Liberalismo com populismo: A História de Louis-Philippe-Joseph D’Orléans, chamado Felipe Igualdade

O massacre de Quios, de Eugène Delacroix: fome e guerra ou a comemoração do 14 de julho na França

Quando se celebra a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão automaticamente se passa a exaltar os avanços trazidos para a modernidade pela Revolução na França. Contudo, o modelo que estava em jogo quando se debatia sobre esses direitos foi a criação de uma constituição para aquele país que limitasse o poder do rei e criasse mecanismos de representação popular com uma câmara de deputados eleitos pelas diferentes províncias. Os debates na Assembleia foram abortados em meio ao caos que se seguiu aos eventos ocorridos na antiga prisão da Bastilha.

Os despachos secretos do embaixador veneziano em Paris, assim como um documento importante de uma testemunha da Revolução, o escritor Felix Louis Montjoie, mostram, ao contrário da unanimidade (uma das raras unanimidades – e burra) a respeito do evento “espontâneo” que foi a queda da Bastilha, o povo parisiense foi provocado pela fome criada pelo “príncipe” jacobino Philippe Egalité. Em comunhão com Jacques Necker, que gostaria de criar na França um sistema parlamentarista ao estilo britânico com um banco central independente, sabotaram a Guarda Nacional iniciada por Lafayette, no intuito de sitiar a capital do país com tropas estrangeiras. A ideia era tomar com 100 mil soldados Versailles, trazer de volta os largos estoques de mantimentos guardados na Grã-Bretanha de maneira insidiosa, declarar Felipe rei e, por esse golpe de Estado, fazer da França um país liberal, ponta-de-lança do Império Britânico dentro do continente europeu.

Se o rei tivesse aceitado as proposições da Assembleia ao invés de cair nas chantagens dos agentes britânicos, não haveria 14 de julho na França. Como disse Lyndon LaRouche, “em consequência de não terem implantado a Constituição, o 14 de julho tem sido celebrado na França desde 1789”. E se engana quem acha que esse é um debate meramente político. Muito falta aos historiadores de profissão o conhecimento da ideologia econômica que faz avançar o Império há mais de duzentos anos.

Artigo completo publicado na revista Voyager, onde são discutidos outros tópicos além deste em destaque.

Uma monarquia constitucional?

