O dia em que Haddad “releu” FHC

Sem querer polemizar com as inúmeras reações ao artigo recente de Fernando Haddad na Folha de São Paulo, podemos ver que seu comportamento, desde a época de Ministro da Educação, é pautado por uma ambiguidade constitutiva. Quais são os fatores sociais que ajudariam a faze-lo de fato um bom governante?

Em busca das origens do subdesenvolvimento…

Numa entrevista recente com Bob Fernandes, foi emociante o momento que Fernando Haddad confessou que estava relendo a “obra” de Fernando Henrique Cardoso. Momento catártico de onde se tirou a afirmativa taxativa de todo e qualquer sociólogo ou economista do pós-golpe de 64: a burguesia nacional é imprestável. O problema, claro, não é a do dado empírico, o de uma burguesia que capitulou, mas saber como ela se constituiu, suas ramificações e os caminhos para a mudança – até porque “burguesia”, termo ideológico de luta, pode ser entendido como classe-média. Sem uma ampla classe-média, junto a um não menos robusto setor industrial, não há desenvolvimento em médio e longo prazo.

Como se vê por tamanha obviedade da mera constatação empírica, Haddad concluiu que FHC ainda é uma “reserva” moral ou intelectual para amplos setores sociais. Deveria-se extrair “o melhor” daquele que sequestrou a Teoria da Dependência de Ruy Mauro Marini, Vânia Bambirra e Theotonio dos Santos para se gabaritar como o “príncipe” e, por outro lado, ajudar a manter intelectuais ligados ao PDT de Brizola a viverem e publicarem por décadas no exílio.

Fora o drama pessoal de cada um deles, a sociedade brasileira foi privada da contribuição em seus debates políticos das instigantes investigações desses três personagens, pelo menos. Particularmente ao Haddad, a compreensão do grupo político e intelectual do qual fizeram parte os “teóricos da dependência” remete a um projeto educacional amplamente popular, como inaugurado por Brizola e Darcy Ribeiro no Rio de Janeiro. Ainda deve ser confrontado o modelo “duro” do tipo de educação em lugares como a USP (em coordenação com os modelos internacionais importados pela Capes e o Cnpq, e, anteriormente, em sua Escola de Sociologia, ao patrocínio de think tanks estrangeiros via Cebrap), com o modelo popular dos Cieps. São duas concepções totalmente distintas de educação e que deveriam ser confrontadas num debate sério.

Assim, o problema nunca foi a visão da “burguesia nacional” vista isoladamente. Como fez Lula e Dilma, a abordagem deve se dar no incentivo ao crescimento do mercado interno. Dependente por décadas das exportações, depois da crise de 2008 o Brasil deu uma demonstração de força, inédita, de que tinha uma burguesia ampla, porém de fundamentos ainda instáveis, que conseguiu, via estímulo do executivo federal, driblar os efeitos mais deletérios da imensa quebra do sistema financeiro transatlântico. O problema não é o de uma “burguesia nacional” pré-fixada, mas da necessidade premente de ampliá-la ao máximo. Esse foi o passo ensaiado por Jango com seu projeto de Reformas e nos projetos de industrialização da era JK. Em essência, a “burguesia nacional” vista isoladamente, nos remete a um ponto de indiscernibilidade onde não sabemos até que ponto são agentes nacionais ou estrangeiros que estão atuando por aqui. Uma prova cabal disso foi a entrevista do presidente do Itau, satisfeitíssimo com o governo Bolsonaro. E essa “burguesia nacional” que tanto interessou a FHC como artífice do Estado dependente, financiado por fontes externas (tal como foi o seu Cebrap).

Haddad e a “nova democracia”

Como FHC, Haddad acena com simpatia para a chamada “esquerda americana” ou a europeia. Como para muitos personagens politizados, o projeto do New Green Deal traz uma alternativa boa para a situação econômica catastrófica dos países mais industrializados,como também endossam pecados variados na atual reciclagem do movimento ambiental, cuja propaganda mais forte se deu na época de maior penetração do chamado “Consenso de Washington”.

