Nazismo e liberalismo como doenças autoimunes: a biopolítica de Roberto Esposito

Roberto Esposito associa o nazismo e o liberalismo às doenças auto-imunes (a diabete é o tipo dessa doença mais famoso). Seria assim o argumento: toda comunidade exige um “munus”, ou um dom, o que gera, naquele que o recebe, o dever da troca. Cria-se em toda comunidade uma espécie de “sistema da dívida”. Os “imunes” são os que não estão no jogo do “munus”, do bônus e da dívida. Para o autor, é o excesso de vida, de imunidade, que provoca essa grande doença auto-imune no corpo social, como o nazismo ou o liberalismo. O liberalismo, por exemplo, para se alcançar a força e liberdade individual para cada um de seus membros, acaba produzindo uma força homicida, onde muitos devem morrer para, também, os melhores sobreviverem. Nesse caso, como Foucault acertou no Nascimento da biopolítica, não se escolhe mais quem vive e quem morre como no Absolutismo ou no diagrama da “razão de Estado”. Existem os que vivem e os que se deixam morrer.
Descobri que a editora da UFMG estava editando pela primeira vez o livro do filósofo italiano Roberto Esposito. Por se chamar “Bios: biopolítica e filosofia”, achei interessante e fui dar uma olhada sobre o que ele trata. Lendo aqui e ali sobre o livro, não encontrei nenhuma surpresa, ou seja, eu imaginava algo próximo a Foucault e Agamben, os “dois pensadores do biopoder” – pelo menos os mais conhecidos.
O que me pareceu diferente é o modo como o Esposito aprofunda a reflexão biológica. Ele associa o nazismo e o liberalismo às doenças auto-imunes (a diabete é o tipo dessa doença mais famoso). Seria assim o argumento: toda comunidade exige um “munus”, ou um dom, o que gera, naquele que o recebe, o dever da troca. Cria-se em toda comunidade uma espécie de “sistema da dívida” (isso tem relação com a terceira dissertação da Genealogia da moral, a dívida infinita, a questão do padre, do ascetismo, etc., mas Nietzsche não ignora a ciência quando fala que Galileu fez os antigos sacerdotes se tornarem anãos não só porque fez ver que a Terra era algo minúsculo no universo, mas porque transformou os homens também nesse algo minúsculo, ou seja, ao se apoderar de um saber “de cima”, universal, os novos ideólogos dos ideais ascéticos conseguiram ser mais perversos do que os sacerdotes da Idade Média – quero dizer, toda a ciência econômica e, hoje se vê com maior clareza, jurídica, guarda todo esse sistema da crueldade que é o estabelecimento de um débito infinito, de uma culpa metafísica, etc., que está muito distante do que sempre se chama de “razão de Estado” – desculpe, não dá para me alongar mais, é o máximo que consigo em um parêntese). Os “imunes” são os que não estão no jogo do “munus”, do bônus e da dívida.
A partir daí Esposito se afasta de Agamben e Foucault. Não há mais contraposição entre a capacidade de decidir entre a vida e a morte dada ao poder soberano, quem vive e quem morre no Absolutismo, quem vive e quem deve-se deixar morrer, como atualmente (medidas de “contenção de gastos” e priorização do pagamento do déficit público em detrimento da promoção do bem-estar geral, das políticas de geração de emprego, aumento de direitos e renda, e investimento em ciência e tecnologia na economia física – não em “vale do silício” e uma suposta “quarta revolução industrial), ou como Agamben, a contraposição básica entre vida nua e vida soberana, zoé e bíos. Para Esposito, é o excesso de vida, de imunidade, que provoca essa grande doença auto-imune no corpo social, como o nazismo ou o liberalismo. O primeiro, baseado num conceito de nação em suas características mais arcaicas (e que não estavam fora da carta dos direitos humanos da Revolução Francesa), ou seja, nos conceitos de raça e degeneração e não no que se entende a partir do conceito às vezes muito amplo de cidadania, escolhia quem deveria morrer (o suicídio, por exemplo, não era permitido, além do caso dos “muçulmanos” nos campos de concentração, que de tão desumanizados por sua condição eram preteridos na hora de levar os prisioneiros às câmaras de gás). O liberalismo, para se alcançar a força e liberdade individual para cada um de seus membros, acaba produzindo uma força homicida, onde muitos devem morrer para, também, os melhores sobreviverem. Nesse caso, como Foucault acertou no Nascimento da biopolítica, não se escolhe mais quem vive e quem morre como no Absolutismo ou no diagrama da “razão de Estado”. Existem os que vivem e os que se deixa morrer.
SINOPSE: O horizonte político contemporâneo está, cada vez mais, marcado por decisões biopolíticas que, com base em saberes e tecnologias avançadas, definem e conformam formas de vidas, tanto em escala individual como social. Diante desse cenário, Roberto Esposito propõe que a categoria de imunidade articula as dimensões do bíos e do nómos no poder de conservação e proteção da vida. O paradigma imunitário combina os dois vetores da biopolítica – o negativo e o positivo, o destruidor e o conservador –, submetendo a vida a um estado que reduz a sua otência vital, materializada nas relações de doação recíproca da comunidade. O nazismo representa a faceta autoimune da lógica imunitária, porque a manutenção da vida passa a significar a morte mesma do corpo político.
Aqui o link para um artigo sobre o filósofo: http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/sistemapenaleviolencia/article/view/18190/12602

