A posição indefensável, a entrevista infame de Daniel Zamorra: “podemos criticar Foucault?”

Comecei a publicar tempos atrás uma série de pequenos textos sobre o Foucault, releituras minhas com o objetivo menos de compreender um suposto autor do que usar suas ferramentas teóricas em campos distintos (ver a tag, no blog, chamada “pós-foucaultianas” para ter a listagem de toda a série ou clique aqui). Somente assim, no meu entender, se pode criar uma nova imagem do filósofo (de qualquer um a que se tenha por objeto, ou seja, se utilizando de novas ferramentas). Admito os problemas que surgem por causa de novas abordagens, por causa também – ainda – de seu caráter fragmentário, ou seja, se pesquisa em projeto. Existe um certo apelo bem primário, quase rude, que vai sendo trabalho pelas inúmeras leituras, plea insistência na escrita, pelo aporte de novas ideias, etc. E esse blog é onde exponho esse trabalho em processo. Em contraposição à rudeza de alguns conceitos de determinados outros, na sua falta de maleabilidade, nas leituras viciadas que seguem os infinitos ditos e escritos a respeito de Foucault, quis operar uma pré-filosofia, mais do que uma não-filosofia, para não se adequar aos ditames da imagem do pensamento que se tem de Foucault. A pergunta não é se podemos criticar Foucault, mas quais pressupostos utilizamos para realizar nossa crítica. Sem as ferramentas adequados, podemos esbarrar com aberrações tais como esse do Foucault fenomenólogo e neoliberal da entrevista e do livro de Daniel Zamorra, e nas produções de seu mestre, François Ewald.


Uma das primeiras publicações de minha série “pós-foucaultiana” foi a releitura de Marcel Detienne em comparação com as leituras propriamente pós-modernas de Foucault, a que querem colocá-lo como utopista do livre-mercado. Essa abordagem infame não leva em conta que no curso em questão, O Nascimento da biopolítica, ele atrela o nascimento dessa nova modalidade de biopoder, o liberalismo como se configurou no século XX, principalmente no pós-guerra, com a fenomenologia de Husserl e com a Escola de Frankfurt. Foi com esse pano de fundo teórico que os economistas começaram a esboçar o liberalismo como publicado nos artigos da revista Ordo e, depois, o mais famoso neoliberalismo, nem tanto austríaco, mas americano. Não dá para se abordar a maneira como Foucault estudou o liberalismo ignorando suas palavras sobre a fenomenologia. Por isso, a leitura chamada por mim de “infame”, que tem início com François Ewald, um representante da geração Mao-Maio, na expressão de François Dosse, a respeito dos revolucionários maoístas de 1968 que trouxeram as importações made in USA para a França como se fossem fruto do mais engajado combate revolucionário. Bem, isso está nos posts e não dá para retomar tudo aqui.

O que se tem de levar em conta é que o Foucault da tese complementar, Gênese e estrutura na antropologia de Kant, já traçava sua diferença em relação à fenomenologia, à Husserl e, de maneira mais ampla, ao próprio Kant. No pequeno livrinho consta um programa que, de maneiras muito diferentes, Foucault seguiu por toda a vida. O homem que deve morrer, ou a imagem que se tem desse homem, a imagem formada por esse tipo de pensamento; o homem que de fato morre, é o sujeito kantiano. Ele morre por causa da colocação de uma pergunta mais fundamental: somente com o além do homem nietzschiano se pode compreender ou se pode ultrapassar as especulações sobre o que é o homem de um modo geral, mesmo questionamento do Górgias, por exemplo, mesmo tipo de colocação do problema: o que é o homem de maneira tal que ele é para nós a medida de todas as coisas? Que homem seria este a partir do qual tudo se mediria? Qual é a régua? Não existe a pergunta sobre o homem de uma maneira geral; essa é a sofística, é o trabalho da democracia ateniense, do imperialismo “democrático” de Atenas que levou à sua própria destruição com a Guerra do Peloponeso. São os delírios de Sólon e de Tucídides. Este homem em geral, medida de todos os outros, é o da pólis ateniense, é o grego autóctone, de sangue puro, não misturado aos bárbaros. O homem em geral é um homem em específico. Hoje, os do que defendem o mundo unipolar, as diretrizes de supremacia militar da OTAN, dos ditados do mercado financeiro e das democracias manipuláveis, frágeis como se mostraram diante da proliferação das “revoluções coloridas”, das primaveras árabes, do Brasil à Ucrânia.

Essa a questão colocada por Foucault ainda em sua tese complementar:

“A antropologia é este caminho secreto que, na direção das fundações de nosso saber, religa, por uma mediação não refletida, a experiência do homem e da filosofia. Os valores insidiosos da questão Was ist der Mensch? São responsáveis por este campo homogêneo, desestruturado, indefinidamente reversível, onde o homem oferece sua verdade como alma da verdade. As noções polimorfas de “sentido”, “estrutura”, de “gênese” – qualquer que seja o valor que possam ter que seria justo restituir-lhes em um pensamento rigoroso – por ora só indicam confusão do domínio onde assumem seu papel de comunicação. O fato de que circulem indiferentemente em todas as ciências humanas e na filosofia não funda um direito a pensar esta e aquelas como que em um único bloco, mas somente sinaliza a incapacidade em que nos encontramos de exercer contra esta ilusão antropológica uma verdadeira crítica.

