Os bichos estranhos que tocamos na Casa dos Insetos

Dr. Strangelove: ou como parei de me preocupar e passei a amar a bomba.


Existe claramente um partido da guerra nos Estados Unidos. Hillary Clinton, ao defender a “zona de exclusão aérea” na Síria (o que significa abater não apenas os aviões que não são da OTAN e que sobrevoam o espaço aéreo do país, mas também todos os aviões estacionados, ou seja, toda a frota russa que dá apoio a Assad), foi a candidata desse partido. Perdida eleição, uma questão interna do Partido Democrata, o vazamento de informações a respeito das sabotagens que o comitê de Hillary promoveu contra Sanders, passou a ser uma arma de guerra contra o presidente eleito, Trump, no caso conhecido como Russian-gate. John Brennan, diretor da CIA, testemunhou no senado sobre as alegações de influência russa nas eleições americanas e disse ao ser perguntado sobre se tinha evidências a apresentar sobre a acusação: “Eu não produzo evidências, eu faço inteligência”. E assim, como no caso do triplex do Guarujá, vai se armando “provas tênues” para se incriminar o inimigo. A morte ou o impeachment é o que ameaça Trump nos próximos meses. Ano que vem ainda haverá eleições na Rússia e será o ano decisivo para saber se o presidente esquisitão dos EUA sucumbirá ou não às chantagens do partido da guerra, amparado em todo o aparato dos serviços de inteligência americanos e britânicos (os mesmos que produziram as “evidências” das armas nucleares no Iraque e, baseados nisso, começaram a guerra infame que logo se espalhou por toda a região, depois inflada pelas “revoluções de cor”). 

Quem são esses bichos estranhos da Casa Branca e o que pensam, o que planejam, frente à evidência incontornável que não há mais espaço para um mundo unipolar, como este que se configurou depois da suposta vitória da “democracia” com a queda do muro de Berlim?

NOTA METODOLÓGICA: Falam que as teorias da conspiração são bizarras porque sempre pressupõe um conjunto de seres tenebrosos reunidos numa sala escura em torno de uma mesa oval discutindo quais serão os passos para se manipular e se influir na política do mundo. Logo, caricaturizamos a caricatura para dar, vamos dizer, um pouco mais de “efeito de realidade” à verdade que devemos contar. E só se pode fazer isso ficcionalmente.


Os bichos estranhos que se tocam na Casa dos Insetos


C., meu amor e minha vida. Você é meu céu e meu inferno. Só poderia ser ambos. Você é minha felicidade, minha vida inteira, embora também o encontro violento entre duas linguagens. Porque a linguagem, inclusive a mais brilhante língua, é uma espécie de injustiça, o gemido ao que aspira a mais perfeita felicidade.
Não porque nossa felicidade esteja condenada, ou porque o destino seja injusto, mas sim porque a felicidade é inteligível só sob ameaça; tão inteligível quanto sua própria ameaça”.

Daniel Estulin, Os segredos do Clube Bilderberg. Minha homenagem à vida de espia.



