Lumpens e poetas: a negação da vida artista em Karl Marx

Giorgio Agamben diz que “no curso do tempo, o proletariado tenha acabado por ser identificado com uma determinada classe social – a classe operária, que reivindicava para si prerrogativas e direitos – é, a partir desse ponto de vista, a pior incompreensão que se pode ter do pensamento marxiano” (“O tempo que resta”). Tal posição se casa com as diatribes de Walter Benjamin contra Marx em seus escritos sobre Baudelaire. Ao associar o lumpen aos vagabundos, chantagistas, alcoviteiros e demais nomes depreciativos, Marx coloca fora de classe todo um conjunto de pessoas, geralmente os “rebeldes” a quem ele irá se voltar contra, na polêmica com Stirner, na “Ideologia alemã”. O pensamento marxista, assim, acaba por sub-julgar toda a massa dos sem classe, ao contrário da filosofia mais recente (com Benjamin, Pasolini, Foucault, Agamben) que irá encontrar na rebeldia menos a “revolução” do que a possibilidade de se encontrar novas formas de vida em íntima associação com a vida artista. A visão pejorativa em relação aos sem classe fica ainda mais complicada se colocada à luz da situação social brasileira, onde muitas vezes é difícil se falar em “luta de classes” pelo simples fato da luta do povo, no mínimo, é por tentar se classificar (ter carteira de trabalho, se formar, ter casa própria, etc.), como aponta o historiador e antigo quadro do Iseb, Joel Rufino dos Santos.

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Foucault e Platão, literatura e história

Olhar Foucault a partir da perspectiva de seus últimos cursos vai além da descoberta de termos e/ou conceitos novos como o de “parresía” e “verdade cínica”. Se existe uma reintrodução de temas literários, supostamente abandonados depois de sua chamada “fase arqueológica”, a maturidade do filósofo aponta também para algo além dessa simples evidência: o diálogo em aberto entre Foucault e a historiografia realizada na época na França (em especial os helenistas da 3ª geração dos Annales) e o cruzamento do que ele chama de “érgon filosófico” com a prova de verdade da escrita entre os gregos. Somente utilizando a literatura e a análise dos mitos (e a história da escrita mitológica) se pode abordar com plenitude os pontos de indiscernibilidade entre vida e obra que fazem alguém (no caso da Grécia em particular, num período de decadência das liberdades democráticas) ser capaz de dizer o verdadeiro. Para além de qualquer análise retrospectiva a respeito do que “Foucault de fato falou”, o que busco são subsídios para um momento além Foucault (pós-foucaultiano) onde, a partir de indícios deixados por sua ampla trajetória intelectual, se pode chegar a lugares que só depois da fase de maturação da obra de um grande pensador pode nos fazer chegar.

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Weber, Foucault, Braudel: ordem protestante e neoliberalismo

No “Nascimento da biopolítica”, Foucault vê em comum nas duas alas de intelectuais que levariam ao neoliberalismo na Alemanha, a Escola de Friburgo e a Escola de Frankfurt, um traço em comum, o weberianismo. Se a Alemanha do século XVI a riqueza seria um sinal efetivo da salvação divina, na Alemanha do século XX é menos o enriquecimento individual do a adesão ao Estado fundado num ordenamento jurídico e tecnocrático que será sinal tanto do esquecimento dos erros cometidos durante o nazismo quanto o legitimador da inserção do país na nova ordem vigente no pós-guerra. A crítica operada por Foucault amplia a crítica feita na década de 1960 por Fernand Braudel a sociologia de Weber e faz enxergar com mais detalhes a incidência da “ética protestante” nos dias de hoje.
 
 
 
 
 
 
 
 

Das continuidades do estado de exceção no pós-Constituinte

Os militares que deram o golpe em 64 poderiam ser considerados, vistos de hoje, como elementos de extrema-direita? Mesmo a “ala Sorbonne”, supostamente mais civilizada, pactuou com os elementos direitistas tradicionais (lacerdismo, adhemarismo, etc.), e implantaram o estado de exceção.

Tanto militares quanto neoliberais governaram com o primado da economia sobre a política. São os marcos da governamentalidade que se estabelecem no pós-guerra. Se a presença dos militares na política só se tornou evidente a partir de 2016, a união histórica entre direita e extrema-direita mostra o liberalismo como o governo de exceção que se torna regra.

Tanto Michel Foucault quanto o antigo quadro do ISEB, o professor Joel Rufino dos Santos, nos mostram como se deu a continuidade da política de genocídio do social apesar da restauração das liberdades de direito estabelecidas após a Constituinte de 1988.

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Um Foucault “fenomenólogo” e neoliberal? A resposta dos Mestres da Verdade

Segundo texto da série contra a visão de um Foucault “fenomenólogo” e neoliberal. A antropologia histórica francesa dá uma resposta a altura às abordagens essencialistas de Heiddeger, com Marcel Detienne relendo seu clássico Os Mestres da Verdade na Grécia Antiga. Os mestres da verdade, os regimes de veridicção, a aleturgia: todos esses conceitos foucaultianos são tributários dos estudos que fez, para além da influência perene de Dumézil, com a chamada “terceira geração” da Escola dos Annales.

Vale lembrar que a mesma chave em que se coloca o Foucault como neoliberal, o aproxima perigosamente da fenomenologia. A crítica costumeiramente foca muito no termo “neoliberal” e esquece que a fenomenologia é seu contraposto necessário. Na gênese traçada por Foucault, é quase impensável o surgimento do liberalismo do pós-guerra na revista Ordo sem os debates sobre a filosofia de Husserl, que lhe deu aspectos de “ciência maior”. Essa é a chave que ele quis se afastar com suas pesquisas expostas no curso Nascimento da Biopolítca, e essa é a chave que não se deve usar para ler Foucault, de acordo com as leituras do próprio Deleuze. Continue lendo “Um Foucault “fenomenólogo” e neoliberal? A resposta dos Mestres da Verdade”

A estética como política: às margens da literatura contemporânea

Para Rancière, arte implica na constituição das formas de vida “comum”, passa pela constituição da voz àqueles que só podem murmurar ou fazer barulho. Como esse conceito tem implicações para a literatura contemporânea, especialmente a brasileira, caso se considere como precursor da passagem da “sociedade punitiva” para a “sociedade de controle”, as literaturas de Kafka e Beckett? Fazendo convergir o pensamento de Jacques Racnière com o de Giorgio Agamben, foi o questionamento que quis levantar com esse texto.

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