O genocídio do social

O psicanalista Táles Ab’Sáber diagnosticou como a realidade psicopolítica brasileira a “alucinose”, ou seja, “uma distorção efetiva da capacidade de pensar fundada na necessidade de saturar a realidade com desejos que não suportam a frustração, bem como no impacto corrosivo dos mecanismos psíquicos ligados ao ódio sobre o próprio pensamento” . Embora ele falasse, na ocasião exclusivamente da ascensão da extrema-direita e do discurso do ódio, pode ser visto o profundo estado de transe pelo qual passava (ou ainda passa) todo o país, sem importar qual posição social ou político-ideológica que se esteja.

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Direita, extrema-direita e os arquivos da ditadura

Tanto a direita liberal ou “socialdemocrata” quanto a extrema direita, igualmente similares em inúmeros outros aspectos, nunca tiveram à altura para lidar com os arquivos da ditadura. No caso da extrema-direita, parece que sua chegada ao poder fez acelerar o processo de reflexão sobre o autoritarismo conjugado ao neoliberalismo, ou seja, toda a história recente, em especial de 1964 a 2003.

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E os neoliberais querem voltar a ser “social-democratas”…

Liberalismo bonitinho e cheiroso

A posição atual de Andre Lara Resende não pode ser vista em separado das movimentações de Jorge Paulo Lemann. Se o PSDB foi praticamente a madrinha do golpe de Estado, forneceu quadros técnicos e planos políticos-econômicos para o governo Temer e, como que numa falha de cálculo, pariu o liberalismo tosco de Guedes e Bolsonaro, nada mais natural que essa ala “mais esclarecida” do liberalismo tenha que influenciar a política nacional com uma roupa diferente. Capitalismo e anarquia.

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Liberais vs. Conservadores: uma história muito recente

Clintons e Cheneys no enterro de John McCain: a oposição nominal é uma forma de manter conflitos aparentes, enquanto trabalham juntos no mesmo projeto político.

A aparente cisão entre liberais e conservadores talvez tenha uma história muito mais recente do que se costuma admitir. Existem diferenças de grau mas não de natureza entre o atual liberalismo e o conservadorismo e, da mesma forma, entre o neoliberalismo e o fascismo. É o que podemos ver em alguns poucos, mas relevantes exemplos, do século XIX ao atual.

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Inflação ou guerra total? Uma resposta a Paulo Gala

Uma pergunta pertinente, porém pouco levantada

Era um fator preocupante a política econômica do Fed e de Bruxelas após 2008, a chamada “flexibilização quantitativa”. No entendimento econômico clássico, a impressão descontrolada de dinheiro para resgatar o sistema financeiro falido poderia lançar uma onda hiperinflacionária global. Contudo, os “mercados” ou quem os controlam parece que tinham planos mais sofisticados do que substituir num curto período de tempo uma tempestade financeira por outra.

O economista Paulo Gala se referiu com perplexidade ao tripé base monetária/juros/dívida pública em países da zona do euro, nos EUA e Japão: como conseguiram aumentar a base monetária e o endividamento público, diminuir os juros, e manter taxas de inflação extremamente baixas? Concordo que essa não é uma resposta simples, porque inflação não condiz com carestia, como é óbvio, como também não está submetida diretamente às chamadas políticas de Estado. Em excelente artigo, Fernando Nogueira da Costa responde “por que o excesso de oferta de moeda, face à demanda agregada, não resultou em inflação corrente?”, mas acredito que podemos ir um pouco mais além.

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