Narrar? Mais que artifício despudorado! Mandaram-me aqui, coisa horrível. É uma reunião nas trevas. Não, parece um porão escuro com uma grande mesa no centro. Pouco vejo o contorno dos integrantes do que parece ser um grande concílio. Acaso os padres trevosos em meio à barbárie medieval também assim se reuniam? Será um encontro de refugiados de um mundo longínquo que foram se esconder nas entranhas da Terra? Estranho… Continuo me sentindo mais vivo do que nunca, mas os homens da superfície mais e mais me parecem serem felizes. E ingênuos… Sim, irei escrever!
Mas que droga! Irão acreditar em mim? Será que as sombras que agora vejo irão cobrir o brilho que reflete em meus olhos, patrimônio de uma alma insaciável, sempre curiosa? Caso me cale, as brumas nunca irão se desfazer. Caso vejam sombras em meus olhos, espuma em minha boca, como na orla a cobrir o mar profundo: como ser claro ao máximo? Nunca deixei de ser, na verdade. O que conto é negro, pesado, pegajoso. Sou como um lixeiro fazendo a varredura. O lixo? Quem não conheceu sua realidade são as madames bem nascidas, acreditando que o mundo nasceu por si só. As madames… Sejam elas homens ou mulheres: lixo doméstico se comparado ao que vejo agora. Portanto, não me confundam com o material com o qual trabalho.
O porão: não foi a lugar tão sórdido que me designaram quando vim trabalhar. Seria uma festa, uma espécie de reunião entre madames e gentis cavalheiros… Por outro lado, conheço meu patrão, sei que lixo pouco não o satisfaz. Enfim, quando entrei porta adentro do suntuoso hotel, encontrei aquela escuridão, somente interrompida por uma meia-luz vinda do fundo do ambiente. Divisei silhuetas e a mesa grande que ficava ao centro. Um mordomo veio me dar boas vindas. Contatos feitos pelo meu patrão. Faço parte de uma comitiva de pessoas comuns encarregadas de levar à luz do sol as diretrizes ali debatidas. Não seria outro meu proceder. Só não atentariam para o modo como realizaria a tarefa.
O mordomo se aproximou. De frente era como qualquer segurança de shopping, bordel ou coisa semelhante que queira aspirar à mínima ordem. Mas o que parecia ser um simples leão-de-chácara tinha um penteado arrumado, brilhando na goma, apesar da escuridão. Quando chegou mais perto pude perceber seu peculiar monolho, bem no centro da testa (nada de olho indiano ou coisa que o valha; era um olho só mesmo, e nada mais). Cena inesquecível! Só para quem não viu e ouviu o que eu tive de ouvir e ver.
Na ponta da mesa, o homem que talvez fosse um dos líderes daquele grupo, era tão magro que parecia ter sido divido ao meio por uma faca ou enxada. Era, de fato, uma pessoa pela metade, embora não lhe faltasse nenhum membro. Era pela metade, sim. Mas pela metade de uma maneira vertical, e não horizontal. Era um anão por ter sido prensado pelos lados, e não de cima para baixo.
Todos naquele ambiente não discutiam assuntos comuns. Todas as siluetas, as quais eu cada vez queria menos conhecer de perto, discutiam assuntos insólitos. Dominar? A quem? Como, se acaso saíssem pelas ruas facilmente amedrontariam a qualquer um? Poderiam ter poderes ainda mais misteriosos ou eram loucos de fato, terrivelmente loucos, como são insanos todos os que veem coisas extramundanas. Mas, com o tempo fui entendendo o porquê da minha presença naquele concilio. Ao meu lado, sentados em grandes poltronas acolchoadas, todo um grupo se reunia. Faziam anotações como eu. Algumas demonstravam grande intimidade com os seres do porão. Depois descobri: todos nós éramos de alguma forma seus porta-vozes.
Posso descrever mais alguns monstros, todos os que consegui discernir, controlando o asco e o medo. Porém, aqueles outros seres, humanos como qualquer um que agora me lê, são absolutamente indescritíveis. Asco? Nenhum. Somente medo? Não só. Descrever monstros é fácil, a mentalidade popular rapidamente os aceita, cabendo sem muito esforço em algum recanto de seu imaginário. Descrever seres reais, que muita gente conheceu ou pensa conhecer, afundados no mais profundo colóquio com seres imaginários – e terríveis –, para muitos não é crível.
Políticos? Eram só uma parte. Atores, jornalistas, membros de organizações internacionais aparentemente voltadas para fins pacíficos: platéia dos monstros, estudantes e defensores de suas causas? E eu? Jornalista, detetive, agente secreto? Vocês escolhem. Platéia dos monstros? Graças a Deus tive a oportunidade. Estudante de suas causas? Com certeza. Advogado deles e promotor de suas deliberações? Mesmo que voltemos a viver numa nova Idade Média, não! O correto de dizer é que para cada um daqueles seres havia outro, mas humano, que lhe corresponderia as idéias e as traria para o mundo dos vivos – o mundo em que as conspirações acordam e são propagandeadas com belas palavras por pessoas sempre muito bem colocadas socialmente. Os seres daquele outro mundo querem fazer desse a imagem e semelhança do seu. Como numa nova Idade Média, de fome e genocídio. Com a autorização de uma figura ilibada, como a do Papa, ontem – e hoje?
