Foucault, Leiris e os canhões: sobre o fazer literário atual

Michel Leiris por Francis Bacon, 1973.

Como escrever hoje? Somos “pequenos Hans”, Chéri-Bibi em busca de uma “boa identificação”? Eis alguém como eu! Eis alguém como eu! Em meio às redes sociais, a crítica que Foucault faz da Aufklärung kantiana, e A regra do jogo, da escrita de si, de Michel Leiris, podem nos fornecer importantes subsídios.

Determinados pesquisadores relutam em associar a produção tardia de Foucault com seus primeiros escritos. Deve-se notar que logo em sua tese complementar faz uma crítica forte a Kant, através de Husserl (segundo ele em as suas Meditações Cartesianas eram mais uma reflexão sobre o kantismo do que sobre Descartes), ou seja, retomam a chamada “confusão do duplo empírico-transcendental”, recorrente no filósofo de Königsberg, confusão esta que é tema central de A palavra e as coisas, assim como da forte crítica à fenomenologia de Husserl que serviu como embasamento para o Colóquio Walter Lippman, para os debates na Sociedade Mont Pèlerin, fundadores do liberalismo no século XX, primeiro em sua versão austríaca, e em seguida na versão americana, com Friedman.

O fato é que em seu penúltimo ano de vida, no curso ministrado no Collège de France em 1983, Foucault retoma a mesma crítica a Kant a partir da qual, de maneira bem direta, objetiva, afirma que para Kant, Frederico II da Prússia é o agente da Aufklärung. Talvez incomodado com afirmativa tão enfática que poria em cheque sua suposta liberdade de expressão, no texto seguinte a Ideia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita, ou seja, em seu famoso O que é o Iluminismo, o entusiasmo revolucionário (pensa-se na França), vai substituir o rei da Prússia e seus canhões como agente das Luzes.

Para qualquer leitor de Foucault, ou pelo menos do Vigiar e punir, sabe-se que o Panóptico substituiu o poder de vida e de morte dos reis; que na França primeiramente se normatizaram os canhões, ao contrário da Alemanha, que normalizou seus médicos. A sociedade punitiva é a sociedade policialesca, e Kant, operando a mesma “confusão” ao acreditar o domínio privado o lugar do exercício do trabalho diário e a escrita como domínio público, só poderia conceber uma sociedade onde as ideias pudessem ser livremente expressas casos os canhões do rei Frederico assim permitissem.

Michel de Leiris, amigo muito próximo de Georges Bataille, a quem Foucault dedicou boa parte de sua atenção intelectual, se dedicou a vida inteira para tentar compreender a “lógica do jogo” entre a escrita ficcional e suas relações com a vida pessoal de cada autor. Talvez por isso, suas reflexões teóricas estão repletas de narrativas a respeito de fatos vividos por ele mesmo. Leiris seria um “autobiografista” e que refletiu o tempo todo sobre como escrever uma vida. Ao dar mais ênfase à escrita de si mesmo, mas que deveria ser uma arte, um jogo, e que deveria se fazer o máximo esforço para se compreender as regras desse jogo, por contrafação, deu importante contribuição para as reflexões a respeitos do fazer literário, ficcional, onde a vivência pessoal, apesar de exposta talvez mais chocante do que no relato autobiográfico (pensa-se em Bataille), relato este sempre mediado pelo autor que quer mas não quer se expor, ou quer se expor com certa arte, ou seja, sem se expor tanto e ao mesmo tempo dar significado a algo que poderiam ser meras confissões, coisas do ‘pequeno eu”, como reverbera hoje na internet, e que não interessam a ninguém.

 

Como, portanto, escrever hoje? Numa situação que é mais fácil de se conseguir público, mas cujas ferramentas ao mesmo tempo te expõe, não temos uma editora ou um meio de massa para nos dar “costas quentes”. É muito fácil falar besteira sobre besteira na folha de São Paulo, por exemplo. Fazem sucesso blogs ou vlogs onde uma pessoa simplesmente narra sua pequena vida cotidiana. A ausência de escândalo, de normalidade, dessas manifestações, expõe mesmo como são pequenas essas vidas – “pequeno Hans”, Chéri-Bibi -, ou seja, a “boa identificação”: Eis aí mais um igual a mim…

 

 

O Pnóptico agora tem histórias.

Vamos ao meu caso, portanto.

