Atos de guerra imperial: por uma teoria da guerra total, nuclear ou não

O Times confunde a Igreja Ortodoxa Russa com o Kremlin e diz que estão tomando posse da Casa Branca.



Guerra e mais guerra, guerra por todas as partes. Uso desproporcional de força militar, ameaças armadas em todos os lugares do mundo cujos princípios ideológicos não sejam os do império. Ameaça armada a quem defende no Brasil a democracia: sem os metrôs abertos das manifestações CBF (o antro da moralidade pública e onde o “povo” lava a alma nos estádios agora devidamente gourmetizados), com muito gás de efeito moral, spray de pimenta, cassetetes, etc. Ameaça armada, é bom lembrar, com a reativação da Quarta Frota americana quando começamos a desenvolver de fato o pré-sal. São muitas as frentes de guerra do império. Guerra econômica à Rússia através do uso de sanções (que acabaram por dinamizar muitos dos setores da economia russa), ou pior ainda, a manipulação dos preços do petróleo através da aliança dos ocidentais, nos neocons, dos atlantes, dos ultras, com seus parceiros nas monarquias do Golfo Pérsico. Guerra climática, HAARP, na prolongada seca que atingiu o Brasil nos últimos anos, responsável pelo aumento da inflação (um dogma neofascista), basicamente resultado dos preços controlados – a energia – e dos problemas com a produção de alimentos que levou à oscilação do preços destes por causa de sucessivas más colheitas.  Atos terroristas ou supostamente terroristas mundo afora, aumentando a histeria global sobre o “fundamentalismo” e seus parceiros, fundamentalmente os países do eixo asiático. Em que medida a clássica “guerra de aniquilação”, de Hitler e Stálin, se difere da guerra total, tal como a vivemos atualmente? O que seria, por outro lado, uma guerra de aniquilação sob o pano de fundo da guerra total, ou seja, uma guerra de aniquilação do século XXI? Seria essa uma hipótese válida? Como descrever hoje o termo genocídio e quais seus possíveis desdobramentos no futuro próximo?

Deleuze e Guattari com muita consciência descrevem o aparelho de guerra total, não mais da ordem da máquina de guera nômade ou de sua apropriação pelo aparelho de Estado:

