A indústria dos fundos financeiros, de Roberto Moraes Pessanha

Roberto Moraes Pessanha expõe em seu livro as transformações do capitalismo posteriores a crise de 2007-8. Como o capital se tornou cada vez mais volátil e apesar de tudo ainda se ancora em determinadas estruturas físicas? Através da noção de frações de capital o autor tenta estabelecer as relações entre “fixos e fluxos” numa cartografia que tende a ser especular tamanho o fracionamento da produção física e a estruturação do capital derivado. Com as emissões quantitativas posteriores a crise, todo um novo sistema da dívida foi formado, encontrando no Brasil terno fértil para se multiplicar. Nosso país, ao invés de ser uma “terra de ninguém”, possui uma regulamentação sofisticada para atrair especuladores através de um sistema de dependência externa montado desde a ditadura.

 

YOUTUBE: https://youtu.be/qo9oDuR3Q3Y

PODCAST: https://anchor.fm/rogeriomattos/episodes/A-indstria-dos-fundos-financeiros–de-Roberto-Moraes-Pessanha-e1kkhgv

O mundo encantado de Roberto Schwarz

De qual liberalismo fala Roberto Schwarz quando alude a um capitalismo brasileiro onde as ideias estariam fora do lugar? Ao percorrer a bibliografia crítica sobre esta famosa noção do crítico literário, podemos ver uma miríade de liberalismos no Brasil, a sua depuração entre um primeiro momento onde o escravismo se aliava ao livre-comércio até as ideias chamadas de liberais encampadas pelos abolicionistas, ou mesmo a refutação do dualismo entre metrópole colônia, países desenvolvidos e subdesenvolvidos: a formação de uma cultura nacional passa pelas lutas de seu povo, pelo atravessamento de referências culturais diversas que podem ou não passar por matrizes europeias ou norte-americanas. Qual mundo encantado que, sob a palavra “liberal”, Roberto Schwarz acredita que o Brasil enquanto nação jamais poderá alcançar?
 
 

Das continuidades do estado de exceção no pós-Constituinte

Os militares que deram o golpe em 64 poderiam ser considerados, vistos de hoje, como elementos de extrema-direita? Mesmo a “ala Sorbonne”, supostamente mais civilizada, pactuou com os elementos direitistas tradicionais (lacerdismo, adhemarismo, etc.), e implantaram o estado de exceção.

Tanto militares quanto neoliberais governaram com o primado da economia sobre a política. São os marcos da governamentalidade que se estabelecem no pós-guerra. Se a presença dos militares na política só se tornou evidente a partir de 2016, a união histórica entre direita e extrema-direita mostra o liberalismo como o governo de exceção que se torna regra.

Tanto Michel Foucault quanto o antigo quadro do ISEB, o professor Joel Rufino dos Santos, nos mostram como se deu a continuidade da política de genocídio do social apesar da restauração das liberdades de direito estabelecidas após a Constituinte de 1988.

Continue lendo “Das continuidades do estado de exceção no pós-Constituinte”

E os neoliberais querem voltar a ser “social-democratas”…

Liberalismo bonitinho e cheiroso

A posição atual de Andre Lara Resende não pode ser vista em separado das movimentações de Jorge Paulo Lemann. Se o PSDB foi praticamente a madrinha do golpe de Estado, forneceu quadros técnicos e planos políticos-econômicos para o governo Temer e, como que numa falha de cálculo, pariu o liberalismo tosco de Guedes e Bolsonaro, nada mais natural que essa ala “mais esclarecida” do liberalismo tenha que influenciar a política nacional com uma roupa diferente. Capitalismo e anarquia.

Continue lendo “E os neoliberais querem voltar a ser “social-democratas”…”

Intervenção: quando a palavra golpe foi colocada em praça pública

Pude assistir esses dias ao documentário lançado em 2017 chamado “Intervenção – Amor não quer dizer grande coisa”, dirigido por Tales Ab’sáber, Rubens Rewald e Gustavo Aranda. O filme procura retratar o bastidor social da convocação em massa para o golpe de 2016 através do relato de anônimos famosos por seus vídeos postados no youtube.