Alguns seres místicos dão o nome de Umbral à paisagem cinza que supostamente é o tabernáculo das graças divinas. Darei o nome de Gargalo. É porque me lembra coisa boa… De vinho, de cerveja – sei lá. Pouco me importa. Todas as garrafas tem um. Matam a sede! Ah! E que coisa melhor, mais notória, do que estar falando com seres se não extraterrestres, pelo menos muito extravagantes? Ah, uma senhorinha de boa família, kardecista talvez, disse que falo com desencarnados. Que coisa horrível! Me lembra também seres cinzas, cadáveres sem pele e com carne ainda aparente. Já sem sangue, mas ainda resistentes, penduradas nos ossos. Assim fica melhor nos filmes de terror, mas também nos filmes de ficção de científica. Qual cor do ET? Por que essa cor? Será que na imensa galáxia somente seres descolorados como cadáveres não de todo decompostos? Ah, tudo cinza como um belo Gargalo! Gargalho de cachaça, gargalo de cerveja. Não, mas as senhoras pedem vinho. Algumas gostam daquele doce… O bom é que nessas ocasiões deixa algo um pouco mais barato. Hum! Mas o chique é o que dá travo na garganta, o que a deixa embolada, que desce bem quente, o que assusta as senhoras kardecistas e as madames de pendor anti-comunista. Nada como a velha-guarda! Não, não vivemos mais na Guerra Fria.
E por que, para entrar em contato com nosso humílimo planeta, tem que estar “fora do corpo”? Por que não alguém de carne e osso de verdade, mesmo sendo cinza – vai lá – (não sei também se fede, se é gosmento – esses filmes de ficção são terríveis, mais assustadores do que o Jack das sextas) não pode vir falar conosco? Mas tudo o que eles falam são fantasias verdes, floridas como um entardecer num campo daqueles bem bucólicos – fantasia romântica, estética pós-moderna, suave como um filme para casais endomingados, música de fundo do roteiro da aposentadoria. Falavam assim, os seres terríveis, tranquilos como num piquenique ou num funeral:
– O importante é se achar uma fonte perene de energia. Para que novas descobertas científicas? Nós somos Prometeu. Nós ensinamos tudo aos seres brutais desse planeta. São sete ou oito bilhões de seres. Nunca imaginamos isso! Como vamos controlar algo assim? E se resolverem habitar a lua, os planetas próximos? Irão por acaso nos igualar? Para quê? O importante é colocar tudo num ritmo bem lento, bem marcado como no relógio de Newton, esse nosso grande representante, nosso mordomo-mor. A única tecnologia aceitável é o enriquecimento dos minérios, fazerem trabalhar como um carregador de areia que coloca todo o peso por cima de um caminhão que, logo cheio, despeja tudo novamente na praia. Trabalho horrível, próprio aos seres desse lugar. Cogumelos atômicos para todos os gostos. Mini-bombas nucleares ou de médio alcance, de precisão irrepreensível. Eles têm de estar prontos para destruírem nossa criação caso ela saia do controle. Tecnologias perenes com a bomba como limite. E espalhar a confusão – esse é o negócio mais importante.
– É genial. Nosso mago, preto como a luz que não existe nesse céu, não poderia falar palavras mais sábias. Tecnologias perenes com a bomba como limite… Não se pode desenvolver o nuclear porque o nuclear supostamente é o que destruirá a fonte de toda energia, ou seja, a capacidade de criação de novas fontes, como exemplificado nas descobertas que fizeram os humanoides se multiplicarem. Densidade de fluxo energético! Coisa horrenda. Calma: antes de complicar, gostaria de esclarecer um ponto. Se dependessem dos fósseis, os terráqueos não teriam chegado nem no espaço deserto que ainda é do satélite natural de seu planeta. Mesmo assim, não foram capazes de habitá-lo… A capacidade de transformar os desertos em áreas verdes exige um valor agregado de investimento, o emprego de alta densidade de fluxo energético, que um planejamento econômico razoável pode mostrar que a possibilidade de fazer reviver os desertos do planeta não consome menos trabalho do que a colonização da lua, ou seja, da habitação do pequeno satélite natural. Esses dois planejamentos fazem parte de uma mesma plataforma econômica, porque baseados no mesmo modelo energético. Ionização do ar em larga escala, dessalinização das águas marinhas, trens de altíssima velocidade para integrar espaços remotos: depois falam que chegar à lua é algo trabalhoso! E terão de ir até lá para buscar, minerar mesmo em suas pedras o componente chamado hélio-3 para fabricarem sua tocha de fusão. Mais que disparate! Voltemos à era dos dinossauros, à época anterior ainda a dos combustíveis fósseis. Fontes perenes de energia, esse nosso lema. A humanidade de movendo com a energia do sol e dos ventos. E nada mais – veja lá.
– Nunca a humanidade cantar como um Dante em pleno século XX!