Iniciamos com a afirmação de Lyndon LaRouche:
A França poderia ter-se salva antes de 14 de julho de 1789; a Constituição de Bailly e Lafayette, se o rei não a tivesse rejeitado, teria significado o renascimento do país. Em conseqüência de não terem implantado a Constituição, o 14 de julho tem sido celebrado na França desde 17891.
Pierre Beaudry, colaborador do movimento larouchista, utilizando importantes documentos históricos, escreveu dois artigos cruciais sobre a revolução na França. O autor opõe o banqueiro Jacques Necker ao cientista francês Jean Sylvain Bailly, figura nada incensada pela historiografia tradicional. Bailly seria uma espécie de “homem da Renascença”, um erudito e homem de ação, tal como Benjamin Franklin nos EUA. De fato, os dois eram conhecidos e debatiam sobre a Independência do outro lado do Atlântico e das questões que assolavam a França pré-revolucionária. Bailly, como criador e presidente da Assembléia Constituinte, não poderia estar longe dos Foundings Fathers, entusiastas da monarquia constitucional naquele país e críticos ao movimento jacobino que se instalou depois.
O articulista canadense reescreve os passos que levaram a afronta à ordem, durante os debates legislativos na terra que logo depois dará todas as liberdades a um novo César, Napoleão Bonaparte. Philippe Egalité ou Felipe Igualdade, o “rei jacobino”, – duque que mudou de nome demagogicamente -, junto a Jacques Necker, estariam por detrás não só da tomada da Bastilha, mas também da fome que assolava a população durante o período2. A tomada da Bastilha foi uma guerra irregular, tal como o ataque de Hitler ao Reichstag em fevereiro de 1933. O livro de Montjoie, “Historie de la Conjuration de Louis-Philippe-Joseph D’Orléans, surnommée Egalité”, ficou enterrado na Biblioteca Nacional de Paris e até hoje é ignorado pela intelligentsiafrancesa. O autor do artigo destaca o papel de Bailly como criador de um paradoxo (tal como nas grandes descobertas científicas), o único possível para evitar o banho de sangue revolucionário:
Esse projeto de uma monarquia constitucionalfoi a única forma de governo razoável e necessária para tornar possível, sem banhos de sangue, o passo subsequente para uma verdadeira república. Até então a França tinha sido governada por uma monarquia absolutista. A monarquia constitucionalrestringiria os poderes do rei por uma representação nacional sob uma constituição. Contudo, essa foi a página mais difícil de ser virada em toda a história da França, porque apenas poucas pessoas entenderam que essa era uma mudança axionática fundamental. A descoberta feita por Bailly foi que apenas um governo representativo era um governo legítimo, isto é, no espírito de um governo do povo, para o povo e pelo o povo. A alternativa era uma monarquia parlamentar ao estilo britânico, onde a nobreza iria manter seus privilégios, como o caso da Casa dos Lordes mostra para a Inglaterra. Essa foi a opção e Necker e Orléans. O problema era tão agudo que qualquer outra forma de governo fora da monarquia constitucionalseria uma usurpação. Isso foi o que significava para Bailly a “regeneração nacional”, na qual representantes servem o povo ao invés de dirigi-lo3.
Manter a soberania da nação legitimando o poder real. Assim, se evitaria a revolta aristocrática, como depois aconteceu, e colocaria freios no absolutismo, deslegitimando-o na medida em que o rei deveria se submeter às deliberações da assembléia soberana – essa a fórmula para se chegar à república sem banhos de sangue. À diferença do modelo inglês, não haveria Casa dos Lordes ou dos Comuns, mas uma única Assembléia, votando unida em prol da nação. Na verdade, o modelo inglês é similar, se não idêntico, ao modelo de república veneziana – uma república oligárquica, ou seja, simplesmente uma oligarquia disfarçada em república, como vimos emartigo precedente.
A primeira provocação: a fome
Em 13 de julho de 1788 a França experimentou uma das maiores chuvas de granizo de sua história. O duque de Orleáns, aproveitando-se da situação, comprou todos os cereais, incluindo sementes, que ainda estavam estocados no país e os enviou para a Inglaterra. O chanceler do duque, marquês de Ducrest, foi mandado para Inglaterra para dirigir a operação. Philippe Egalité não encontrou dificuldades para fazer valer seu plano, pois o Ministro das Finanças, Brienne, assinou um acordo de livre-comércio com os ingleses que permitia a exportação ilimitada de grãos para aquele país. Montjoie se exprimiu assim:
Ele imaginou que poderia derrubar toda a nação francesa; ganhando o controle hegemônico sobre a comida de toda a nação, produzindo uma fome geral; organizando tão bem suas intrigas para esse propósito que estaria apto a persuadir o povo de que o governo era o único responsável por tais terríveis calamidades4.
Esperava também levar a população da cidade ao desespero, e do desespero à revolta. Se conseguisse o poder necessário depois da sublevação popular, acalmaria os ânimos ao recolocar em estoque os cereais perdidos. Estes foram compradas através de um agente de nome Pinet, que organizou uma rede de compradores que depois venderam ao duque. Este, por sua vez, pegou empréstimos com taxas de juros de até 70%, contando que quando fosse a hora certa iria vender seu produto por preços ainda mais elevados. O marquês de Ducrest organizou o frete com a Companhia Britânica das Índias Orientais, o qual seria realizado por uma rota alternativa, passando os navios no canal entre as ilhas Guernsey e Jersey. Por outro lado, seria suspeito armazenar todos os cereais franceses na Inglaterra. Repórteres britânicos começaram a escrever artigos em jornais franceses relatando como a população inglesa, preocupada com a possibilidade de fome na França, começou a guardar sua produção para o próximo inverno.
Segundo o relato de Montjoie, a crise da fome provocada por Orléans foi orquestrada com a cumplicidade do próprio rei da Inglaterra. Em maio de 1789, os jornais noticiavam por toda a Europa as extraordinárias reservas de cereais dos ingleses. Luis XVI escreveu pessoalmente à corte britânica pedindo um abastecimento modesto de 20.000 sacas de trigo. Recebeu como resposta que aquela corte nada poderia fazer em relação ao pedido, mas que Sua Majestade deveria tentar o mesmo com os Monsenhores Pulteney, Walson, Wilberforce, e com o Major Scott, dizendo a eles que tal gesto iria incrementar o bom relacionamento entre os dois países. Imediatamente, Willian Pity, o Moço, acionou o Parlamento e, após alguns debates, ficou decidido que a questão deveria ser levada ao conselho privado do rei. Este, por sua vez, criou uma comissão parlamentar para julgar o caso, o qual, em última instância, foi indeferido. Montjoie escreveu: “Não só essa ajuda foi recusada, mas a recusa foi tão sura que posterirmente foi aprovada uma legislação severa contra qualquer contrabando ou outra fraude qualquer que fugisse a esse decreto” Somente em outubro de 1789 o duque de Orléans decidiu repatriar, seletamente, uma parte dos produtos estocados.
A segunda provocação: a Bastilha
Em 8 de julho de 1789, Mirabeau declarou à Assembléia Nacional que o número de tropas estrangeiras chegando ao país só aumentava5. Na semana anterior, havia começado as discussões sobre a criação de uma milícia parisiense. Em 13 de julho uma resolução do conselho da cidade criava a Guarda Nacional francesa. “Muito pequena e muito tarde”, são os dizeres de Beaudry sobre a Guarda. Os planos de Necker neste momento já estavam bastante adiantados.
No dia seguinte, 14 de julho, Lafayette presidia a Assembléia Nacional, enquanto Bailly tentava junto ao rei a retirada das tropas estrangeiras, no intuito de evitar um confronto desta com a Milícia. Bailly sabia que tinha sido ordenado às tropas que atirassem nos cidadãos e depois recuassem, atiçando desta maneira a raiva e a fúria deles. Estava claro para ele que uma ordem tinha sido dada para a invasão da Bastilha. “Uma provocação no estilo do incêndio do Reichstag tinha sido colocada em operação e Bailly estava fazendo de tudo para detê-la”, conclui Pierre Beaudry.
Os despachos de Antonio Capello6, embaixador de Veneza em Paris em julho de 1789, nos fornecem as evidências do complô armado por Jacques Necker, ministro das finanças francês, para criar a tensão necessária para a invasão da Bastilha. Porém, o plano inicial seria revoltar os cidadãos ao ponto de avançarem sobre Versailles. Não foi possível chegar a tanto.
Cerca de cem mil soldados estrangeiros seriam provocados à insurgência. Na noite de segunda-feira, entre 13 e 14 de julho, o plano era levar as tropas até Paris através de Montmartre, com armas de fogo e espadas, na intenção de criar um grande massacre. A população, com o armamento deixado no Hospital dos Inválidos, poderia resistir com rifles e canhões e se apoderar da cidade, porque ninguém era senhor da cidade sem antes se apoderar de seu castelo. Delaunay, governador da Bastilha, recebeu ordens antecipadas para se defender, incluindo uma promessa de reforço de 10.000 homens que chegariam por passagens subterrâneas, as quais se estendiam por mais de oito quilômetros de distância.
Se alguém prestar atenção na intenção aqui, a verdade é facilmente revelada. Apenas ao se levantar levemente o véu dos despachos de Capello, fica evidente que o medo era o elemento de manipulação utilizado pelos dois lados da operação de guerra irregular: de um lado, Necker e Dorset criaram pânico em Versailles, onde o rei esperava o assalto de 100.000 parisienses furiosos; de outro, o duque de Orléans criou pânico entre a população semi-faminta de Paris com a invasão de 100.000 soldados estrangeiros, presumivelmente sob as ordens do rei; e assim, a ação diversionista inesperada: a Bastilha. Depois de se tornar prefeito de Paris em 1790, Bailly documentadamente disse ao rei que a fome daquele ano tinha sido orquestrada pelo duque de Orléans: “Eu não escondi dele o fato de que a fome tinha sido mais ou menos fabricada…”.7
A Bastilha só foi tomada pela fúria popular depois que um tiro de canhão, partido de dentro da fortaleza, atingiu três dos cidadãos que se aglomeravam ao redor dela, indignados. Ninguém desconfiava da procedência das armas encontradas no Hospital dos Inválidos. Tampouco desconfiava Lafayette do destino dos 12.000 rifles encomendados para a Guarda Nacional. As caixas entregues na Assembléia com o armamento da tropa estavam repletas de roupas velhas. Flesselles era o nome do agente usado por Necker para burlar os planos de Lafayette. Enquanto isso, o jacobino Camille Desmoulins propagavam o boato de seu rei, Philippe Egalité. Encontrava-se redivivo o estilo fascista do Império Romano para enfurecer as massas, o Vox popoli. Egalité seria o novo rei, ou imperador, seguindo o modelo britânico de Necker.