Caso se possa tirar um retrato entre tantas falas diferentes expostas no filme e correspondente ao que se chama de bastidor social das convocações contra a presidência da república, é a que mostra como a palavra golpe foi colocada definitivamente em praça pública e serviu de bandeira para toda a direita, do alto clero neoliberal ao baixo clero, aquele que coloca em xeque um suposto acaso que teria levado ao naufrágio o Titanic. Sem a reconfiguração do significado da palavra golpe, dificilmente os grupos organizados contra o governo do Partido dos Trabalhadores poderiam se aglomerar.

Continue lendo “Intervenção: quando a palavra golpe foi colocada em praça pública”

The Vice: uma crônica do liberal-fascismo

O filme The Vice, lançado no Brasil no início de 2019, conta a história do vice-presidente de George W. Bush, Dick Cheney. Retrata-o como um jovem caipira e beberrão que não consegue levar adiante sua formação em Yale. Por intervenção de sua esposa, ele consegue terminar os estudos, largar a bebida e se tornar um burocrata a serviço da Casa Branca no tempo da presidência de Richard Nixon.

Continue lendo “The Vice: uma crônica do liberal-fascismo”

Um Foucault “fenomenólogo” e neoliberal? A resposta dos Mestres da Verdade

Segundo texto da série contra a visão de um Foucault “fenomenólogo” e neoliberal. A antropologia histórica francesa dá uma resposta a altura às abordagens essencialistas de Heiddeger, com Marcel Detienne relendo seu clássico Os Mestres da Verdade na Grécia Antiga. Os mestres da verdade, os regimes de veridicção, a aleturgia: todos esses conceitos foucaultianos são tributários dos estudos que fez, para além da influência perene de Dumézil, com a chamada “terceira geração” da Escola dos Annales.

Vale lembrar que a mesma chave em que se coloca o Foucault como neoliberal, o aproxima perigosamente da fenomenologia. A crítica costumeiramente foca muito no termo “neoliberal” e esquece que a fenomenologia é seu contraposto necessário. Na gênese traçada por Foucault, é quase impensável o surgimento do liberalismo do pós-guerra na revista Ordo sem os debates sobre a filosofia de Husserl, que lhe deu aspectos de “ciência maior”. Essa é a chave que ele quis se afastar com suas pesquisas expostas no curso Nascimento da Biopolítca, e essa é a chave que não se deve usar para ler Foucault, de acordo com as leituras do próprio Deleuze. Continue lendo “Um Foucault “fenomenólogo” e neoliberal? A resposta dos Mestres da Verdade”

A risível história de um Foucault “fenomenólogo” e neoliberal: as garras de François Ewald

Uma leitura enviesada do Nascimento da Biopolítica ficou famosa na Europa e nos EUA, transformando Foucault num amante de Milton Friedman e do neoliberalismo. Por detrás disso está um “decano” das universidades francesas, François Ewald, também conhecido por sua teoria do “Estado Providência”. Daniel Zamora é seu empregado e escreveu sua publicação sobre “Foucault e a tentação neoliberal”.

É importante lembrar que no mesmo curso sobre a Biopolítica, Foucault traça a gênese do ordoliberalismo (da revista austríaca Ordo) com a fenomenologia de Edmund Husserl. Lembrar também que essa fenomenologia, com o caso clássico de Heidegger, “abençoou coisas demais”, como disse Deleuze em seu livro sobre Foucault. Temos que rechaçar tanto “academicamente” como moralmente essas leituras. Uma breve história dela é o que eu pude escrever.

Continue lendo “A risível história de um Foucault “fenomenólogo” e neoliberal: as garras de François Ewald”