E os neoliberais querem voltar a ser “social-democratas”…

Liberalismo bonitinho e cheiroso

A posição atual de Andre Lara Resende não pode ser vista em separado das movimentações de Jorge Paulo Lemann. Se o PSDB foi praticamente a madrinha do golpe de Estado, forneceu quadros técnicos e planos políticos-econômicos para o governo Temer e, como que numa falha de cálculo, pariu o liberalismo tosco de Guedes e Bolsonaro, nada mais natural que essa ala “mais esclarecida” do liberalismo tenha que influenciar a política nacional com uma roupa diferente. Capitalismo e anarquia.

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Intervenção: quando a palavra golpe foi colocada em praça pública

Pude assistir esses dias ao documentário lançado em 2017 chamado “Intervenção – Amor não quer dizer grande coisa”, dirigido por Tales Ab’sáber, Rubens Rewald e Gustavo Aranda. O filme procura retratar o bastidor social da convocação em massa para o golpe de 2016 através do relato de anônimos famosos por seus vídeos postados no youtube.

Caso se possa tirar um retrato entre tantas falas diferentes expostas no filme e correspondente ao que se chama de bastidor social das convocações contra a presidência da república, é a que mostra como a palavra golpe foi colocada definitivamente em praça pública e serviu de bandeira para toda a direita, do alto clero neoliberal ao baixo clero, aquele que coloca em xeque um suposto acaso que teria levado ao naufrágio o Titanic. Sem a reconfiguração do significado da palavra golpe, dificilmente os grupos organizados contra o governo do Partido dos Trabalhadores poderiam se aglomerar.

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Uma crônica do liberal-fascismo

O filme The Vice, lançado no Brasil no início de 2019, conta a história do vice-presidente de George W. Bush, Dick Cheney. Retrata-o como um jovem caipira e beberrão que não consegue levar adiante sua formação em Yale. Por intervenção de sua esposa, ele consegue terminar os estudos, largar a bebida e se tornar um burocrata a serviço da Casa Branca no tempo da presidência de Richard Nixon.

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Um Foucault “fenomenólogo” e neoliberal? A resposta dos Mestres da Verdade

Segundo texto da série contra a visão de um Foucault “fenomenólogo” e neoliberal. A antropologia histórica francesa dá uma resposta a altura às abordagens essencialistas de Heiddeger, com Marcel Detienne relendo seu clássico Os Mestres da Verdade na Grécia Antiga. Os mestres da verdade, os regimes de veridicção, a aleturgia: todos esses conceitos foucaultianos são tributários dos estudos que fez, para além da influência perene de Dumézil, com a chamada “terceira geração” da Escola dos Annales.

Vale lembrar que a mesma chave em que se coloca o Foucault como neoliberal, o aproxima perigosamente da fenomenologia. A crítica costumeiramente foca muito no termo “neoliberal” e esquece que a fenomenologia é seu contraposto necessário. Na gênese traçada por Foucault, é quase impensável o surgimento do liberalismo do pós-guerra na revista Ordo sem os debates sobre a filosofia de Husserl, que lhe deu aspectos de “ciência maior”. Essa é a chave que ele quis se afastar com suas pesquisas expostas no curso Nascimento da Biopolítca, e essa é a chave que não se deve usar para ler Foucault, de acordo com as leituras do próprio Deleuze. […]

A risível história de um Foucault “fenomenólogo” e neoliberal: as garras de François Ewald

Uma leitura enviesada do Nascimento da Biopolítica ficou famosa na Europa e nos EUA, transformando Foucault num amante de Milton Friedman e do neoliberalismo. Por detrás disso está um “decano” das universidades francesas, François Ewald, também conhecido por sua teoria do “Estado Providência”. Daniel Zamora é seu empregado e escreveu sua publicação sobre “Foucault e a tentação neoliberal”.

É importante lembrar que no mesmo curso sobre a Biopolítica, Foucault traça a gênese do ordoliberalismo (da revista austríaca Ordo) com a fenomenologia de Edmund Husserl. Lembrar também que essa fenomenologia, com o caso clássico de Heidegger, “abençoou coisas demais”, como disse Deleuze em seu livro sobre Foucault. Temos que rechaçar tanto “academicamente” como moralmente essas leituras. Uma breve história dela é o que eu pude escrever.

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