Michel Foucault e sua filiação à escola dos Annales

Os especialistas tradicionalmente dão um ênfase maior ao diálogo de Foucault com a historiografia através da Arqueologia do Saber, ou seja, principalmente a partir da produção inicial do filósofo e com os temas clássicos dos Annales, como a “longa duração”, e mesmo a escola primeira, de Lucien Febvre e Marc Bloch.

O intuito do que escrevi é ressaltar a continuidade desse diálogo nas últimas produções de Foucault, em especial seus dois últimos dois cursos no Collège de France. Aparecem então não Braudel e Levi-Strauss, mas a influência perene de Georges Dumézil (quem primeiro o ajudou em sua carreira durante a escrita da História da loucura, na consulta dos arquivos da biblioteca Carolina Rediviva), assim como a chamada “terceira geração” dos Annales, a antropologia histórica. Assim, pode ser visto um panorama de conjunto de como se deu a colaboração entre o filósofo e os historiadores “analíticos”.

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A risível história de um Foucault “fenomenólogo” e neoliberal: as garras de François Ewald

Uma leitura enviesada do Nascimento da Biopolítica ficou famosa na Europa e nos EUA, transformando Foucault num amante de Milton Friedman e do neoliberalismo. Por detrás disso está um “decano” das universidades francesas, François Ewald, também conhecido por sua teoria do “Estado Providência”. Daniel Zamora é seu empregado e escreveu sua publicação sobre “Foucault e a tentação neoliberal”.

É importante lembrar que no mesmo curso sobre a Biopolítica, Foucault traça a gênese do ordoliberalismo (da revista austríaca Ordo) com a fenomenologia de Edmund Husserl. Lembrar também que essa fenomenologia, com o caso clássico de Heidegger, “abençoou coisas demais”, como disse Deleuze em seu livro sobre Foucault. Temos que rechaçar tanto “academicamente” como moralmente essas leituras. Uma breve história dela é o que eu pude escrever.

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O Mais Médicos e os dilemas para uma Medicina Social

No último livro do Roberto Machado, ele se dá a liberdade de finalmente não ser o teórico ou o professor. Diz que finalmente pôde exercitar a prática literária, algo que sempre deixou de lado por causa dos estudos filosóficos. Não tinha tempo para a literatura. Aposentado, não escreveu um livro de ficção, mas de histórias, de relatos da convivência pessoal que teve com Michel Foucault nas suas passagens aqui pelo Brasil, onde Roberto parecia ser seu guia e também seu estudante mais aplicado. Num documentário recente que assisti sobre o Mais Médicos, programa marcado para morrer em breve (talvez por volta de novembro os médicos cubanos comecem a ir embora). É porque quando estavam na Bahia, foram visitar o Pelourinho. E lá Foucault viu a realidade da prostituição, da pobreza humana, dos esgotos a céu aberto. E aí ele exclamou (palavras minhas do que ouvi da palestra do professor, ou seja, não literais): “Mas Roberto, tudo bem que escrevi sobre a medicina social, fiz uma crítica forte a respeito, mas isso aqui é indecente”.

O curioso do documentário do Mais médicos são os questionamentos sobre como tratar sem descuidar, sem, por medidas de força (nem que seja a força moral da autoridade médica), populações com práticas sociais e médicas totalmente diferentes? Onde, por exemplo, a religião assume um papel ainda preponderante, e que não é por um suposto saber científico, por mais “suave” que seja, irão conseguir atingir.  Todo um campo de estudo pode ser aberto caso olhemos para essas histórias.

 

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Foucault, Leiris e os canhões: sobre o fazer literário atual

Michel Leiris por Francis Bacon, 1973.

Como escrever hoje? Somos “pequenos Hans”, Chéri-Bibi em busca de uma “boa identificação”? Eis alguém como eu! Eis alguém como eu! Em meio às redes sociais, a crítica que Foucault faz da Aufklärung kantiana, e A regra do jogo, da escrita de si, de Michel Leiris, podem nos fornecer importantes subsídios.

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Haxixe para Foucault

Kant nas magazines.
No livro “The Passion of Michel Foucault”, de James Miller, o autor narra os bastidores do célebre debate entre Michel Foucault e Noam Chomsky. O caso, porém, não indica apenas uma brincadeira do organizador do encontro. Fica ainda mais claro as diferenças políticas e filosóficas da época, obscurecidas pelas incontáveis discussões acadêmicas de um lado, e pelas teorias sobre o “pós-modernismo” e sobre a influência da CIA na vanguarda francesa do pós-guerra.

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