Watchman: Os olhos de Berlim

O olhar de Doctor Manhattan ou Mister 1989 (Berlim)

O que é o marco de 1989 para nós? A queda do muro de Berlim consagrou a vitória da democracia ocidental ou um mundo pós-burguês e pós-proletário, ou seja, dominado pela tecnocracia e pelo alto capital financeiro, onde qualquer ideia de luta de classes deveria ser abolida?

No filme Watchmen, um trabalho contra qualquer Liga da Justiça, vê-se a continuação da lógica da Guerra Fria só permitida pelo suposto consenso democrático que a queda do Muro de Berlim justificou. A vitória democrática justifica a continuação da lógica de guerra, de 1989 à destruição das Torres Gêmeas, da crise econômica de 2008 às “revoluções coloridas”.

Como, então, com a análise Gilles Deleuze sobre o cinema de Orson Welles (o mesmo que filmou sobre o magnata da mídia, o famoso Cidadão Kane), com seu conceito de “potências do falso” se pode compreender como se forma um Vigilante, um super-herói, uma Liga da Justiça? Em tempos de justiceiros curitibanos, de estado de exceção e de mundo pós-democrático, o filme pode nos trazer reflexões preciosas para se compreender o momento atual, em específico o neomacartismo, vivido no Brasil e no mundo.

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Não História: Imagem-Tempo

O que vemos e o que nos olha, como no Film, de Samuel Beckett
 
A fenomenologia procura criar, desde Hegel, um modelo explicativo para a história que esbarra em suas próprias limitações. Forma-se uma teoria sobre as teorias da história, mas que são incapazes, mesmo com toda a sofisticação, de explicar o devir histórico ou a prática da escrita historiadora. É menos em “Tempo e Narrativa” do que em “A memória, a história e o esquecimento” que Paul Ricoeur demonstra as aporias do discurso filosófico frente a plasticidade da produção historiográfica. Mas não está em jogo as velhas celebrações a respeito da historiografia francesa, dos Annales. O que se destaca é o entrecruzamento entre o que Deleuze ao ler Bergson entende por “objeto real” compreendido como “imagem-cristal” ou “descrição cristalina”, onde a “indiscernibilidade do real e do imaginário, ou do presente e do passado, do atual e do virtual, não se produz, de modo algum, na cabeça ou no espírito, mas é o caráter objetivo de certas imagens existentes, duplas por natureza”.
O que se pergunta não é só o que é o objeto da história, mas qual sua natureza, como ele funciona, ao se traçar uma zona de indiscernibilidade em que se pode perguntar como se pensa a história e fazer o inventário de sua escrita, ao se perguntar qual a natureza do documento historiográfico ou das perguntas que levam a uma pesquisa histórica, sejam eles reais ou imaginários.

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