Oh strange beautiful grass of green
with your majestic silken scenes
Your mysterious mountains
I wish to see closer
May I land my kinky machine1

– Não falaremos de máquinas engenhosas – bizarras – capazes de explorar novos mundos, conquistar o espaço, ultrapassar as barreiras do relógio newtoniano. Falaremos de armas táticas, nome tecnocrático para dar conta da precisão com que cumprimos nossas responsabilidades, da padronização de nossas condutas, do respeito à Terra que ainda temos. Micro e médio bombas termonucleares. Ah, grande descoberta da ciência! O grande perigo asiático: esse também outra descoberta fundamental de nossos teóricos, de nossos conhecedores do Oriente, sejam os povos semíticos cujas mulheres vestem burca ou os de pele da cor da terra, mais antigos do que qualquer outro na civilização, passando pelos estranhíssimos povos de cor amarela e olhos puxados. Nossos inimigos porque o planeta tem de estar dividido ao meio, rachado, um “arco de crises”, como na excelente expressão cunhada por um de nossos maiores ideólogos. Um arco de crises que na verdade é o fio de nossa espada no peito daquele que pretende ultrapassar a linha imaginária por nós traçada. Isso sim é ser reacionário. Não deixar o outro avançar. E cada vez que encontramos fraqueza em nossos oponentes, os colocamos mais e mais para trás até caírem no abismo que cuidadosamente criamos para eles logo ali atrás, no lugar sem fundo, no fora do mundo para onde vamos lançar todas as raças ingratas, as que não reconhecem e não se submetem à nossa superioridade.
– Mas como nós controlaríamos uma guerra de aniquilação total?
O ser arrumou seu longo vestido negro cujas extremidades se arrastavam pelo chão, agarrou um bom punhado de pano, cruzou as pernas e deixou o tecido suavemente arrastar por sua pele. Ritual marcado como daquele fumante que, para responder uma questão mais difícil feita a ele, tem sua maneira própria de dar uma tragada em seu cigarro ou charuto. Tecido grosseiro, e ninguém se atreveria a saber da maleabilidade de sua pele, provavelmente descarnada, tendo em vista a condição de geral dos seres humanos que se encontravam naquele ambiente.
– Bem, já estamos bem avançados nesse sentido e até me surpreende sua pergunta. Sei que o desafio não é pequeno, nos chamam de utópicos – na verdade, nossa doutrina é utópica. Alegam que um ataque total, termonuclear, seria respondido imediatamente pelos povos asiáticos, o que resultaria numa guerra de aniquilação geral. Não digo que nosso objetivo não seja matar muitos, mas duvido da capacidade dos seres inferiores, orientais, nos fazerem frente. Temos fronts de guerra em todos os lugares; nos mares, em terra. Sempre muito próximo ao nosso alvo. Falamos em defender a segurança planetária, em garantir as liberdades democráticas, etc. Ora, o que estamos fazendo aqui? Agimos na escuridão, somos da escuridão, não temos medo de nada que possa vir dela. Nossos inimigos se mobilizam com rapidez, mas ainda mais rápido construímos uma enorme fortificação capaz ao mesmo tempo de defender e atacar. Não haverá “segundo ataque simultâneo”. Queremos a redução populacional, mas não precisamos da aniquilação desse planeta. Pelo menos por ora. Já que não escutam nossa doutrinação, tão bem travestida em argumentos esteticamente arranjados – um mundo livre, paz, meio ambiente – teremos, devido ao atual momento, de utilizarmos da força para fazer valer nossos planos. Não é o que queríamos… Ah, que pena!
– Malthus, Malthus, Malthus! Ouço o som em todos os lugares. Também nos chamam MAD! Ah, belas lembranças de nosso nobilíssimo trabalhador, sir Bertrand Russell. Mutual Assurance Destruction. Não deu certo àquele tempo. Agora somente um lado irá sentir nossas garras…
– Mais da metade da humanidade!
– E quanto às perdas em nosso lado? Alguém tem que fazer minimamente essa conta.
– Escudos antimísseis na Europa, a Alemanha novamente de nosso lado, uma frota imensa no Pacífico com aproximadamente oitenta por cento de nossa capacidade nuclear, mísseis nucleares táticos, de tamanho médio a pequeno, de altíssima precisão. Ah, se quiserem se livrar da destruição que iremos provocar terão que novamente ressuscitar o deus Vulcano! Fazer revolver as entranhas da Terra, criar um milagre com seres que provavelmente não encontrarão nesse pequeno planeta.
– A China que mudar a moeda! A China quer mudar a moeda!
– Pensam ser a força hegemônica. Querem fazer reviver o império. Pelo menos é essa ideia que devemos passar. São os responsáveis pela queda da economia mundial, são os especuladores. O PIB mundial está em baixa porque são incapazes – sozinhos – de manter um alto crescimento econômico. Quanta audácia!