Não é apenas que ambientalismo e desindustrialização combinem, nem tampouco se trata de fixar as atenções em santidades repentinas como a da adolescente que quer salvar o mundo de seres humanos que emitem muito gás carbônico. Porque não são só as vacas que produzem metano; o ser humano, que pode chegar a casa de dez a vinte bilhões no planetas nas próximas décadas, mesmo se desconsiderado o uso de máquinas poluentes, ou seja, o ser humano por si, produz gás carbônico e exala metano. Essa combinação explosiva é impraticável para os ambientalistas. Por isso Bernie Sanders, por exemplo, em evento recente, defendeu dinheiro americano para financiar abortos e métodos contraceptivos em países pobres para que eles deixem de se multiplicar tanto. E tem gente que acha que o racismo não é tão forte hoje como antigamente, pelo menos desde Martin Luther King a Nelson Mandela…

Haddad, ao se filiar não ao capital físico estrangeiro, como teorizou e fez FHC, mas ao capital cultural estrangeiro, para buscar alternativas para os impasses políticos brasileiros, acaba por seguir a linhagem ainda viva da “reserva” moral ou intelectual da antiga teoria da dependência associada. Tem razão quando não se chama de liberal, mas de libertário, na medida em que estes servem para justificar culturalmente o projeto econômico daqueles. Como demonstrado em artigo anterior publicado por mim [aqui], toda a cultura científica ambiental (pelo menos em sua vertente que atribui causas antropogênicas ao aquecimento global) tem como base uma ampla reunião de fundos de investimentos e de bancos centrais dos países do Atlântico norte. Mais uma vez, não se deve falar de Greta, mas da City de Londres e de Wall Street na promoção do subdesenvolvimento e na política genocida a ele associado.

Por outro lado, seu papel como coordenador do programa nacional do PT para as eleições do ano passado mostra uma face interessante da utilização dos quadros do partido para atingirem o melhor de seus desempenhos possíveis. Todos os que queiram contribuir com o partido com sinceridade e clareza de princípios devem ser acolhidos. Colocar Haddad para ouvir as bases e coordenar a criação do programa nacional do PT é saber utilizar sua inteligencia no trabalho que não lhe é cotidiano. O compromisso pessoal de Haddad com o PT, provado em seu contato com a base, retira-o do ambiente sufocante de um Insper, ao mesmo tempo em que tem o potencial de levar o debate popular para as instancias ditas mais cultas da sociedade. Em seu interesse “cosmopolita”, o ex-candidato a presidência exerce o seu melhor papel voltado para dentro e não para fora do país.

Educação e a solução pela ambiguidade

Sem querer polemizar com as inúmeras reações ao artigo recente de Fernando Haddad na Folha de São Paulo, podemos ver que seu comportamento, desde a época de Ministro da Educação, é pautado por uma ambiguidade constitutiva. Ajudou a ampliar o ensino superior, na criação do piso nacional dos professores e levar adiante as políticas de inclusão social dentro das universidades.

As universidades passaram a produzir muito. Para quem faz pesquisa, é uma tarefa das mais instigantes pesquisar o que se fez nos últimos anos em termos de investigações inéditas. Estas, muitas ainda encasteladas em bibliotecas universitárias ou fragmentada em publicações no formato livro, ainda não passaram por uma leitura de conjunto que possa dar conta das inúmeras frentes de trabalho que foram abertas e que apontam para os resultados da democratização do ensino nos últimos anos: o próprio ensino básico tende a se modificar substancialmente nos próximos anos a partir dos novos enfoques criados por jovens pesquisadores.

Contudo, a grande maioria desses pesquisadores não saíram da posição inglória de terem de agradecer por poder fazer uma pós-graduação de maneira gratuita e, para os privilegiados, receber uma bolsa de estudos que, a continuar a curva descendente dos últimos 15 anos, daqui a pouco valerá menos do que o salário mínimo. “Agradecer por poder fazer uma pós-graduação de forma gratuita”: num país pobre, não há meio de se democratizar o ensino sem as instituições públicas, assim como nos países ricos, em especial a Europa, não há como manter um alto nível de produtividade sem estas mesmas instituições públicas.

Ao contrário de alguns centros europeus, o pesquisador brasileiro, caso tenha “sorte”, será um mero bolsista. O que é um “bolsista”? Uma espécie de mistura de nada com coisa nenhuma, já que não possui vínculo empregatício e que trabalha de maneira precarizada caso não tenha família rica ou um “emprego dos sonhos” (poucas horas trabalhadas por semana + salário alto). As universidades deveriam ter quadros permanentes de pesquisadores, celetistas ou estatutários. Ser pesquisador não deveria ser uma espécie de estudante “turbinado”.