Entretanto, recebemos o modelo desta crítica há mais de meio século. O empreendimento nietzschiano poderia ser entendido como um basta enfim dado à proliferação da interrogação sobre o homem. Com efeito, a morte de Deus não é manifestada em um gesto duplamente homicida que, pondo um termo ao absoluto, é ao mesmo tempo assassínio do próprio homem? Pois o homem, em sua finitude, não é separável do infinito do qual ao mesmo tempo é negação e arauto; é na morte do homem que se cumpre a morte de Deus. Não seria possível conceber uma crítica da finitude que fosse libertadora tanto em relação ao homem quanto em relação ao infinito e que mostrasse que a finitude não é termo, mas a curva e o nó do tempo onde o fim é começo?”

Essa antropologia, esse saber que diz a verdade sobre o homem, que se quer única, unânime, é a voz de todos os imperialismos, de todas as tiranias. Deve-se lembrar que na seção “à sombra das três críticas”, do curso de Foucault Governo de si e dos outros, na análise dos textos de revista publicados por Kant, se ressalta que a liberdade de pensamento, a “coragem” kantiana, só é factível caso se aumente o número de canhões. Só existe liberdade num mundo devidamente controlado, esquadrinhado, no qual o poder hegemônico dê os subsídios para o filósofo pensar “livremente”. Por isso, Foucault diz que Frederico da Prússia é o agente da Aufklarung. Sem considerar, portanto, todo um desenvolvimento do pensamento de Foucault, ainda mais aos problemas que surgem quando estudamos seu “pensamento tardio” (talvez não tão distante no programa de sua juventude), não se tem a capacidade de “criticar Foucault”. Somente mais uma nota: na tese complementar, Foucault é enfático ao afirmar que as Meditações Cartesianas, antes de remeterem propriamente aos fundamentos do pensamento filosófico moderno, ou seja, ao racionalismo cartesiano, é todo o pensamento kantiano que é revisitado por Husserl. É a recolocação do problema kantiano, a tentativa de sua reafirmação, de toda essa escola também de um modo geral, e que o caráter um pouco errático, fragmentário, dos trabalhos de Husserl não tenha tornado tão claro, tão evidente enquanto programa, como o é – e este talvez seja o ponto principal – na filosofia de Habermas.

Uma última nota antes de apresentar a infame entrevista do discípulo de François Ewald, dessas leituras que fazem eco à afirmação das “liberdades democráticas ocidentais” que se tornaram a voz do mundo unipolar depois da queda do muro de Berlim: o pensamento social do neoliberalismo, como em Hillary Clinton ou Obama, com seus foodstamp, com seus cartões de compra em super-mercado para os pobres, não guarda relação com o que ocorreu no Brasil, não só em escala, mas em objetivos. Para falarmos em termos bergsonianos, não é uma diferença de grau, mas de natureza. Daí a inépcia de muitas das críticas da suposta “nova esquerda” que em muito ecoam o falido sistema defendido por Anthony Giddens ou seu correlato na política profissional, Tony Blair, a questão de uma terceira via para se fugir a qualquer embate, qualquer discórdia social (logo ele que, usando os serviços de inteligência britânicos, deu o aval necessário para a OTAN entrar na Guerra do Iraque…), qualquer tentativa de se perceber que existem graves diferenças sociais, e que não se vive nesse mundo perfeito das liberdades democráticas, como contesta de maneira muito elegante e eficiente Jacques Rancière, no seu livro O desentendimento, boa parte do qual dedicado à refutação do mundo uniforme e controlador a que se dedica a filosofia de Junger Habermas. Não há crítica econômica, política, social, sem se ater aos seus pressupostos, sem questionar a gênese de seus pensamentos. Essa a tarefa de Foucault, essa já a tarefa da genealogia nietzschiana. O mundo da democracia perfeita e do controle da população, hoje, é o mundo da vigilância massiva aliada aos processos secretos e aos vazamentos intencionais (mundo afora a partir do Ato Patriota). Por fora, um pensamento “inclusivo” com cotas para se comprar comidas ou para se frequentar uma instituição de ensino. Não foi isso o que dinamizou o crescimento do nordeste (que cresceu por anos a taxas chinesas) e hoje, ainda que com a manutenção precária de muitos programas sociais, volta aos tempos de Graciliano Ramos, de Jorge Amado, de Josué de Castro. Não foi contra os “programas sociais” que se colocou Sérgio Moro, não como o agente da Aufklarung que foi, porém ainda mais, de um poder imperial ainda mais devastador, ou seja, a criação de um assassino econômico que nos faz ver nitidamente que John Perkins é um dinossauro da época da Guerra fria. É a esta diferença de abordagem que devemos nos ater para não igualarmos a caridade dos ricos com a luta pela inclusão plena dos mais pobres; para não homogeneizarmos utilizando de argumentos laterais o que foi um vida militante como a de Foucault com a construção de utopias semi-letradas e ultra-tendenciosas. Como escrito no Nascimento da biopolítica, o novo liberalismo precisava de uma nova utopia. Palavras de Hayke. E querem fazer de Foucault este novo ideólogo.

Eis a infame entrevista: http://www.jacobinmag.com/2014/12/foucault-interview/

SEGUNDA PARTE EM BREVE