NOTAS

1 LaRouche, Lyndon. “A doutrina LaRouche para as Américas”. Executive Intelligence Review (EIR), Rio de Janeiro, 202. Pág. 107.
2 Nas palavras do editor da revista: “The following evidence provided by the French writer and witness to the revolution Felix Louis Montjoie (C.F.L. Montjoie, Histoire de la Conjuration de Louis-Philippe-Joseph. D’Orléans, surnommée Egalité (Paris, 1796), Vol. I, pp. ij- iij), as well as the secret dispatches written by Antonio Capello, the Ambassador to Paris of the Doge of Venice, demonstrate that the British-dominated historical accounts about the French Revolution have lied systematically about the true nature of the circumstances surrounding the coup d’état of the Bastille”. Beaudry, Pierre. “Why France did not have an American Revolution”. EIR (Executive Intelligence Review), 18 de janeiro de 2002.
3 Ibidem.
4 Ibidem.
5 Beaudry, Pierre, “Jean Sylvain Bailly: The French Revolution’s Benjamin Franklin”. EIR (Executive Intelligence Review), 26 de Janeiro de 2001.
6 Capello, Antonio. “Venise et la Révolution Française, Les 470 dépêches des Ambassadeurs de Venise au Doge, 1786-1795”. Em: Beaudry, 2002.

7 Ibidem.