Boko Haram e o terrorismo sintético na África

O Rio de Janeiro é sua cópia imperfeita?

O homo sapiens sobreviveu à Guerra Fria porque ambos bandos estavam controlados pelos mesmos interesses e pelo mesmo dinheiro. Mas na atualidade não exitem tais limitações. Diante do colapso econômico, o mundo inteiro investiu bilhões de dólares no Oriente Médio, e agora faz o mesmo na África. Rússia, China a Índia… As grandes culturas não se renderão facilmente. O sangue tem chegado ao rio, e esse sangue atrairá as piranhas para um festim em que sobreviverão os mais aptos.


Durante os anos da Guerra Fria (1950-1989), os Estados Unidos enviaram à África 1,5 bilhões de dólares no conceito de armas e treinamento, que assentou as bases para a atual série de conflitos, para não mencionar o aumento do apoio militar a 50 dos 54 países do continente africano. Não obstante, estão ocorrendo muito mais coisas nos bastidores. Na Europa, na Índia, Japão e nos EUA se exploram cada metro quadrado disponível de solo agrícola. A África, principalmente a África subsahariana, é seu último recurso. Para alimentar a crescente população mundial se necessita de terras de cultivo. Tal como assinalou Pierre Abramavici no Le Monde Diplomatique, “se existe um novo Grande Jogo em marcha na Ásia, também existe uma nova ‘repartição da África’ entre as grandes potências”.

A África dispõe das maiores reservas inexploradas, além de não estar tão submetida à dominação econômica estadunidense. O sangue tem chegado ao rio e as piranhas celebram um festim. O resto do mundo está de acordo. O terrorismo, as guerras de poder e os conflitos, grandes e pequenos, de rebeliões armadas a revoluções coloridas, açoitam o Egito, Túnis, Argélia, Líbia, Ruanda, Serra Leoa, Sudão, Burkina Faso, Gabão, Nigéria, Níger, Etiópia, Eritreia, Somália, Uganda, Burundi, o Sahara Ocidental, Mauritânia, Camarões, Mali, o Congo, Quênia, Angola, Guiné Equatorial, Libéria, Santo Tomé e Príncipe, o Chad, a África do Sul e o Zimbábue.

Da África saem operações secretas do Ocidente de debaixo das pedras. Caso sobrepusermos os mapas dos conflitos armados, o terrorismo e as revoluções coloridas aos mapas das reservas energéticas estratégicas, veríamos que coincidem totalmente. Acaso é outra casualidade?

Agora que o mundo enfrenta o fenômeno do pico de dinheiro, ou seja, a escassez de massa monetária, suas superpotências competem entre si para apoderar-se das últimas gotas dos recursos naturais de cada milímetro que reste no planeta, de modo que o continente africano se está convertendo rapidamente no cenário de novo atos de violência, desestabilização e guerra.

