Paulo e Benjamin: messianismo e o tempo de agora

Na conclusão do livro “O tempo que resta”, Giorgio Agamben tenta revelar a imagem do anão corcunda que, escondido debaixo de uma mesa de xadrez, assegura a vitória de um boneco vestido de turco. O materialismo histórico deve tomar ao seu serviço aquele exímio enxadrista. Apesar de aparecer como pequeno e feio (por isso deve ser escondido), ele é associado a teologia.
 
Através do sentido bem próprio que Agamben interpreta as “Cartas” de Paulo, a teologia, vista sob a ótica de Benjamin, aparece como uma imagem-cristal, dupla por natureza, virtual e atual. Assim, como o encontro de Paulo e Benjamin proposto por Agamben atualiza essa imagem para o uso no tempo de agora? É o que tento expor ao ler a última parte de “O tempo que resta”, também último programa dedicado a esse livro.

O Tempo que resta, de Giorgio Agamben (6ª Jornada)

No último capítulo de “O tempo que resta” (antes da conclusão), Giorgio Agamben reafirma o poder da linguagem, da filosofia e do pensamento como veículo transformador. Apesar de calcar sua análise em balizas éticas muito claras, se aproxima bastante, ao falar das relações arcaicas entre fé e promessa, da noção de “promessa de felicidade”, dito de Stendhal recuperado por Nietzsche (“Genealogia da moral”) para se contrapor à visão negativa de Shopenhauer sobre a Estética. Assim, Agamben recupera polêmica iniciada em fase inicial de seu livro, no caso contra Adorno, que escrevia uma “filosofia no impotencial”, ressentida, que veria na poesia apenas um epifenômeno da vida e não como provocadora ou criadora de vida.