Existe uma coisa curiosa de publicar por aqui, que é o fato de ter leitores e ao mesmo tempo não saber como isso acontece, como se dá esse processo de leituras no meio dos likes e etcs. Há alguns com quem discuto mais demoradamente, não necessariamente aqui, apesar de ter alguns que sempre aparecem, mostram que pelo menos estão vendo o que publico, o que me deixa bem feliz. São poucos e essa espécie de carinho é bem legal. Quero dizer que o “como” se é lido nessas plataformas é algo bem esquisito, um fenômeno a ser estudado. São saltos de visualizações no blog a depender da postagem, comentários dispersos nos grupos que às vezes se prolongam para “inboxs”, troca de e-mails ou acaloradas – e por vezes mesmo prolongadas – discussões nesses mesmos grupos.

O processo curioso se resume assim: você sabe que é lido, mas não sabe em absoluto a repercussão que seus textos provocam além de algumas parcerias que se desenvolvem aqui e ali ou em comentários dispersos que podem se desenvolver ou não em diálogos. De um lado, os poucos que às vezes querem discutir até mesmo frases que você coloca, vamos dizer assim, “na maior das inocências”; noutras um diálogo entusiasmado; ou ainda as críticas (não importa se boas ou más, é muito importante ser criticado, ser atacado até – essa é a parte insuperável, emocionante mesmo). De outro lado, a multidão dos expectadores passivos que usam somente as ferramentas de interação das plataformas, sem maiores intervenções.

É como um amigo meu, bem antigo até, que surgiu um like dele aqui no blog, do nada. Achei curioso e nada mais. Em outro dia quando o encontro, 40 minutos ou sei lá quanto tempo falando sobre o assunto do texto que ele tinha lido linha a linha. Eu nem sabia que ele lia!, com todo respeito (como se diz). Para mim a última ocupação dele com leituras mais cuidadosas tinha sido na faculdade, ou seja, por puro dever de ofício. O resto são leituras técnicas para a realização do trabalho profissional. E acabou por me surpreender seus bons pontos de vista sobre o texto com o qual se ocupou.

Acho que esse processo de criação, de crescimento, pede uma certa coerência que, claro, não fica evidente pela própria proposta do blog/comunidade. Talvez tudo isso tenha um tanto de disparate. Comprova esse fato eu estar, bem sutilmente – acredito – expondo alguns pontos de vista pessoais (quando não costumo fazer isso) no simples intuito de não me sentir refém das postagens constantes e que às vezes não sei como fazer chegar da melhor maneira ao público. Publicar é sempre se expor. E não estamos tratando aqui de entretenimento, ainda que nunca queira ser austero. Acho que esse não é o objetivo da busca por saber.

Leitores, uma esfinge! Talvez menos: oráculos para se adivinhar determinados sinais. Seres estranhos! Por que tão mudos? Acaso as ferramentas de interação social produzem o silêncio? Agora prefiro me calar. Nunca as agruras do “pequeno Hans”. Chéri-Bibi não passa dessa porta, pois, ao contrário do escravo do Teeteto, nem mesmo sabe geometria.

 

 

A parte confessional desse relato: o autor depois de uma série de postagens, principalmente se ela fizeram seu relativo sucesso. Esbórnia ou O Esgotado, por Samuel Beckett. “Qual o lucro obtido?”, perguntaria de maneira cínica Rogério Skylab.

PS: Com o mínimo da intervenção ativa, poderia-se triplicar ao menos o conteúdo dessas reflexões. É muito melhor agir quando provocado. Esse é o significado de kairós.

A seguir, palavras atuais do Anti-Édipo sobre o “subjetivismo contemporâneo”:

A terra está morta, o deserto cresce: o velho pai está morto, o pai territorial, e também o filho, o Édipo déspota. Estamos sós com nossa má consciência e com nosso tédio, com nossa vida em que nada acontece; nada mais do que imagens a girar na representação subjetiva infinita. Porém, reencontramos a força de acreditar nessas imagens, força que nos vem do fundo de uma estrutura que regula nossas relações com elas e nossas identificações como tantos outros efeitos de um significante simbólico. A “boa identificação”. Somos todos Chéri-Bibi no teatro, gritando diante de Édipo: eis um tipo como eu, eis um tipo como eu! Tudo é retomado, o mito da terra, a tragédia do déspota, como sombras projetadas num teatro. As grandes territorialidades desmoronam-se, mas a estrutura procede a todas as reterritorializações subjetivas e privadas. Que operação mais perversa é a psicanálise: culmina-se nela esse neoidealismo, esse culto restaurado da castração, essa ideologia da falta que é a representação antropomórfica do sexo!