O Rio Negro, de Nei Lopes, e a “degeneração dos negros”, de Octavio Ianni

Em seu romance Rio Negro, 50, Nei Lopes atualiza a antiga discussão sobre a “cordialidade brasileira” em contraposição a um debate da época ambientada no livro, relativa a chamada “revolução brasileira”. Na academia, as discussões não avançaram muito, ainda apegadas ao Édipo correspondente à identidade nacional, a do “homem cordial”. Porém o professor João Cezar de Castro Rocha mostra um caso flagrante de, no mínimo, desonestidade intelectual na leitura sobre o tema, vinda da Escola Paulista de Sociologia através da figura de Octavio Ianni. O presente texto pretende contrapor a abordagem ficcional a acadêmica, caminho que pode abrir novas perspectivas para a leitura de alguns dos clássicos formadores da história do Brasil.

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Rio, Europa e o mar em Machado de Assis

Apesar da atual campanha a favor de um Machado finalmente negro, será que o próprio se sentia assim? Ou, quem sabe, as palavras de Joaquim Nabuco retratem com fidelidade a postura do romancista: " O Machado para mim era branco. [...] quando houvesse sangue estranho, isto em nada alterava a sua perfeita caracterização caucásica"...
Apesar da atual campanha a favor de um Machado finalmente negro, será que o próprio se sentia assim? Ou, quem sabe, as palavras de Joaquim Nabuco retratem com fidelidade a postura do romancista: ” O Machado para mim era branco. […] quando houvesse sangue estranho, isto em nada alterava a sua perfeita caracterização caucásica”…

Entre a década de 1970 e 1990, quando Roberto Schwarz escrevia sobre os primeiros romances de Machado de Assis (Ao vencedor, as batatas) e sobre Brás Cubas (Um mestre na periferia do capitalismo), um inglês, John Gledson, na década de 1980, se debruçava sobre o tema da traição em Dom Casmurro. Segundo o autor, o marco histórico fundador do romance seria 1871, ou seja, a Lei do Ventre Livre, que teria sido outorgada pelo imperador para poder fazer sua viagem a Europa e pousar como progressista. Outras correntes cruzam essa data simbólica: a questão religiosa que, com a proclamação da república e do Estado laico fez com que, definitivamente, faltar com a palavra seja fenômeno mais corriqueiro do que na época de maior religiosidade… E o ideal moderno, simbolizado pelas veleidades de Pedro II de frequentar o ambiente europeu como um monarca ilustrado. Porém um mar separa não só a Europa do Brasil, como também os personagens de seus sonhos ou o país de sua modernidade…

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