La question donc moins celle de la réalisation de la guerre que de l’apropriation de la machine de guerre. C’est en même temps que l’appareil d’Etat s’approprie la machine de guerre, la subordonne à des buts “politiques”, et lui donne pour objet direct la guerre. Et c’est une même tendance historique qui entraîne les Etats à évoluer d’un triple point de vue: passer des figures d’encastement à des formes d’appropriation proprement dite, passer de la guerre limitée à la guerre dite totale, et transformer le rapport du but et de l’objet. Or les facteurs qui font de la guerre d’Etat une guerre totale sont étroitement liés au capitalisme: il s’agit de l’investissement du capital constant en matériel, industrie et economie de guerre, et de l’investissement du capital variable en population physique et morale (à la fois comme faisant la guerre, et la subissant). En effect, la guerre totale n’est pas seulement une guerre d’anéantissement, mais surgit lorsque l’anéantissement prend pour “centre” non plus seulement l’armée ennemie, ni l’Etat ennemi, mais la population tout entière et son économie. Que ce double investissement ne puisse se faire que dans les conditions préables de la guerre limitée montre le caractère irrésistible de la tendance capitaliste à développer la guerre totale. Il est donc vrai que la guerre totale reste subordonée à des buts politiques d’Etat et réalise seulemnt le maximum des conditions de l’appropriation de la maquine de guerre par l’appareil de’Etat. Mais il est vrai aussi que, lorsque l’objet de la maquine de guerre appropriée devient guerre totale, à ce niveau d’un ensemble de toutes les conditions, l’objet et le but entrent dans ce nouveaux rapports qui peuvent aller jusqu’à la contradiction. D’où l’hésitation de Clausewitz quand il montre tantôt qu’elle à effectuer l’Idée de la guerre inconditionée. En effect, le but reste essentiellement politique et determiné comme tel par l’Etat, mais l’objet même est devenue illimité. On dirait que l’appropriation s’est retournée, ou plutôt que les Etats tendent à relâcher, à reconstituer une immense machine de guerre dont ils ne sont plus que les parties, opposables ou apposées. Cette machine de guerre mondiale, qui “ressort” en quelque sorte des Estats, présent deux figures successives: d’abord celle du fascisme qui fait de la guerre un mouvement illimité qui n’a plus d’autre but lui-même; mais le fascisme n’est qu’une ébauche, et la figure post-fasciste est celle d’une machine de guerre qui prend directement la paix pour objet, comme paix de la Terreur ou de la Survie. La machine de guerre reforme un espace lise qui prétend maintenant contrôler, entourer toute la terre. La guerre totale est elle-même dépassée, vers une forme de paix plus terrificant encore. La machine de guerre a pris sur soi le but, l’ordre mondial, el les Etats ne sont plus que des objets ou des moyens appropriés à cette nouvelle machine. C’est là que la formule de Clausewitz se retourne effectivement; car, pour pouvoir dire que la politique est la continuation de le guerre avec d’autres moyens, il ne suffit pas d’inverser les mots comme si l’on pouvait les prononcer dans un sens ou dans l’autre; il faut suivre le mouvement réel à l’issue duquel les Etats, s’étant appropriés une machine de guerre, et l’ayant approprié à leurs buts, redonnent une machine de guerre qui se charge du but, s’approprie les etats et assume de plus en plus de fonctions politiques (Mille Plataux. Gallimard, 1990, p. 524 – 525).
Assim, a política é a continuação da guerra por outros meios. Guerras por procuração, primaveras árabes, manipulação dos preços dos produtos primários, sanções econômicas, criação pelas monarquias do Golfo e pelos atlanticistas, os ultras, de Estados pseudo-islamistas, terroristas, o Ato Patriota, a lei anti-terrorismo, o pacote anti-corrupção, HAARP, a “paciência estratégica” de Obama, a lei Dodd-Frank, o Q.E. dos EUA e da UE, a soberania de uma suposta “Europa” (a divisa de Emmanuel Macron) contra o necessário default da dívida, a luta contra o sistema da dívida na Grécia, etc. A máquina de guerra não é mais capturada pelo Estado; são os Estados eles mesmo que se expandem, formam eles mesmos uma imensa máquina de guerra – o império ou o Urstaat. São esses dispositivos como manifestações populares, interferência nos preços como no velho protecionismo, mecanismos legais para se frear a impunidade, para se combater o terrorismo, injeção de recursos na economia (no caso, unicamente no sistema financeiro), que é a utilização das “máquinas de guerras”, de medidas que sempre se deram foram do âmbito do Estado como o entendemos corriqueiramente, que são capturadas e usadas como os mecanismos na fabricação de uma guerra total. Não é o fascismo no sentido dos livros convencionais, porque esse é apenas um esboço da figura pós-fascista que tem como objeto a paz, aquela paz feita no Terror, na luta pela sobrevivência – o ideal da sobrevivência dos mais fortes. “A máquina de guerra reforma um espaço liso que pretende manter controlado, cercando toda a Terra [o que se configura agora como uma paz ainda mais terrível] (…) A máquina de guerra está atada ao seu objetivo, a ordem mundial, e os Estados nada mais são que os objetos e os meios apropriados a esta nova máquina” (como não lembrar aqui da União Europeia?). Como é visto no início da citação, são inúmeros os aparelhos capturados por essa máquina de guerra, a começar pela economia das nações. É o momento quando a guerra começa a fazer política, e não o inverso, como na famosa frase de Clausewitz. Essa guerra constante não pode ser uma guerra de aniquilamento, mas de controle, objetivo fundamental para cumprir a função máxima do desejo capitalista, a guerra total, o aniquilamento cujo alvo é uma população inteira e sua economia. Como se dá essa guerra de aniquilamento, como pano de fundo de uma guerra total? O que é o “grande comitê do tribunal do mundo”?