Para se ter alguma qualificação institucional, existe o único e exclusivo cargo de professor pesquisador. Ora, por que não se pode ter só pesquisadores, só professores, como também professores pesquisadores? Por que só esses últimos de fato estão no sistema formal de emprego universitário e formam “a” casta? O Brasil, nesse caso, não “copiou” os sistemas de ensino europeu, por exemplo.

Mas isso talvez seja pouco diante do problema da própria forma de organização das instituições responsáveis pela pesquisa científica no país. Mais uma vez, como um país que almeja alcançar excelência na produção de conhecimento, tanto a existência e o financiamento sem preconceitos ao Capes e ao CNPQ são um ponto de honra para todo defensor da educação. Porém esses institutos, profundamente internacionalizados, impõem padrões de produtividade duvidosos, no sentido em que não atentam para as particularidades de cada área do conhecimento , além de se basearem em modelos meramente quantitativistas e formais para a avaliação dos padrões de qualidade de cada universidade.

Quantitativista é igual ao número de publicações elevado; “formais” quer dizer simplesmente formação acadêmica. Para o jovem pesquisador, com a experiencia precária em sua maioria, como acima aludido devido ao status que ocupa, a composição desses dois termos não forma um par, mas uma divisão: para se chegar ao topo tem que cumprir os dois e para se cumprir os dois tem que se de algum modo ter estado no topo. Resumo: o topo é alcançado dentro de um sistema duvidoso, muito pouco objetivo, onde só uma elite financeira ou de apadrinhados pode chegar.

O problema do “topo” é simplesmente o seguinte: para que as pesquisas inovadoras, como aludi acima, cheguem à base deve existir um processo amplo de troca geracional. As pesquisas feitas nos últimos anos só serão amplamente conhecidas pelos futuros professores quando elas chegarem às aulas de graduação, ajudando aos alunos em sua formação através de novos enfoques. Com as múltiplas armadilhas para se chegar “ao topo”, tende a se perpetuar a pequena elite que compõe ainda os quadros universitários. Com a ampliação do ensino universitário, houve uma grande renovação dos quadros de professores: porém se mudou a composição desses quadros em relação a origem social de cada um deles?

No caso específico da educação por Fernando Haddad, vemos como o ensino de um modo geral foi beneficiado, em especial por causa do amplo financiamento que recebeu do governo federal. Nesse caso, em sua maior parte, do governo Lula. Financiamento que foi em parte para a ampliação dos campus universitários e das escolas técnicas (o modelo expansionista de Lula, sem medo de fazer obra de cimento e aço), a integração das classes mais pobres no ensino (visão social dos governos petistas) e o aprofundamento do modelo multinacional implantado pelas instituições de pesquisa em concomitância aos critérios rígidos de democratização não do ensino, mas da docência.

O ponto bom, como disse no último parágrafo da segunda seção desse artigo, é que Haddad, dentro de um partido de massas, é constantemente pressionado a ceder lugar aos movimentos de base. Essa luta constitui a ambiguidade permanente desse personagem político, que, claramente dialoga com muita facilidade com os setores ricos da sociedade. Seria ele um “Henrique Meirelles do bem*”, ou seja, com mais consciência social?

Só para concluir: Henrique Meirelles é aquele personagem que funcionou sem causar maiores escândalos porque usou uma coleira fabricada por Lula… Isso ainda causa curto-circuito na esquerda, como é visto de maneira notória quando Dilma, encurralada, optou por solução similar, e chamou o Levy para a Fazenda. Mais importante hoje, porém, é saber que não há distinção entre o que se chama de “direita” (o neoliberalismo de sempre) e a “extrema-direita”, i. e., neoliberalismo com mussolinismo. Sempre foi a tática imperialista mesclar os dois, como é claro no caso dos EUA: uma hora Bush e noutra Obama. O resultado são os milhões de mortos no Oriente Médio e os trilhões gastos na guerra e, posteriormente, “keynesianamente”, para salvar o sistema financeiro, enquanto o governo de Obama financiava o golpe neonazista na Ucrânia e cercou a fronteira da Rússia com as tropas da OTAN, no que criou um dos momentos mais delicados da segurança planetária de todos os tempos [detalhei bastante isso aqui]. Sobre esses temas, recomendo a leitura da série que escrevi (que será ampliada brevemente) chamada Capitalismo e anarquia [clique aqui para acessar].