– Calma! Calma!, interrompeu o ser medonho, coberto de vestes, cuja forma corporal ou identidade não se podia divisar. São incompetentes, não temos dúvidas. Mas o império não é deles. Sempre será nosso. E que nossas garras se estendam a todo planeta. Pouco povoamento – mas antes, o caos. Crise em todos os países. Fome, desemprego, altas taxas de morte violenta… Não importa. Não teremos mais um mundo bipolar: desenvolvido – subdesenvolvido, primeiro e terceiro mundo, estado de bem estar social contra ditaduras. Tudo será um! Uma morte lenta de um lado. Morte veloz de outro. Uma se alimenta da outra. Sim, Malthus, voltaremos aos níveis sonhados por você. Um bilhão, um e meio – não mais. Um mundo com dez, quinze bilhões é praticamente impossível de ser controlado. Grandes projetos de reconstrução econômica e projetos espaciais, crédito público abundante e assistência às populações que passam fome: o mundo tem que ser um lugar inabitável para nele habitar apenas aqueles que merecem. Nós, os mais fortes. Habitar desertos, fazê-los novamente verdes, habitáveis. Fazer viagens interplanetárias e construir colônias no espaço. Estranhas especulações, principalmente se levarmos em conta que boa parte dessa área desértica no planeta fomos nós que com nossas bombas assim a tornaram. Efeitos perenes, como perenes são as fontes de energia utilizadas pelos escravos humanos. Como nos geradores elétricos movidos a força humana, como sonhados por Bentham. Força do ar e força do sol, força dos moinhos de vento. O sonho dos que querem o mundo bem politizado, mas sempre correto. A utopia: esse nosso nome.
– Mas a Rússia se prepara. Ela se pre-pa-ra – falou como que com medo um ser grotesco que para cada sílaba pronunciada fazia gestos com cada um de seus três dedos erguidos de forma sucessiva em respeito ao ordenamento da palavra. Preparação! E se eles atacarem primeiro?
– Mas não ousam. Não tem nem capacidade para isso. Vamos colocar muito medo, muito mesmo. Vamos sufocar economicamente, politicamente. Utilizar as mídias que só muito timidamente nos anuncia. Não falam nosso nome, a Super Quente Nova Guerra Fria. Mas nos preparemos para atacar. Ninguém pode sequer ameaçar nossa superioridade, nosso papel de liderança mundo afora. Quando o círculo estiver fechado, BUM! E será apenas um ataque, e uma nuvem de fumo monstruosa irá se erguer, o pânico chegará a todos os lares. Faremos nossa festa, por que não?
– Mas a Rússia se prepara. Ela se pre-pa-ra – voltou novamente a falar o Três-Dedos.
– Agora são vocês que estão com medo ou estou enganado? Não é esse pelo menos nosso objetivo primário, quero dizer, preocupação, ansiedade e crise econômica generalizada? Não é esse o objetivo primário para manter a população sobressaltada, fazer reviver o moralismo, reviver a caça às bruxas – tudo pelo sistema de justiça, por calúnias, acusações infundadas repetidas até a náusea pela mídia. Neomacartismo! Como me soa bem essa palavra…
– Estamos focados em sonhos utópicos de Wunderwaffen, “ataques cegos”, teleguiados por sistemas imunes a falhas baseados em sistemas de inteligência artificial com mísseis antibalísticos não-tripulados. Ataques cibernéticos também estão em nosso arsenal. O antigo presidente chegou a ameaçar os asiáticos com isso. Falha no sistema bancário deles, em seu sistema militar… Provocações com notícias falsas (e são nossos jornalistas que querem dizer o que são ou não notícias falsas – hipocrisia grossa, a que soa bem a nossos ouvidos). Gás sarim. Pura mentira. Abatemos aviões  dele com nos utilizando da Turquia. Abatemos agora aviões sírios com nossos próprios aviões. Enchemos de bomba suas instalações militares depois que o presidente sucumbiu aos nossos informes mentirosos. Mas aquela cabeleira do presidente grotesco… Ela parece que se deixa levar por um vento que vem da esquerda… Achei que poderia ser um dos nossos. É quase tão grosseiro como nós. O que o faz ainda não sucumbir? Continuaremos os ataques, muitos e muitos mais ataques. Acoar o inimigo até a confrontação se tornar inevitável. Ufa! Me deu até cansaço.
– Mas ela, a Rússia, se prepara! E a China com certeza irá junto. Hitler, Napoleão – todos os nazistas nossos irmãos e que perderam suas batalhas no oriente. Eles se utilizam de ataques surpresa – sempre. Nunca saem de suas fronteiras, mas sempre nos surpreendem… Tenho que concordar com meu amigo gago.
– Somos os reis da utopia!
– E o que sobrará?
– Pouco importa. Vamos em frente.
E todos gritam vivas e abavam os roucos protestos vistos até agora. Utopia.

1 Jimmy Hendrix. Third Stone From The Sun.