A África, esse continente negro, esquecido e abandonado, nos ajuda também a explicar outros acontecimentos, como a caída de Kadafi, a guerra na Síria e a aparição de Boko Haram no marco da guerra interminável contra o terrorismo instigado pelo Ocidente.
coda: Boko Haram significa na língua haussá “a educação ocidental é pecado”. O objetivo da seita, criada em 2002 em Maiduguri, Nigéria, é estabelecer um Estado totalmente islâmico no país e instaurar tribunais penais que apliquem a xaria em todo seu território.
“Em todo o país reinam as condições sociais que permitem que existam grupos como Boko Haram. Milhões de homens sadios, jovens, analfabetos e sem formação que residem em povoados e cidades são o caldo de cultivo do descontentamento, do que os radicais recrutam com facilidade seus membros. Os sermões religiosos são ouvidos até pelos desempregados com formação acadêmica, vítimas vulneráveis da crise do desemprego na Nigéria, que que tem deixado sem trabalho quarenta milhões de jovens. A pobreza galopante e a falta de sentido existencial surgem do Estado nigeriano e suas origens não islâmicas, da educação ocidental e da intrusão da modernidade em uma sociedade islâmica, Boko Haram inculca em seus membros a vontade e a missão de converter-se em guerreiros para a causa de Deus, consagrados a livrar a sociedade da impureza moral e estabelecer uma ordem alternativa. Num Estado falido, o que se encaminha para ser, a religião se ocupa de identificar cabeças de turco para justificar as míseras condições sociais”. [NGWODO, Chris. “Understanding Boko Haram: A Theology of Chaos”, chrisngwodo.blogspot.com, 6 de outubro de 2010]
Se trata de um sintoma do profundo desespero de um povo que se aferra a qualquer coisa que lhes dê esperança em tempos difíceis?
“Agora nos é vendido que o anti-intelectualismo é sinônimo de islã, uma proposta estranha, dado que essa religião deu ao mundo o conhecimento da ciência, da astronomia, da medicina, do xadrez e das matemáticas, sobretudo da álgebra. Contudo, usamos a numeração arábica como meio matemático para explicar o universo físico. Esta obstinada resistência à educação e a glorificação do analfabetismo seguem sendo os principais obstáculos da região para progredir e os vetores básicos da violência sectária e a pobreza”. [NGWODO, Chris. “Understanding Boko Haram: A Theology of Chaos”, chrisngwodo.blogspot.com, 6 de outubro de 2010]
Seus 540.000 membros são fruto da política de “dividir para imperar” dos britânicos na Nigéria, que dividiram o país em norte e sul e fez aumentar os conflitos entre muçulmanos e cristãos, além da miséria generalizada no norte da Nigéria, que facilita o recrutamento  de militantes logo após insuflados no ódio profundo que os faz perpetrar ataques mortíferos. Enquanto o ocidente continua a perpetuar sua política imperial, ao dizer para os africanos de um modo geral que eles não tem que ter acesso a avanços científicos e tecnológicos, mas se adaptar ao que as ONGs ambientalistas chamam de “tecnologia apropriada”, a China leva a cabo a implantação do projeto Transaqua para levar água ao lago Chad, numa obra de engenharia complexa que desviaria o curso de inúmeros rios, principalmente do rio Congo e seus afluentes, num projeto similar ao que no Brasil chamamos de transposição do rio São Francisco. O lago Chad já foi o sexto maior lago de água doce do mundo e agora faz sofrer os habitantes de seu entorno com sua seca. Ao invés de criar políticas de “gangue contra gangue” própria do instituto de engenharia social Tavistock, sediado no condado britânico de Essex, a iniciativa do Transaqua se insere no projeto maior liderado pelo presidente chinês Xi Jiping de criar parceria “ganha-ganha” entre diversas nações do mundo, baseado no investimento em infraestrutura e em seu financiamento através de instituições de crédito, como o banco dos BRICS, não vinculadas ao sistema financeiro pós-Bretton Woods, ou seja, ao desvirtuamento das propostas originais do pós-guerra encabeçadas pelo presidente americano Franklin Roosevelt, que transformou o que seriam bancos de fomento internacional para a indústria e o comércio em órgãos da oligarquia financeira – nunca mais territorial como os britânicos ou seu pupilo, Hitler – que se estabeleceu principalmente na convergência de três acontecimentos: o assassinato de Kennedy, a desvinculação do dólar ao ouro no governo Nixon, enquanto este servia de âncora cambial e referência monetária para as trocas internacionais, permitindo que a moeda americana tivesse vínculo com algum valor extrínseco e não vivesse apenas por si só como valor universal, e a crise do petróleo, fomentada pela City londrina, inauguradora dos petrodólares, ou seja, o verdadeiro episódio fundador do Novo Século Americano e das constantes crises criadas artificialmente na África e no Oriente Médio. Não só Boko Haram, mas todos os terrorismos são “sintéticos”.

Créditos ao Instituto Schiller que defende o projeto há décadas, como pode ser visto no link incorporado no parágrafo acima, onde se destaca não só a liderança do instituto alemão, como também de Lyndon LaRouche e de seu grupo de inteligência reunida entorno da revista Executive Intelligence Review.

O projeto Transaqua somente se difere da transposição do rio São Francisco por ser, como projeto único, mais abrangente do que este. Ele engloba também inúmeros projetos de irrigação e de construção de usinas hidroelétricas. Os governos petistas, ao descentralizarem a produção de energia da região sul-sudeste e integrarem o sistema elétrico brasileiro no chamado “sistema S”, além da política de cisternas e outras políticas sociais, cumpriu o mesmo objetivo. Não sem motivo, o Brasil pode ser uma boa inspiração para a África, ainda que lavajatenses tentem diariamente a destruição da integração entre os dois lados do Atlântico.

