Onde o mundo experimenta racionalidade?

“A verdade parece ser uma criatura bonachona que ama suas comodidades, que dá, sem cessar, a todos os poderes estabelecidos a certeza de que jamais causará o menor embaraço a alguém, pois ela, definitivamente, é apenas a ciência pura“. NIETSZCHE, Shopenhauer educador, § 3.

A invenção de uma esquerda anti-pandêmica?

René Descartes, na incrível simplicidade de seus escritos, fazia uma apelo à razão natural dos seres humanos. Fugiu das carregadas terminologias aristotélico-escolásticas (“ente”, “substância”, “enteléquia”, etc.) e, através da língua comum (no caso, o francês) buscou criar um método objetivo o suficiente para dar conta de todo o saber possível. Lembro de uma passagem do filme de Rossellini, Blaise Pascal, onde este filósofo (morto jovem) pergunta ao ilustre sábio Cartesio por que sonhar em resolver tudo com um método único e que se pretende infalível. Se a realidade é complexa, muitos métodos diferentes têm que ser conjugados para ajudar na solução de um problema. O caso de Descartes, contudo, não era criar um novo método, mas tornar filosófico o senso comum.

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Novas reflexões, por Giorgio Agamben

Do site da editora italiana Quodlibet

Giorgio Agamben, 22 de abril de 2020

De uma entrevista publicada hoje em um jornal italiano


Estamos vivendo, com essa prisão forçada, um novo totalitarismo?

De muitos lados, está sendo formulada a hipótese de que, na realidade, estamos vivendo o fim de um mundo, o das democracias burguesas, fundadas em direitos, parlamentos e na divisão de poderes, que está dando lugar a um novo despotismo, que, no que diz respeito à difusão de controles e à cessação de toda atividade política, será pior que os totalitarismos que conhecemos até agora. Os cientistas políticos americanos chamam de Security State, que é “por razões de segurança” (neste caso de “saúde pública”, termo que sugere os notórios “comitês de saúde pública” durante o Terror), qualquer limite pode ser imposto às liberdades individuais. Além disso, na Itália, estamos acostumados à legislação por decretos emergenciais pelo poder executivo, que dessa maneira substitui o poder legislativo e efetivamente abole o princípio da divisão de poderes em que a democracia se baseia. E o controle que é exercido através de câmeras de vídeo e agora, como foi proposto, através de telefones celulares, excede em muito qualquer forma de controle exercida sob regimes totalitários como o fascismo ou o nazismo.

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