cinismo diferentes. Como disse lá atrás, que se refute diretamente Lula, e não o ataque pela tangente a partir da defesa de uma candidatura supostamente limpa – e “nova” (faz-me rir!). Nem cínicos de verdade conseguem ser, pois se é fato consumado que só restará Ciro Gomes para a “esquerda” nas eleições, que a refutação a Lula seja acompanhada da tentativa de convencimento dele abandonar a sua candidatura em prol de sua liberdade, como já lhe foi proposto. Teríamos assim o círculo completo, o núcleo do golpe ao lado da imprensa chamada progressista. Gilmar Mendes e Merval propondo, via “esquerdas”, a solução para a pacificação do país… Mas esse outro lado do círculo jaz na obscuridade, pois sem hesitações e jogos duplos não podem os antigos aliados atacarem o direito legítimo da candidatura Lula, tanto para o que isso representa de bem na politização da luta política no país, como também de respeito às razões individuais do ex-presidente outrora tão incensado.

No mais, nada indica que o candidato do “novo” irá superar a mediocridade em relação a sua preferência pelo povo brasileiro. Se é plausível vê-lo num segundo turno caso Lula não venha a concorrer e caso ele não indique candidato, ou seja, se o PT se abster de concorrer nas eleições desse ano (outra utopia), que também teve como sinônimo a campanha para, desde já, Lula apoiar Ciro, o simples levantamento dessa hipótese, por si, já se demonstra absurda. É um dado que não poderá ser negado: haverá um candidato do PT, com Lula com chances relevantes de chegar ao primeiro turno com seu nome nas urnas. Caso vença em primeiro turno, o país inteiro entra num impasse. Será o desespero de todos os golpistas, da esquerda à direita. Caso não ocorra isso, o provável é que chegue ao segundo turno com um excelente capital político, turbinado por mais uma injustiça, ou seja, a que se daria por sua retirada da campanha para o segundo turno. Seus algozes são seus maiores marqueteiros, tendo em vista que o Partido dos Trabalhadores não tem o apoio de nenhum dos partidos que o apoiou durante os 13 anos de governo no executivo federal. Somente o PCO é o partido que defende Lula, o que deixa claro o que é traição em política, e que dificilmente perde em termos de covardia ao que Michel Temer fez a Dilma Rousseff.

Somente através das lentes da utopia (e não do sonho, atributo dos visionários) se pode ver Ciro Gomes avançar para o segundo turno, caso este ocorra. Lula ou quem se candidatar em seu lugar caso haja bloqueio da Justiça Federal tem chance incomparavelmente maior de chegar ao segundo turno ou mesmo vencer no primeiro. A eleição ideal para Ciro Gomes seria uma em que pudesse disputar com João Dória, Bolsonaro, Marina ou com o  Picolé de Chuchu derretido (porque em 2006, mesmo tendo acabado de sair do freezer, conseguiu menos votos no segundo do que no primeiro turno). Uma eleição nivelada por baixo é a única que daria algum gabarito a Ciro Gomes. Com Lula, com o PT, ele se descredencia enormemente para qualquer disputa eleitoral. Não é por outro motivo que se recusa a reconhecer Lula como preso político, como também defender bandeiras comuns como a da revogação das reformas e das privatizações de Temer (faria algo nesse sentido com seus supostos “poderes imperiais”, mas isso, como já demonstrado, é balela). Ao se querer retirar não apenas Lula, mas seu partido, das eleições desse ano, se quer exatamente nivelar por baixo as eleições e, de um modo geral, nivelar por baixo todo o debate político, para que Ciro com seu “currículo” entre como favorito. Esse cenário absolutamente não existe no mundo real. E ainda tem gente que diz que um dos fatores determinantes que podem descredenciar Ciro Gomes é seu “temperamento”! Haja paciência! Dentro da teoria estrambólica da “nova” (e muito velha) esquerda, é uma proliferação de opiniões, de interesses imediatos, de traições, que fazem seu posicionamento ser de uma mera crença (fé cega e muita faca amolada, aliás, a conduta da mídia tradicional, dos “grandes meios”), e que se concluiu que só poderão apoiar Ciro com um terço na mão. E dois terços na boca.