Protonacionalismo militar e estado de exceção permanente (1964-2003 / 2016 – )

A emergência de determinados grupos que se dizem nacionalistas (viúvas do Lula 1, ex-bolsonaristas, ciristas, algumas pessoas ligadas a Aldo Rebelo, etc.) traz um problema duplo: 1) Qual a relação que a sociedade civil deve estabelecer com as Forças Armadas? O passado recente de arbítrios e o golpe de Estado de 2016 tornaram essa relação problemática; 2) As Forças Armadas são parte fundamental para a soberania nacional, porém a relação ambígua da esquerda com esse setor social acaba por afastar os militares das discussões nacionais. O ponto que procuro destacar é menos o do arbítrio das perseguições políticas durante a ditadura do que seu projeto econômico entreguista. Sem os militares tomarem consciência que servem como apoio a um estado de exceção permanente, por décadas funcionando quase como uma extensão da política norte-americana para o país, não se pode retomar a boa tradição das Forças Armadas, a que levou a Revolução de 30 e a modernização do país já com o “Vargas burguês”, Juscelino Kubitschek.

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Sobre o hipotético “nacionalismo” da ditadura militar e seus defensores

O tema do título é quase um vazio historiográfico. Discussão pra ser feita: o que invalida a tese de um suposto nacionalismo dos militares? Geisel, aqui, apareceria como figura de destaque como uma espécie de continuador de Vargas… Não se considera:

1) Os investimentos estatais eram feitos com “poupança externa”, ou seja, dólar. Não existe governo nacional financiado em moeda estrangeira. Foi a moeda ianque que “securitizou” ou deu o aval para o funcionamento da ditadura. Simplesmente o dinheiro adiantado para a ditadura era de origem americana. O livro da prof. Maria da Conceição Tavares mostra a dependência dos ditadores em relação ao capital estrangeiro e como sua atuação formou um setor financeiro poderoso no país que passou a reger a orientação da “burguesia nacional” em coordenação com os projetos de Estado.

2) Existia uma situação de Guerra Fria e a ditadura foi muito contestada. Não foi fácil eles manterem alguma legitimidade. Isso passa pelos assassinatos (desde os jovens guerrilheiros aos políticos influentes como o JK), mas também pela percepção dos agentes estrangeiros que não daria para formar aqui uma “solução chilena”. O processo de modernização/industrialização brasileira foi muito amplo, de Vargas a JK. O Brasil ficou por décadas como o país que mais crescia mundialmente. Desmontar o estado violentamente no estilo Pinochet iria trazer mais crise ao regime. Com a “ameaça comunista” era melhor adotar um modelo misto, um tipo de social-democracia com totalitarismo.

(Geisel entra na política com a saída de Getúlio em 1945 e ajuda a criar o nosso War College, a ESG)

3) Muito dessa efeméride ao redor do “nacionalismo da ditadura” gira ao redor da figura do Geisel e o II PND que foi um plano econômico estatizante. Foi pra contornar a crise da dívida dos 1970. E o Geisel, como outros militares, teriam vindo da época do Estado Novo. Então seriam de alguma maneira nacionalistas, mas a reversão da economia nacional para uma base em dólar e a concentração de investimentos em bens de consumo (reverteu a antiga tendência em bens de capital) foram os pressupostos da longa americanização de nosso país.

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