Quem quiser ver um pouco mais sobre o projeto, hoje em dia cada vez mais uma realidade (nosso projeto do São Francisco foi prometido por Pedro II – para se ter uma ideia de como são abortados não só agora planos de desenvolvimento da economia real) pode ver o vídeo abaixo, produzido pelo LPAC, sem legendas em português, contudo…

Ao lado dos conflitos na Nigéria, emerge Mali como centro do tráfico de drogas internacional, canalizando a produção de maconha e cocaína sul americanos para o mercado europeu. A queda do regime de Kadafi, na Líbia, fez extrapolar também o tráfico de armas na região, ou seja, proliferar as pequenas e médias empresas terroristas financiadas com dinheiro ocidental, trazendo como resultado a aliança armada que pôde fazer de Mali o centro dos interesses da indústria das drogas, atualmente a maior financiadora do sistema bancário transatlântico, irremediavelmente falido por suas estrepolias especulativas. Como diz Daniel Estulin, no livro que citamos para iniciar esse texto e de onde tiramos a citação subsequente, “a pobreza ajuda a Al Qaeda”. Alvo de um golpe de Estado em 22 de março de 2012 (como os golpes de Estado atuais aconteceram em sucessão cronológica irrepreensível!), Mali se tornou definitivamente o centro que liga as duas margens do Atlântico Sul, inspirados pelos chamados atlanticistas – o partido da guerra, ou seja, aquela facção que se reúne no Mar do Norte, os anglo-americanos para falar metaforicamente, ou seja, o lado negro ou a capital do mundo ocidental.

Como se liga geograficamente o tráfico de drogas e o terrorismo internacional. Sahel, Líbia e Nigéria: geografias imaginárias para a maioria dos defensores dos “direitos humanos”.

Cabe recordar que ao se iniciar a nova era mundial depois dos atentados de 11-S, nós, o povo, nos foi pedido realizar mudanças transcendentais em prol da liberdade e da luta anti-terrorista. Havia começado a guerra contra o terrorismo, e com ela acabamos vivendo “aterrorizados” em um mundo que sofre as sequelas do 11-S. Enquanto as pessoas colocavam pequenas bandeiras patrióticas em seus carros, o governo estadunidense se ocupava de instaurar mudanças tão substanciais que prometiam alterar o futuro da humanidade.

Hoje em dia, as detenções, os julgamentos e as penas de prisão para os “terroristas islâmicos” sustentam a legitimidade do Departamento de Segurança Interior dos EUA e de todo o sistema de aplicação da lei, que se tem militarizado cada vez mais. O objetivo final é que fique gravado na mente de milhões de estadunidenses que o inimigo é real e que o governo dos Estados Unidos protegerá a vida dos cidadãos. Pedem para que nós renunciemos alguns dos direitos que nos custaram tanto em troca da nossa segurança individual. Benjamin Franklin, um dos pais fundadores da república estadunidense, dizia que aqueles que cederam a liberdade essencial para adquirir uma pequena liberdade temporal não mereciam nem a liberdade nem a segurança. E isso é tão válido agora como antes. Tal como demonstrei ao longo desse livro, o terrorismo forma parte dos objetivos de longo prazo da elite.

Por que precisam saber tanto a respeito de nós, ainda que por motivos de segurança? Controle e poder. Quanto mais controlam a população, mais poderosos são. O ex-diretor da CIA, David Petraeus, elogiou esse progresso qualificando-o de “transformacional”, já que abriria um universo de novas oportunidades para os serviços secretos ou, o que é o mesmo, que os organismos de Inteligência e os governos o teriam para te espionarem de modo mais fácil.

Essas são as perspectivas de futuro a curto prazo. Rechaçamos por instinto essas conclusões, ainda que estejam respaldadas por provas sólidas publicadas em informes governamentais e nos principais meios de comunicação. Sem dúvida, devemos ter a coragem para que deixar que a evidência fale por si mesma, porque não só está em jogo a imagem que fazemos da realidade. Pelo o que se conclui desse livro, o fato de que se questione ou que se derrube nossa visão do mundo não muda a realidade, que a conspiração é real, que está em marcha, e que o 11 de setembro de 2001 foi só um prelúdio do que planejaram para nós.

Nos encontramos realmente às portas do inferno. E os caminhos que tomamos chegaram agora ao seu fim, ao limite de nós mesmo que fará com que vivamos no século XXI como Estados nação soberanos ou como um amontoado de escravos desumanizados, subjugados e atormentados (mediante o terror sintético). Fora de controle.

Todos os trechos em itálico, que deram o mote dessa publicação e quase todo seu conteúdo são tirados do mais recente livro de Daniel Estulin, traduzido ao espanhol como Fuera de Control: cómo occidente creó, financió y desató el terror del Estado Islámico sobre el mundo, publicado pela editora Planeta em outubro de 2016. Foi o capítulo final no qual se fala sobre Boko Haram que decidi destacar, assim como seus últimos parágrafos, os que se podem ver logo acima.