Madrigal em homenagem a Guimarães Rosa

Como se pode ver em discussões sobre o Ulysses, de Joyce, ou de qualquer outra desses considerados clássicos, “fundamentais”, etc., o entrelaçamento de histórias, o jogo de escalas, as diferentes temporalidades mesmo quando a narrativa se dá no presente – o uso da memória em meio ao fluxo de consciência -, às vezes não importa tanto o que se “achou” do livro. Muito menos importa aquela história mais linear, a espuma das ondas, como Braudel fala da parte factual da narrativa historiográfica, repetida nas aulas mais comuns de literatura. O que de fato aconteceu? É sempre uma pergunta. E gera as especulações mais infecundas –  e para alguns são essas as mais interessantes – como a respeito da traição ou não de Capitu, sobre a espécie de amor homossexual de Riobaldo em relação a Diadorim (ele é “redimido” ou não, esse amor, quando descobre o sexo da amada?), e por aí vamos.
Como nas loucas especulações de Joyce sobre Hamlet, o que importa não é se o poeta, Goethe, no caso de seu Willian Maister, dialoga com outro poeta (ainda que seja algo admirável); tampouco importa se foi Shakespeare quem escreveu tudo o que está na peça. Joyce, de maneira não menos obscura do que astuciosa, coloca aqui e ali referências à polêmica Madame Blavatsky, à iluminação da glândula pineal, etc., e especula se não seria o Hamlet o fantasma que assombraria Shakespeare, ou seja, este seria filho daquele. na verdade, como toda narrativa de Joyce, fica difícil precisar determinados marcos, mas a ironia está quando ele diz que o pai, o fantasma, seria o filho do herói. O fantasma criador – isso que importa -, e essa é a moral, por assim dizer, das reflexões sobre o Hamlet e sobre a criação poética de um modo geral. Temos que ver se na criação há espírito, há inspiração, e não ficar, como nas loucuras a respeito de Capitu, em diálogos intermináveis e infecundos, discutindo autoria nos autores desse período, algo contumaz, veja o problema autoral em Camões.
Portanto, como já tive oportunidade de publicar aqui um trabalho mais analítico, menos solto, poético, sobre o Grande Sertão:Veredas, ainda que lá tente fazer – ao arrepio de boa parte da crítica literária e historiográfica – o romance contar uma história que não apenas a ficcional, mostro agora meu segundo trabalho, que é aquele, imitando o capítulo das Sereias, no Ulysses do Joyce, o que importa é a questão da musicalidade. Aí se encontra a aparição fantasmática, como sempre fala Didi-Huberman, e como disse em seu modo labiríntico Joyce, e que nos diz até que ponto somos capazes ou não de ter entrado, de ter penetrado de fato, a obra inteira: reestruturando-a como música, seja construindo uma nova narrativa ou mesmo em alguns versos.

(no final, um trecho sobre o “princípio hereditário” de acordo com Joyce, em seu Ulysses)

Madrigal em homenagem a Guimarães Rosa
Quando a toada da noite surgir
O chefe vai cantar seu madrigal
A lua ponteia em Jacuí
É quando segura mais forte seu embornal
Quando aparece o Alaripe
Mano bom de mui fina moral
A lua ponteia em Jacuí
Anunciando a luta do bem contra o mal
O velho já ouviu o juriti
Pássaro voa no matagal
Já se anunciou no Serro-Curí
Chefe-velho apareceu no matagal
Quando aparece o Alaripe
Já se anunciou em todos Gerais
Chefe-velho está plantado no sertão
                                  Como buriti

É senhor do bem e do mal



Uso aqui da nova edição da Companhia das Letras, tradução de Caetano Galindo:

“A história prova que isso é verdade, inquit Eglintonus Chronolologos. As eras sucedem-se umas às outras. Mas sabemos por alta autoridade que os piores inimigos de um homem serão os da sua própria casa e da sua própria família. Eu acho que o Russell tem razão. O que é que nos importam a mulher e o pai dele? Eu diria que só poetas de família têm vidas de família.” (…)

“-Sabélio, o africano, o mais sutil heresiarca de todas as bestas do campo, sustentava que o Pai era Ele mesmo Seu próprio Filho. O buldogue de Aquino, com quem palavra alguma será impossível, refuta-o. Bem: se o pai que não tem filho não for pai pode o filho que não tem pai ser filho? Quando Rutlandconsouthamptonshakespeare ou outro poeta do mesmo nome na comédia dos erros escreveu Hamlet ele não era o pai do seu próprio filho meramente mas, não mais sendo filho, era e se sentia pai de toda a sua raça, o pai do seu próprio avô, o pai do seu neto por nascer que, por isso mesmo, jamais nasceu pois a natureza, como o senhor Magee a compreende, abomina a perfeição”.


Se “só poetas de família têm vidas de família” é porque de fato não são poetas. E se Shakespeare foi pai de seu próprio avô, porque não, ao levarmos em consideração o sentido desse princípio hereditário que implode qualquer princípio desse tipo por princípio, não podemos ser o avô de Guimarães Rosa, já que podemos virar pais de toda nossa raça. “A natureza, como o senhor Magee a compreende, abomina a perfeição”. Finis