História ou ficções? Por que ainda ser tão positivista?

William Turner – Luz e cor (a teoria de Goethe)

Em artigo recente, a Folha de São Paulo colocou um escrito de um cidadão de nome Leandro Narloch para fazer uma crítica da escrita dos historiadores. O escriba em questão costuma publicar manuais sobre práticas ditas politicamente incorretas, aos quais dá o nome de “guia”. É um best-seller cujo sucesso mostra as ramificações da imprensa marrom no mercado editorial e suas contribuições para a cultura de guerra acentuada nos últimos anos.

Ele contesta, por exemplo, a suposta dificuldade de historiadores se utilizarem de pontos finais em suas frases. Retruca também sobre algumas terminologias que para ele parecem incômodas, mas que de fato são uma aporia da escrita historiográfica, a mediação entre a precisão conceitual e a expressão literária bem-sucedida. Sem surpresa, a Folha convoca alguém incompetente para falar de um assunto que nunca lhe diz respeito, já que nunca escreveu um livro de história.

 Além da prática que para ele é inexistente, ignora todo o debate intelectual na esteira da “virada linguística” nas décadas de 1970-80, com debates dos mais interessantes sobre os limites entre ficção e história, desde Paul Ricouer, Hayden White, Paul Veyne, Hans Ulrich Gumbrecht e até o brasileiro, com um trabalho muito sólido, o professor Luiz Costa Lima. Fora isso, existem toda uma série de publicações no ramo da história das mídias, que vai de Friedrich Kitler, Jonathan Crary e Stefan Andriopoulos. Sem falar de historiadores e filósofos conhecidos como Georges Didi-Huberman, Jacques Rancière e Giorgio Agamben, que trataram sobre a questão das imagens, das figuras literárias e da escrita científica. Isso para ficar num apanhado geral.

Como dar uma resposta, ainda que breve, a esse tosco artigo, não menos ridículo que seu autor ou o veículo que o publicou? É o que tentarei por aqui.

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A História sob o signo de Jano

Seria este o deus que corresponde à historiografia?

O progresso ilimitado além de não ser um conceito grego, nunca foi um conceito dos historiadores. Logo, com Deleuze e Guattari, vemos que a filosofia da história é um conceito particular de determinados filósofos, como na teleologia hegeliana. Existiria talvez algo novo nisto caso comparemos as filosofias da história mais modernas, como a que dita o fim dos tempos, principalmente após a queda do muro de Berlim… O mundo liberal que se impõe guardaria a constituição mais perfeita, não precisando mais de se voltar a antigas formas ou se especular a respeito dela, assim como para Hegel marca o fim da história, seu marco último e mais perfeito, sua própria filosofia, o Terror e Napoleão. É quando o horizonte de expectativas se reduz a tal ponto que delimita um campo de experiência ilimitado. Infinidade não mais no conceito, no porvir, mas na experiência de se viver um mundo definitivamente, e irrevogavelmente (assim acharam os neoliberais), pós-histórico e com muita “liberdade de comércio”, claro. Ao contrário de Políbio ao lado de Cipião ao assistir o incêndio de Cartago, não puderam prever a inevitável ou a mais do que possível ruína do Império que poderia fazê-los visualizar uma história sem fim… A queda do muro de Berlim, o correlato do incêndio de Cartago, encontrou homens muito, mas muito, menores do que os da Antiguidade.

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