RESUMO: Este artigo explora o paradigma imunitário introduzido por Roberto Esposito no estudo da filosofia política. São explicados os seus pressupostos científicos, a sua análise da experiência biopolítica nazista, a sua preocupação com uma atual crise autoimune global e a sua proposta de superação do paradigma imunitário através de uma biopolítica afirmativa. O texto final é resultado de uma abordagem qualitativa, executada através de revisões bibliográficas (com ênfase no seu livro Bios: biopolítica e filosofia), e com um arranjo exploratória e explanatória.
Uma resenha do livro em Espanhol:

Roberto Esposito’s Bios. Biopolítica y filosofía

MARIO VALERO | COLUMBIA UNIVERSITY
Para Roberto Esposito la biopolítica ofrece una posibilidad hermenéutica cuando las categorías políticas modernas, la soberanía, la democracia o el derecho, se prueban incapaces de explicar fenómenos sociopolíticos directamente relacionados con la preservación de la vida humana. En Bios. Biopolítica y filosofía, Esposito intenta una exégesis de éste término alrededor de la aparente contradicción originaria que lo constituye: “¿Por qué, se pregunta el autor, al menos hasta hoy, una política de la vida amenaza siempre con volverse acción de muerte?” (16). Esta pregunta lo lleva a un análisis que parte del etymon, no para dar cuenta del significado original del término a partir de sus dos partes constitutivas, biología y política, sino para establecer conexiones significativas entre éstas y explicar sus derivaciones históricas. La etimología como instrumento de análisis le permite establecer una genealogía de la biopolítica que relaciona dialécticamente su perspectiva analítica a la de Federico Nietzsche y la de Michel Foucault. Como respuesta a la sugerencia de Foucault que la soberanía del estado absolutista fue sucedida por la ideología liberal de las sociedades disciplinarias, Esposito argumenta que estos no son sistemas discontinuos de control social, sino que coexisten integrados el uno al otro. Ambos reproducen los presupuestos fundamentales de la doctrina política moderna: la idea, sostenida por Hobbes y Nietzsche, de la guerra permanente de todos contra todos como única garantía de paz, y el presupuesto de Locke de la propiedad privada como condición previa para la organización social y la preservación de la vida.
Esposito entiende la vida humana a través de la disyunción griega que la presenta simultáneamente en su acepción política, la “Bios”, y natural, la “Zoe”, ensayando una interpretación genealógica de la biopolítica por medio de dos términos que condicionan la vida: la comunidad y la inmunidad. En sus dos libros previos, Comunitas (1998) e Inmunitas (2002), Esposito ofrece un análisis exhaustivo del etymon “munus,” meollo de estos dos términos, y concluye que el eje conceptual entre ellos solamente puede resolverse en una aporía. Es impensable la existencia de una comunidad sin un presupuesto inmunitario, lo que para el sujeto moderno se traduce en “una protección negativa de la vida. Ella salva, asegura, preserva al organismo, individual o colectivo […] sometiéndolo a una condición que a la vez niega, o reduce, su potencia expansiva” (75) La soberanía, la propiedad o la libertad, calificadas por el autor como “envolturas inmunitarias”, se constituyen a partir de dicha relación aporística entre principios antinómicos. Contradicciones y aporía sirven para delimitar el espacio conceptual que despliega la biopolítica, aunque no se traducen en este caso en un impasse epistemológico sino en el comienzo fructífero de un análisis inclusivo. Por ejemplo, el soberano interpela al indivíduo, mientras éste simultáneamente engendra al soberano. La propiedad privada sólo puede serlo en función de la esfera del bien común que la funda negándola. En cada caso la inmunización se ofrece como un privilegio y una sanción: se goza de inmunidad biológica o jurídica a través de la exclusión, situándose fuera de la comunidad de los no inmunes.
Siguiendo a Nietzsche, Esposito propone que la biología y la historia encarnan en lo somático, constituyéndolo. La clave de la biopolítica está en la respuesta que se le dé al significado del gobierno político de la vida: “O se trata de una política de la vida o sobre la vida” (53). La diferencia en este caso es crucial, porque un gobierno de o para la vida debe presuponer un límite; es decir, como señala Foucault, el mismo ejercicio del poder debe generar la resistencia a su propia emanación: “Sí somos libres por el poder podemos serlo también en su contra” (62). Si por el contrario es un poder sobre la vida, nos encontramos en el camino allanado por todos los totalitarismos del siglo XX. Esposito dedica los dos últimos capítulos del libro a examinar la puesta en práctica de estas dos formas de biopolítica. Por una parte, la “zoopolítica” nazi presentó la inmunización como una forma de higiene radical y como el medio imprescindible y definitivo para asegurar la vida del pueblo alemán, aunque este proceso implicara, en última instancia, la destrucción misma del cuerpo social que pretendía proteger como la consecuencia lógica de su racionalidad tanatopolítica (186). ¿Es posible, por otra parte, hablar de un gobierno político que preserve la vida después de los programas de exterminio? Para Esposito, Nietzsche nos dio la clave inicial de una nueva biopolítica afirmativa que reivindique al “animal humano” y le exija una responsabilidad política concreta, fincada en el presente, hacia la preservación de la vida individual y comunitaria.

Mario Valero é estudante em PhD no Departmento de Espanhol e Português da Columbia University. Atualmente escreve sua dissertação intitulada “A Familiar Monster: Race in the Latin American Scientific Imagination of Modernization, 1900–1930” (Uma Família Monstro: Raça na Imaginação da Modernização Científica Latino-Americana). Seu interesse acadêmico tem como enfoque a produção cultural latino-americana dos séculos XIX e XX e, em particular, sobre a relação entre a literatura, as ciências sociais e as artes visuais.