A guerra em Foucault, por outro lado, sem se opor a Deleuze, aparece de maneira totalmente imanente. Não há guerra externa, entre Estados-nação, e guerra interna, a chamada guerra civil. Tudo passa por um problema de soberania, de quem é capaz de governar os outros, e a guerra é sempre realizada contra os povos, contra um povo entendido como diferente de outro povo mesmo no caso do mesmo país. Por isso, como diz na sua conferência no IMS, no Rio de Janeiro, na Alemanha primeiro se normalizaram os médicos; na França, os fuzis. São táticas diferentes de se empreender a guerra, de se punir ou de se controlar, como no caso das “sociedades de controle” aludidas por Deleuze – pós-kafkianas, nossa contemporânea. A internet joga um papel principal nisso, com guerra de informação, fábrica de fofocas (são fofocas mesmo, as malfamadas “fake news” são menos que a “espuma da história”, no uso livre da expressão de Braudel), e que conseguiram mundo afora arregimentar pessoas, grupos numerosos, verdadeiras populações, contra um outro povo, inculto, corrupto, bárbaro, tradicionalmente analfabeto, com gosto pelo que se chama de populismo, etc. Podemos lembrar do guru indiano contratado pelos marqueteiros da campanha de José Serra nas eleições de 2010; podemos lembrar da suposta viralidade da candidata “das redes” Marina Silva. Podemos fazer verter novamente ao solo todo uma matéria orgânica com cheiro de esgoto. Mas ainda assim não chegamos ao centro do problema. Não colocamos, desse modo, a questão devida.

O que se deve observar, como disse, é a guerra entre os povos. É clássico o print que tiraram da cara de Merval Pereira quando viu que seu candidato, Aécio Neves, tinha perdido a eleição. Os tucanos já comemoravam, abriam-se champanhes na sede da Rede Globo, se tinha um Morumbi inteiro – e uma Higienópolis – enebriados com as notícias que chegavam, desconhecidas do público mais amplo, porém que revelavam a enorme quantidade de votos do candidato mineiro. Seria difícil, praticamente impossível, Dilma reverter o jogo. Ainda faltava o norte, principalmente o nordeste, e a av. Paulista ou seus fâmulos que logo mais iriam se mostrar em rede nacional com camisas da CBF e com cartazes e gritos de ordem de igual mal gosto, todos eles comemoravam ou nutriam fortes e acalentadoras esperanças. Eis que chega o nordeste para mudar novamente, e agora de maneira mais do que surpreendente, a ordem das coisas. O candidato derrotado pede a recontagem dos votos, tenta impugnar a chapa vencedora no TSE, tenta criminalizar – judicializar quando possível – todo e qualquer ato de sua adversária. Teve a primavera árabe brasileira em 2013 com todas as suas conexões internacionais, como demonstramos em nosso texto sobre Octopus. É bom lembrar que no ano anterior, em 2012, ano eleitoral, teve o relógio do Supremo acertado de acordo com o calendário eleitoral e o relógio da Globo. Trabalho praticamente perfeito dos relojoeiros de nossa elite. Trabalho infrutífero, no entanto. Nunca antes na história desse país o arco das esquerdas elegeu tantos prefeitos e vereadores. A liderança do PT foi secundada com muito brilhantismo pelo PSB de Eduardo Campos. Com a rápida capitulação deste, seu partido foi varrido por boa parte da insanidade que agora se chama poder. Sua morte foi somente o intercurso deste caminho. O filho de família abastada, de políticos ilustres, da mãe juíza de alto escalão, etc., sucumbiu à primeira marolinha do caviar da elite que chegou a seu prato sem ser de mãos familiares. Racha-se o que seria então a mais sólida aliança entre as esquerdas: o novo e vencedor PSB, o velho, tradicional e sempre virtuoso PC do B, e o líder histórico PT. Primeiro furacão, não previsto pelo guru do Serra, mas que proporcionou o “fenômeno”, a internáutica Marina. Somente podemos ver até aqui derrotas.

