Sombra Projetada: experimentações na modernidade



No grupo de estudos que mantenho no Facebook, sobre estudos “pós-foucaultianos“, a colaboração de um de seus membros, Edmílson Jr., numa pesquisa que fez junto a um professor, se não me engano da UFC, aponta para o que Foucault alertou, num texto bem tardio, de 1984, chamado “O que são as Luzes” (não confundir com o outro, o de 1983, “O que é o Iluminismo” – coloco os links para os textos no final da postagem) para a necessidade de se buscar certa homogeneidade na identificação dos processos modernos da constituição de si mesmo, de uma ontologia crítica de si mesmo, ou, mais brevemente, na identificação do que é o éthos moderno. Ele se expressa dessa maneira:

“Homogeneidade. Conduz ao estudo do que poderíamos chamar de ‘conjuntos práticos’. Trata-se de tomar como domínio homogêneo de referência não as representações que os homens se dão deles mesmos, não as condições que os determinam sem que eles o saibam, mas o que eles fazem e a maneira pela qual o fazem. Ou seja, as formas de racionalidade que organizam as maneiras de fazer (o que poderíamos chamar de seu aspecto tecnológico), e a liberdade com a qual eles agem nesses sistemas práticos, reagindo ao que os outros fazem, modificando até certo ponto as regras do jogo (é o que poderíamos chamar de versão estratégica dessas práticas). A homogeneidade dessas análises histórico-críticas é assegurada, portanto, por esse domínio das práticas, com sua versão tecnológica e sua versão estratégica”. (FOUCAULT, “O que são Luzes”)

É exatamente essa homogeneidade que é buscada através da utilização do software gráfico Isadora e a vídeo-instalação Sombra Projetada, ou seja, a capacidade de, a partir do uso desse dispositivo, criar um jogo que crie ao mesmo tempo uma espécie de contraponto e metalinguagem ao jogo jogado “do lado de fora”, e assim poder, como um artista, modificar as regras desse próprio jogo. Como ele diz com o co-escritor de seu artigo:

“Em vez de um software de acordo com usas possibilidades – ou, segundo Flusser, de acordo com a programação que me é dada -, eu poderia procurar uma forma de criar um uso. Poderia criar uma proposta artística que gerasse a discussão sobre o próprio aparelho, alimentando o diálogo cósmico e subvertendo o programa. Seria uma pista para a subversão do status quo, uma proposta de mudança partindo de uma variação de perspectiva. Seria necessário que, tomando a distância necessária, observássemos de fora. E, com isso, mudar.

“Essa nova perspectiva abriria as percepções justamente pela potência dialógica que ganha das imagens técnicas. Nessa possibilidade de reinterpretação, os próprios aparelhos, o gadgets, seriam a matéria-prima para uma produção de diálogos com uma riqueza criadora inimaginável. ‘Seríamos, de repente, ‘todos artistas’ (aqui o termo ‘arte’ engloba ciência política e filosofia)’. É então nos gadgets, de acordo com Flusser, que o engajamento revolucionário deve se concentrar. Devemos assumir uma postura crítica perante eles e invertê-los na direção de nossa liberdade”.

Diria mais, talvez. Esse objetivo de “subverter o gadget”, de reinterpretá-lo criativamente, criticamente, é o objetivo da criação do grupo de estudos Pós-Foucaultianos e, de um modo geral, da recente criação de meu blog. Feito essa ponderação, queria voltar à questão dos dois textos de Foucault (o de 1983 e o de 84) e como isso se relaciona com essa postura ou atitude moderna exemplificado pela vídeo-instalação Sombra Projetada. A diferença entre os dois textos é que, talvez, o mais antigo quase parece ser descartável frente à descontinuidade que Foucault acaba por introduzir, por exemplo, quando coloca Baudelaire ao lado de Kant. Diz ele que não é uma questão metafísica, uma questão sobre as origens, uma questão histórica num sentido tradicional que se coloca quando se pretende pesquisar o que é o ser moderno. Na verdade, se pretende entender o “modo de ser” moderno, e isso não passa por uma metafísica, por uma “questão última”, mas pela atitude de ser (ou “do” ser) moderno. Por isso que é introduzido Baudelaire.
Não se trata de saber o que é pré ou pós-moderno em contraposição ao que se chama de “período moderno”. Creio que seria melhor procurar entender a atitude de modernidade, desde que se formou, pôs em luta com as atitudes de ‘contramodernidade'”. Então, um caso de “atitude” e não de postura meramente intelectual como no caso de se “compreender” o que são as Luzes. “A modernidade não é um fato de sensibilidade frente ao presente fugidio; é uma vontade de ‘heroificar’ o presente”. Daí, a meu ver, a distinção fundamental entre Kant e Baudelaire.
Do mesmo modo, existiram muitos “humanismos” (como, de outra forma, “interpretações” do Iluminismo). Um humanismo socialista, marxista, mas também um nacional-socialista e um stalinista. São denominações genéricas, não capazes de compreender esse momento de atitude, de coragem (lembrar da “coragem da verdade” e sua vinculações com a alétheia), que caracteriza o éthos moderno. O texto do Edmílson, a narrativa apresentada ali, respeita bem esse princípio, segundo o qual “para a atitude de modernidade, o alto valor do presente é indissociável da obstinação de imaginar, imaginá-lo de modo diferente do que ele não é, e transformá-lo não o destruindo, mas captando-o no que ele é. A modernidade baudelairiana é um exercício em que a extrema atenção para com o real é confrontada com a prática de uma liberdade que, simultaneamente, respeita esse real e o vila”.
Sem mais palavras sobre todos esses assuntos terminamos com a frase, não mais de Foucault, mas de Baudelaire: “Vocês não tem o direito de menosprezar o presente”. Seguimos em frente!
LINK PARA O TRAABLHO DE EDMÍLSON, ONDE É DESCRITO EM TODOS OS DETALHES E COM A APRESENTAÇÃO DOS VÍDEOS: https://vejaoqueeufiz.wordpress.com/2013/08/13/sombra-projetada/

LINKS DAS REFERÊNCIAS FOUCAULTIANAS: