Lumpens e poetas: a negação da vida artista em Karl Marx

Giorgio Agamben diz que “no curso do tempo, o proletariado tenha acabado por ser identificado com uma determinada classe social – a classe operária, que reivindicava para si prerrogativas e direitos – é, a partir desse ponto de vista, a pior incompreensão que se pode ter do pensamento marxiano” (“O tempo que resta”). Tal posição se casa com as diatribes de Walter Benjamin contra Marx em seus escritos sobre Baudelaire. Ao associar o lumpen aos vagabundos, chantagistas, alcoviteiros e demais nomes depreciativos, Marx coloca fora de classe todo um conjunto de pessoas, geralmente os “rebeldes” a quem ele irá se voltar contra, na polêmica com Stirner, na “Ideologia alemã”. O pensamento marxista, assim, acaba por sub-julgar toda a massa dos sem classe, ao contrário da filosofia mais recente (com Benjamin, Pasolini, Foucault, Agamben) que irá encontrar na rebeldia menos a “revolução” do que a possibilidade de se encontrar novas formas de vida em íntima associação com a vida artista. A visão pejorativa em relação aos sem classe fica ainda mais complicada se colocada à luz da situação social brasileira, onde muitas vezes é difícil se falar em “luta de classes” pelo simples fato da luta do povo, no mínimo, é por tentar se classificar (ter carteira de trabalho, se formar, ter casa própria, etc.), como aponta o historiador e antigo quadro do Iseb, Joel Rufino dos Santos.

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A estrutura do tempo messiânico em “O tempo que resta”, de Giorgio Agamben (4ª Jornada)

Na 4ª jornada de seu livro, Agamben se aproxima do núcleo temático que visa explorar, o da estrutura messiânica do tempo. Como defini-la por ela escapar ao tempo cronológico e ao mesmo tempo não pertencer a um tempo excepcional, um “kairós” geralmente visto como fora do tempo, ou seja, de natureza metafísica? O filósofo expõe a estrutura de um tempo imanente, sempre “ao lado” (parousia), pensável mas não representável. Como transmitir a experiência de um tempo que foge a toda regra tradicional de composição? Definir esse tempo e mostrar seu ritmo (sua rima?) o faz se aprofundar em elaborações anteriores, como em “Infância e história”, quando se perguntou como, na modernidade, os poetas atuavam para exprimir o inexperenciável. Nessa Jornada é também quando ele mais se aproxima das reflexões de Gilles Deleuze e sua noção de cristais do tempo, da atuação do visionário ao invés do que vê o profeta ou do “eschaton” dos apocalípticos. Entre Deleuze e Benjamin, tecendo toda uma série de críticas a cultura, Agamben não teme as dificuldades e aporias de seu tema escolhido e leva seu leitor a regiões de belezas extremamente exigentes.

YOUTUBE: https://youtu.be/1WUQ4Wpcc70

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O tempo que resta, de Giorgio Agamben: um estudo (3ª Jornada)

Na terceira jornada de “O tempo que resta”, Giorgio Agamben se vê entre as aporias do pensamento paulino, da estrutura do pensamento messiânico, onde se opera uma divisão no que já está dividido (a lei) para se afastar da noção de universalismo (“católico”) e se aproximar da noção de “resto”. Da mesma forma há uma separação do que já está separado: o resto, o que se subtrai à própria noção de povo, provoca uma dessimetria entre as repartições sociais que conduzem à stásis (insurgência ou guerra civil), à luta revolucionária. Com a separação messiânica se instaura o cisma e através dela se aproxima dos princípios ou indícios de uma salvação ou subversão da ordem.

Pensamento cheio de paradoxos, de difícil leitura, é com a abordagem cuidadosa de cada “jornada” que vou procurando pouco a pouco compreender em detalhe esse trabalho de beleza extremamente exigente.

YOUTUBE: https://youtu.be/KRXmsMy2MVU

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Agamben e Adorno: sobre o anti-messianismo e o impotencial do autor de Minima Moralia

Em “O tempo que resta”, Giorgio Agamben contrapõe a filosofia do “como se” a filosofia do “como não” de Paulo. Enquanto uma guarda traços de ressentimento e de negatividade da realização tanto na linguagem como na própria filosofia, Agamben vê no potencial messiânico, mais do que a capacidade de se lembrar nomes esquecidos pela história, a de realizar novas formas de vida num campo onde se torna indiscernível a ética e a estética. Para ele, “apesar das aparências, a dialética negativa é um pensamento absolutamente não messiânico”. Isso acarreta tanto a descrença no poder da língua e da linguagem (a poesia e a literatura sendo um dentre muitos casos), como trata o fenômeno estético como algo suplementar, quase supérfluo, da vida. É contra a filosofia escrita no impotencial que o filósofo italiano volta sua crítica.

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O tempo que resta, de Giorgio Agamben: 2ª Jornada

Na 2ª Jornada do livro “O tempo que resta”, Giorgio Agamben faz um diálogo direto com dois autores sobre o sentido da palavra “klésis”. Max Weber, por um lado, mesmo com dificuldades, não consegue explicar a mutação do termo “vocação” ou “chamado” para Beruf ou a profissão mundana, o que traz amplas implicações para a sociologia weberiana e para a interpretação da Carta paulina. Adorno, por outro lado, trabalha uma filosofia do impotencial, onde não tem lugar a realização, o gozo e a dádiva próprias à concepção messiânica do tempo e seu chamado. Nada mais distante, assim, as duas filosofias: a de Adorno e a de Walter Benjamin. Através de uma série de mediações muitos sofisticadas, Giorgio Agamben traça a exigência filosófica do tempo de agora a partir da noção de “klésis”. Esse é o objeto de estudo dessa segunda jornada do livro “O tempo que resta: um comentário à Carta aos Romanos”.  

YouTube: https://youtu.be/PAdSpUcGoes  

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O tempo que resta: um comentário a Carta aos Romanos, de Giorgio Agamben (1ª Jornada)

Em “O tempo que resta: um comentário à Carta aos Romanos”, Giorgio Agamben se ocupa da estrutura do tempo messiânico. Para isso, se ocupa do incipit, da frase inicial da carta de Paulo aos romanos, como forma de recapitulação da tarefa do antigo filósofo (nem apóstolo, nem santo), que esteve bem distante da alcunha de “inventor do cristianismo”. Sua ocupação é com o Messias; se exprime através de uma língua ou literatura menor (Deleuze e Guattari) e prefigura um autor contemporâneo a nós, Walter Benjamin. O trabalho a seguir dá conta da primeira jornada do livro numa leitura pormenorizada que irá seguir a obra até o seu final.
 
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Onde o mundo experimenta racionalidade?

“A verdade parece ser uma criatura bonachona que ama suas comodidades, que dá, sem cessar, a todos os poderes estabelecidos a certeza de que jamais causará o menor embaraço a alguém, pois ela, definitivamente, é apenas a ciência pura“. NIETSZCHE, Shopenhauer educador, § 3.

A invenção de uma esquerda anti-pandêmica?

René Descartes, na incrível simplicidade de seus escritos, fazia uma apelo à razão natural dos seres humanos. Fugiu das carregadas terminologias aristotélico-escolásticas (“ente”, “substância”, “enteléquia”, etc.) e, através da língua comum (no caso, o francês) buscou criar um método objetivo o suficiente para dar conta de todo o saber possível. Lembro de uma passagem do filme de Rossellini, Blaise Pascal, onde este filósofo (morto jovem) pergunta ao ilustre sábio Cartesio por que sonhar em resolver tudo com um método único e que se pretende infalível. Se a realidade é complexa, muitos métodos diferentes têm que ser conjugados para ajudar na solução de um problema. O caso de Descartes, contudo, não era criar um novo método, mas tornar filosófico o senso comum.

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Novas reflexões, por Giorgio Agamben

Do site da editora italiana Quodlibet

Giorgio Agamben, 22 de abril de 2020

De uma entrevista publicada hoje em um jornal italiano


Estamos vivendo, com essa prisão forçada, um novo totalitarismo?

De muitos lados, está sendo formulada a hipótese de que, na realidade, estamos vivendo o fim de um mundo, o das democracias burguesas, fundadas em direitos, parlamentos e na divisão de poderes, que está dando lugar a um novo despotismo, que, no que diz respeito à difusão de controles e à cessação de toda atividade política, será pior que os totalitarismos que conhecemos até agora. Os cientistas políticos americanos chamam de Security State, que é “por razões de segurança” (neste caso de “saúde pública”, termo que sugere os notórios “comitês de saúde pública” durante o Terror), qualquer limite pode ser imposto às liberdades individuais. Além disso, na Itália, estamos acostumados à legislação por decretos emergenciais pelo poder executivo, que dessa maneira substitui o poder legislativo e efetivamente abole o princípio da divisão de poderes em que a democracia se baseia. E o controle que é exercido através de câmeras de vídeo e agora, como foi proposto, através de telefones celulares, excede em muito qualquer forma de controle exercida sob regimes totalitários como o fascismo ou o nazismo.

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