Em 2013 as elites internacionais em concerto cooptam a classe-média, até então cumprindo seu papel de cidadãos e cidadães bem comportadas. Golpe neonazista na Ucrânia, golpe de Estado no Egito – um fracasso completo -, confusão na Síria, na Líbia, ou seja, formação do território propício ao desenvolvimento do Estado Islâmico, rebento da guerra do Iraque, ele mesmo uma fusão de grupos que formavam Al-Qaedas e demais, todos patrocinados pelos atlantes desde a primeira Guerra Fria. Já se falou sobre isso em Octopus, ou seja, da criação dos sistemas digitais atuais, dos sistemas de rede e internet, com o software chamado PROMIS. Foi a criação em linhas gerais, em 2013, a partir das armas de engenharia social difundidas desde época do Inslaw Affair e do PROMIS, recalibradas com nomes como Google, Facebook e demais, do ambiente necessário para que tropas terroristas devidamente armadas, uniformizadas, entrassem em campo e fizessem terra arrasada da economia nacional, utilizando como arma principal o assassinato de reputações. Na histeria coletiva criada, que se estendeu até a Copa de 2014, passando pelos paneladas de 2015-6, até o impeachment quando, em plena Olimpíadas, não se panelou mais. As armas jurídicas que hoje se dão o nome de lawfare, de jurisprudência do inimigo, etc., estão todas previstas no Ato Patriota de Bush neto, depois sacramentada com força de lei pelo progressista Obama, sob os aplausos do inimigo russo na mesma medida que amigo de terroristas, atlanticistas ou do Oriente Médio, John MacCain. A prisão preventiva baseada em processos secretos – vigilância massiva -, a tortura na prisão até se chegar à confissão, tudo isso é tão antigo quanto fantasiosa é a imagem de Osama Bin Laden e seus terroristas com facas de cozinha em punho. A The Intercept documentou alguns desses processos, ainda que não tenha chegado à Guantánamo, ou seja, tratou neste caso de cidadãos americanos ou não, de pessoas comuns de qualquer origem que sofreram todos os tipos de processos e perseguições.

Obama está para MacCain assim como Joaquim Barbosa está para Sérgio Moro. Podem ter divergências de forma, porém nunca de fundamentos. Igualmente, a grande organização criminosa que se formou no país, com prisões ilegais, ameaças e torturas psicológicas, assassinatos cotidianos de reputações, do alto ao baixo escalão geralmente do setor público, fora a política de terra arrasada na economia criada pela Lava-Jato e completada pelas medidas do presidente ilegítimo no poder, tanto as com votação quanto as que favorecem, através de amplas benesses, inclusive ao poder judiciário, as votações e a “legitimidade” do governo, formaram todos um verdadeiro Estado paralelo, com seu Goebbels próprio, seus tribunais de exceção e a guerra de aniquilamento contra os mais ou menos vulneráveis socialmente, ou seja, algo que pode girar em torno de 75% a 95%, se não mais, da população do Brasil. Todas as máquinas de guerra colocadas em prática a serviço não do Estado entendido de um modo geral, mas do Urstäat, o Estado territorial bárbaro e primitivo (este último termo sem a significação antropológica do selvagem, que não é tão primata, bem pelo contrário, segundo Deleuze e Guattari no Anti-Édipo), definição algo sofisticada para o que comumente chamamos de Império. Poderíamos, para completar, falar aqui do estado das relações internacionais mundo afora – o que faremos em breve é afinal o objetivo deste texto -, mas não precisamos rodar o mundo para já aqui, e sem qualquer pressa, compreender se estamos ou não, no planeta como um todo, vivendo uma guerra total. Seu desfecho nuclear? Uma incógnita ainda. Um último ponto metodológico: a “guerra de aniquilação” é a forma clássica conduzida por Hitler ou Stálin. Um confronto termonuclear pode visar a aniquilação de um inimigo pré-determinado, mas com consequências que só a chamada doutrina utópica da OTAN não pode ver. Haveremos de inventar um nome para o horror sem nome? Até que ponto é objetivo da guerra total criar o inominável?